A blogosfera pode também ser um território selvagem, não isento de logros e de perigos. Uma floresta que apenas ecoa a complexidade da vida que a antecede e permanecerá depois dela se eclipsar para sempre. Em breve, porém, os blogues desaparecerão e serão substituídos por um qualquer outro utensílio que já se encontra algures a ser preparado. Que passará necessariamente pela simplificação e pela massificação de novíssimas e surpreendentes tecnologias. Mas nesta selva ou naquela que vier – como acontecia com Tarzan no seu mundo problemático – serão ainda os humanos, e não bestas, andróides ou forças obscuras, a controlarem os acontecimentos.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
Uma placa giratória erguida como ponto de partida para um algures visível e invisível. Podemos escrever sobre livros e filmes, discos ou concertos. Revisitar debates ou exposições. Falar de caminhadas ao ar livre, de idas à praia, de encontros casuais, de jantares de fim-de-semana. Conhecer causas, manifestos, preocupações privadas ou que atravessam ruas e praças. Ouvir e contar segredos. Em todos esses momentos, vínculos que se criam e definem uma segunda «vida real», situada algures do lado de lá do painel de comandos utilizado pelo blogger. A cliques de distância, nos monitores que permanecem iluminados dia e noite, mais vozes, outros ouvidos, caminhos a percorrer aos quais não seria possível chegar por um outro processo. Linhas de descoberta, certas vezes de aventura. Lugares etéreos de crença e descrença. Mangas de escape.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
«Limita a tua velocidade, não a tua música.» Frases como esta, mostrada num outdoor publicitário da Mega FM que me surpreendeu hoje enquanto conduzia, deveriam merecer um prémio de beneficência pública oferecido pelo Ministério da Qualidade de Vida. Se este ainda existisse, naturalmente.
Editado pela Assírio & Alvim, Por Teu Livre Pensamento é um livro que evoca os rostos e as memórias de prisão de 25 ex-presos políticos portugueses e que acompanha a exposição patente no Centro Português de Fotografia, no Porto, até ao próximo dia 24 de Junho. As fotografias a preto e branco, imagens recentes sobrepostas aquelas que a PIDE originalmente tirou, são de João Pina. Os textos, da autoria de Rui Daniel Galiza, são essencialmente curtos relatos dos trajectos prisionais dos fotografados, construídos a partir de conversas que se pressente terem sido mais longas e densas.
Todos os fotobiografados são resistentes, oriundos de diversos quadrantes, embora maioritariamente do PCP, como seria de esperar e é justo que assim seja. Homens e mulheres de rostos endurecidos por anos de luta e de trabalho político, marcados pela prisão, pela tortura, por vidas em fuga que lhes foram gravando algumas das rugas que se lhes podem agora notar. Todos, sem excepção, a merecerem a admiração dos que chegaram depois e deles herdaram o sacrifício da liberdade. Os trajectos mais extraordinários são, porém, o de Emídio Guerreiro (que jamais foi comunista e cuja vida, para utilizar um lugar-comum, dava de facto um filme) e o de Edmundo Pedro (que declara ter sido afastado do partido contra sua vontade). Ambos contêm uma dimensão de imprevisibilidade, por vezes de capacidade para integrar a aventura, que nos permite adivinhar vidas particularmente únicas e complexas. Edmundo Pedro começou, aliás, a publicar entretanto a sua própria autobiografia, a qual prolonga as Memórias do seu pai, Gabriel Pedro, deixadas num documento único que o PCP, contra o desejo expresso do autor, terá sonegado ao conhecimento público.
No conjunto, o volume funciona como um precioso auxiliar da memória, destacando o rosto e a experiência daquelas pessoas, apenas 25 entre muitos milhares possíveis, de modo a que elas jamais possam ser olhadas como um simples sample do imaginário contemporâneo.
Com os netos a brincar um pouco adiante, dois homens – «feitos», como se dizia antes – inventam à minha frente uma vida trepidante. Por alguns minutos não percebi bem do que falavam eles, assim com todo aquele entusiasmo. Apenas o final de uma frase me ofereceu a chave: «Vais pela estrada e paras junto à casa amarela. Sais do carro e entras na floresta. E segues por ali dentro, mas com muito cuidado, por causa dos índios. Mas atenção, que nem todos eles são de evitar! Pelas pinturas de guerra percebes logo que alguns são diferentes. São os da tribo Tanduí, dos quais te deves fazer amigo. Se conseguires, eles integram-te na tribo e, depois de alguns rituais, oferecem-te o anel Mankala. E será com esse anel no dedo que conseguirás aceder ao nível seguinte.»
Principia aqui uma série de posts ilustrados sobre a leitura. Sobre a inevitabilidade, a compulsão, o sopro, a urgência, as misérias e as exaltações do acto de ler.
