Arquivo de Categorias: Apontamentos

O homem da mala

Se comparadas com os testemunhos individuais, sempre mediados por aquilo que são hoje as pessoas que os revelam, perturbam bastante – talvez mais até a quem por dentro as viveu – as imagens do Portugal do tempo do outro senhor que António Barreto e Joana Pontes nos têm oferecido. Assim aconteceu, durante o episódio da noite passada, com as hesitações daquele homem, de gasto fato completo e chapéu de pano, a velha mala reforçada com um cordel, que tremia ao ver-se na obrigação de atravessar a rua movimentada da cidade grande. Que começava a travessia mas parava, voltando atrás, limpando o suor com um lenço, olhando desesperado como que a pedir auxílio. Naquele início da década de 1960, vindo de longe, provavelmente de uma aldeia ignorada dos mapas do asfalto, o homem tinha medo de Lisboa: dos automóveis que não abrandavam para o deixarem passar, das pessoas que não o saudavam, da incerteza de poder comer a hora certa e de encontrar a morada do conterrâneo que trazia escrita num pequeno rectângulo de papel que não sabia ler.

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    Pela cruz de Cristo

    Como é sabido, encontra-se na matriz do catolicismo popular a ignorância das subtilezas teológicas e a ausência de qualquer reflexão sobre os momentos e os símbolos fundadores da religião de Cristo, mas não deixa de se revelar espantosa a forma como diversas testemunhas, ouvidas em Benavente após o assassinato a tiro da funcionária de uma gasolineira local, justificaram o facto de não terem atribuído grande importância aos fortes estampidos que claramente ouviram. Todas elas declararam que, sendo Sexta-Feira Santa, consideraram «natural» o lançamento de alguns foguetes «para comemorar».

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      Meio-morto

      Hip Hop is Dead

      Por vezes dramaticamente perdida entre as referências que lhe chegam do passado, uma parte da esquerda procura agarrar-se ao que lhe parece serem expressões contemporâneas da rebelião anticapitalista. Uma das estratégias, em curso desde há meia dúzia de anos, consiste em recuperar o hip-hop como expressão cultural de uma contestação de dimensão mundial protagonizada por jovens das periferias – os das grandes cidades, mas também os que habitam as áreas excluídas do planeta – ou por aqueles que com eles se identificam. E todavia, o próprio movimento, emergente a partir da década de 1970, foi gradualmente perdendo a sua força reivindicativa, tendo-se separado do mundo dos gangs e da delinquência de rua no qual nascera e onde ia buscar toda a sua primitiva força. Actualmente, como género musical, é apenas um vestígio revivalista, convenientemente domado e aproveitado para actividades de marketing pela indústria discográfica e pelo comércio das roupas e do calçado, quando não mesmo pelos partidos institucionais e alguns movimentos conservadores (como aquele que, entre nós, tem apoiado o «não» no referendo sobre o aborto). Representa um logro desenhá-lo agora como expressão globalizada de uma justa «revolta do oprimido», ou mesmo como emblema de geração. Sê-lo-á quase tanto quanto o velho rock’n’roll.

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        Existencialismo

        Sinatra

        Seguindo a informação fornecida pelo teólogo anglicano Keith Ward em God: A Guide For The Perplexed, a canção mais pedida nos cerimoniais dos crematórios britânicos é My Way. «Vivi à minha maneira», bradava ali o sábio existencialista (igualmente católico e mafioso) Francis Albert Sinatra. Não «à Sua», de Deus, como outrora se acreditava ser a única forma de viver. Mas «à deles», solitários e infiéis defuntos.

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          Heróis do silêncio

          Os heróis silenciosos são figuras particularmente admiráveis. Aqueles, aquelas, que longe das tribunas aprenderam a observar, a calar, a murmurar. Para agirem sem hesitação quando chegado o momento certo. E depois regressarem ao silêncio, provavelmente para sempre.

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            A útil paisagem

            Snob, habituei-me desde cedo a desgostar de paisagens compostas e demasiado bonitinhas. Panoramas suíços de folheto turístico, tresandando, como os jardins barrocos, a uma natureza antinaturalista. Propaganda new age, wallpapers cintilantes, landscapes supostamente relaxantes nas paredes de restaurantes chineses ou salas-de-espera de dentistas dos subúrbios. Sempre algures entre a pieguice ultra-romântica e o kitsch pequeno-burguês. Até conhecer hoje, através do Público, aquilo que, se o pudesse fazer, a um cego apeteceria fotografar: «uma paisagem com o mar ao fundo, com o pôr-do-sol a reflectir na água».

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              Depressão

              De acordo com dados fornecidos pelo Infarmed, em 2006 os portugueses gastaram cerca 82 milhões de euros em sedativos, hipnóticos e ansiolíticos. Acontece porém que a depressão, por estes lados, parece ser um factor cultural e uma doença crónica. O mínimo que o Estado pode então fazer, em tais circunstâncias, será aumentar a sua comparticipação neste tipo de fármacos. Permaneceremos sedados, é verdade, mas com mais uns quantos euros no bolso.

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                O regresso das power ballads

                Isqueiros

                C. fumava em público e orgulhava-se de não pagar licença de isqueiro. Para o provar, exibia durante cinco segundos um daqueles encendedores espanhóis, de cordão em fibra de algodão, que se guardavam ainda em brasa no bolso das calças. Creio que a chama se extinguia pela rarefacção do oxigénio. E, que me lembre, o único problema detectado consistia, principalmente para os outros, num intrigante cheiro a tecido queimado. Por mim, sempre preferi os fósforos. Até ao dia no qual fiz o upgrade para o meu primeiro isqueiro de usar e deitar fora.

                Eu e C. seguimos caminhos muito diferentes. Encontrei-o há dias num almoço revivalista: próspero, continua fumador, mas serve-se agora de um caríssimo Bugatti. Por mim, fiel às origens e para me prevenir das consequências da actual fúria proibicionista, comprei hoje uma dúzia de vulgares acendedores em plástico. Se os novos fiscais dos isqueiros me apanharem, posso sempre inventar que sou fã dos Scorpions e que apenas me sirvo deles para acompanhar power ballads em concertos ao vivo.

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                  Uma cabra, dizem

                  Leni Riefenstah

                  Um livro de Steven Bach, Leni: The Life and Work of Leni Riefenstahl, pretende acabar de vez com a desculpabilização histórica da realizadora de O Triunfo da Vontade, falecida em 2003 aos 101 anos de idade. Para além da sua intensa ligação com o nazismo e com o próprio Hitler (bastante íntima mesmo, é o que consta), Riefenstahl terá sido muito mais – e para pior – do que a sua dimensão plástica nos fez acreditar. Nestes dias de humanização de gente sinistra à custa de muita maquilhagem e de bastantes falhas da memória, parece-me bem que alguém como Bach, um antigo vice-presidente da United Artists, afirme com todas as letras, e procure prová-lo, que Leni «era uma cabra». Pelo menos, para que se não continue a dizer que era apenas uma esteta levemente distraída.

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                    Info.com

                    O Portal Zone informa-me. ÚLTIMA HORA: Irmã de Oliveira libertada. Calculei logo os horrores pelos quais havia passado uma idosa irmã do realizador, ou a matrona nortenha de bigode, accionista minoritária da Olivedesportos. Afinal tratava-se da mana de um avançado brasileiro do Milan. Não o conhecia, mas admito que a sua existência seja vital para um grande número dos clientes da Optimus.

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                      Ebulição

                      Por razões que não sei explicar, um post que se encontrava mais abaixo, levianamente intitulado «That’s entertainment!», evaporou-se e levou sumiço. Com ele foram-se também os comentários de alguns leitores. Mistérios de um backup com o qual a WordPress me ameaçara horas antes. Por via das dúvidas, relembro que apontava ali para um texto de José Medeiros Ferreira sobre os motivos pelos quais este não assinou a declaração pública de alguns historiadores a propósito do concurso Grandes Portugueses. Ah, e declarava também a minha concordância com JMF.

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                        Sulfúreo

                        Segundo Luis Bassegio, responsável por uma organização ligada à Confederação Nacional de Bispos do Brasil, deverá ser espalhado enxofre pelas áreas pisadas por George W. Bush durante a sua actual visita ao país, de modo a «exorcizar o diabo». O hiperactivo e sagaz Hugo Chávez já havia, aliás, relacionado Bush com o capeta: na Assembleia-Geral da ONU, o caudilho venezuelano declarou há algum tempo que a tribuna na qual discursava, utilizada pouco antes pelo presidente dos Estados Unidos, cheirava a enxofre. O mineral amarelado que, de acordo com as descrições bíblicas do Inferno e os sermões exaltados de uns quantos pregadores fundamentalistas, o diabo deixa ficar por onde passa. Sabe-se como a esquerda latino-americana é, em regra, profundamente maniqueísta. Mas torna-se difícil concebê-la assim, medieval.