Existe um «lado negro da Internet» que passa principalmente pelos blogues. Nele sobrepõe-se a voz do mais forte (aquele que sabe produzir engodos, que dispõe de tempo e de estrutura para investir na agressividade). Não se trata apenas de caminhar por subúrbios perigosos pisando ou atravessando a fronteira do delito (o terrorismo, a pornografia, o extremismo político e religioso, a economia paralela, a fraude), mas de comunicar sem um código ético perceptível. Aqui a utilização do anonimato (não do pseudónimo consistente), associada à utilização parasitária das caixas de comentários, favorece o insulto, a calúnia, a provocação, a instalação da dúvida em relação à fala do outro. Quando alimentado, este ambiente torna-se insuportável, empurrando leitores e criadores para diferentes destinos.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
Gosto, gosto muito, dos blogues que me surpreendem com uma fala que nada tem a ver com a minha, com nomes que nada me dizem. Pensar como jamais poderei pensar, escrever como não sei escrever nem conheço quem saiba. E ler pelo prazer simples de ler.
A facilidade e a informalidade do acesso incorporam aqui um número cada vez maior de pessoas que transportam consigo uma experiência de vida e um acumular de referências capazes de se materializarem no fio da história. Tal como acontece com o testemunho oral ou com as cartas e os diários projectados no papel, são, por vezes, vestígios que contêm uma grande dose de erro, imprecisão ou subjectividade, mas nem por isso perdem necessariamente o interesse. Emergem então enquanto «lugares da memória» – territórios de materialização do passado colectivo, seguindo a expressão proposta por Pierre Nora – que servem para declarar informação, testemunhar representações, alimentar referências perdidas ou desfiguradas. Por vezes aproximam também as gerações.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
A Igreja Católica acaba de eliminar o limbo – a morada das almas que, não tendo cometido pecado mortal, se encontram afastadas da presença de Deus – onde a tradição colocava todas as crianças que morriam sem antes haverem recebido o sacramento do baptismo. Considera agora que aquele reflectia «uma visão excessivamente restritiva da salvação». Em documento acabado de publicar, a Comissão Teológica Internacional, que depende da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Tribunal do Santo Ofício), declara-se finalmente convencida de que existem «sérias razões teológicas para crer que as crianças não baptizadas que morrem se salvarão e desfrutarão da visão de Deus». Resta saber se esta decisão terá efeitos retroactivos e para que servirão as instalações até agora ocupadas por aquele serviço.
Um dos reparos que os puristas da língua fazem à escrita através da Internet centra-se no seu funcionamento como pólo agregador dos processos de destruição do seu próprio ideal de «pureza». A simplificação, a rapidez e a mistura de registos serão factores decisivos de contaminação. Mas se este risco existe – e fica por discutir se ele é necessariamente negativo – também é verdade que uma boa parte daquilo que de melhor e de mais original se tem escrito nos últimos tempos tem, pelo menos em Portugal, começado por aqui, só depois migrando para outros suportes. Incluindo-se nestas contas a prática de muitos jovens bloggers, capazes de treinar aqui a agilidade da escrita e a capacidade para pensarem de forma autónoma. Há poucos anos, por falta de meios e de um estímulo, a maioria deles jamais escreveria com regularidade. Reescrever, rasurar, remeter, são práticas partilhadas que podem aqui apurar a forma, a clareza, a fala.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
Espaços de todas as dimensões procuram leitores, abrindo-se aos comentários, conversando entre si. Os debates decorrem livremente, condicionados apenas pelo grau de informação e de cultura dos autores, pelo estilo de cada um, pela sua capacidade para ouvir e para seduzir por intermédio da escrita e da imagem. Apesar da ausência de um suporte físico estável e localizado, a expressão de opiniões afirma-se de um modo plural e, muitas das vezes, com um grande número de pormenores dada a (quase) inexistência de limites formais aquilo de que se fala e à forma como se fala. Muitas das mais substantivas polémicas públicas têm passado por aqui. Ou confluem naquilo que por aqui acontece.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
As novidades correm depressa. Circulam informações que os jornais ou as estações de televisão omitem ou ignoram. Esclarece-se aquilo que permanece obscuro. Divulgam-se acontecimentos, frases, projectos, descobertas. Ao mesmo tempo, os meios convencionais recorrem às notícias veiculadas pelos blogues, ao seu estilo, às suas preocupações, o que não deixa de ser um sintoma. O hipertexto, como ferramenta de bricolage, perfura então o espaço hiper, colocando a notícia numa linha infinita. Pela mesma via, porém, também o erro circula, dissimulado, sob a forma de fraude ou de boato. Mas tal como nasce, assim se dissolve, mediado pelas vozes que o questionam e depuram.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]