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                          Boxe e badminton

                          No mesmo número do mesmo jornal da manhã. Vasco Pulido Valente, na sua reconhecida vertente Caterpillar, demole a RTP (que «sufocou, censurou e suprimiu o Portugal inconformista e moderno») e a sua festa do 50º aniversário («não devia comemorar, devia chorar».) Já Laurinda Alves, na consabida versão Aspilia foleacea que se lhe aceita, afaga a estação cinquentona («foi na RTP que comecei a trabalhar») e elogia a celebração (com «muitas pessoas muito comovidas»). É em momentos assim que dou valor ao facto de não ter de viver na República Democrática Popular da Coreia.

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                            Baudrillard

                            Baudrillard

                            Na morte de Jean Baudrillard (1929-2007), aquilo que de melhor sobre ele se poderá dizer talvez tenha sido resumido num parágrafo do Libération:

                            «Baudrillard era a própria curiosidade. Não falhava nada, nenhum livro, nenhum artigo, nenhum gesto, nenhuma paisagem, uma exposição, um filme, uma expressão num rosto, uma postura, um fato, um lenço, um logotipo, uma sombra, um ecrã de televisão, um candeeiro a gás, o asfalto molhado da chuva, uma peça de teatro, um conflito político, uma guerrra. Parecia errar, vagabundear num passo preguiçoso, roçar o olhar por tudo, sempre pronto a sorrir de tudo.»

                            Chama-se a isto viver, parece.

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                              Uma verdade inconveniente

                              Uma das formas de censura mais perigosas e perversas é aquela que é feita com o consentimento dos próprios censurados. Não posso deixar de condenar a forma como um determinado jornal diário resolveu ver-se livre de uns quantos colaboradores regulares, deixando no ar a vaga possibilidade de, pontualmente, poder recorrer a eles. Mas incomoda-me igualmente a forma como estes, para não enfrentarem a direcção do jornal e perderem essa eventual possibilidade, ou então por um certo dever de lealdade, entenderam silenciar o facto. Compreendo-os e, para ser sincero, talvez tivesse feito a mesma coisa. Mas como neste caso não tenho obrigação alguma para com a ingratidão e a fraqueza de carácter, aqui fica o apontamento.

                              Nota posterior: Uma excepção a este «pacto de silêncio» foi expressa por Vítor Dias. Independentemente de me agradar ou não o registo que VD ali exprimia, não posso deixar de destacar a sua atitude.

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                                A OPA e eles

                                Apesar do estrépito mediático, aquela OPA, como qualquer OPA, desinteressou-me de todo. Bem sei que jamais serei próspero e invejado por não ligar muito à vida financeira do país – ou à minha própria vida financeira –, mas talvez seja um pouco mais feliz assim, sem apertos de ventre por causa do valor das acções, diarreias determinadas pela oscilação dos preços do crude, náuseas impostas pelas sequelas de um qualquer golpe de Estado ocorrido no principado de Andorra. Por isso, pouco mexeu com a minha pacata existência a recém-concluída novela (será que foi?) a propósito da oferta pública de venda das acções da Portugal-Telecom. E, em princípio, nem deveria quer saber – como o não querem saber talvez uns 99% dos portugueses – se foi o dr. Granadeiro ou o eng. Belmiro quem ganhou a contenda. Mas, sinceramente, comecei a preocupar-me um pouco quando ouvi na televisão as entrevistas balbuciantes dos accionistas que em assembleia votaram contra as pretensões da Sonae. Soou-me muito a capitalismo «de patrões», e não a atitude «de empresários». A conservadorismo de quem deseja o lucro imediato e tem medo do risco e da ousadia que, tanto quanto ouvi dizer, serão a fonte da fortuna. Mas poderá ser impressão minha. Coisa de ignaro em questões de boa e de má moeda, um tipo que se esquece sistematicamente de abrir os suplementos de Economia.

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