
Há semanas, numa das suas tiradas inspiradoras de reações imediatas e primárias a quem nelas crê ou se revê, André Ventura afirmou em pleno parlamento que o número de presos políticos em 1974-1975 foi muito superior ao dos detidos nas vésperas do 25 de Abril. José Pacheco Pereira contrariou-o, mostrando ser a afirmação uma completa falsidade. Da polémica resultou um debate na televisão que pouco acrescentou ao que fora dito, ampliando, todavia, a perceção de que para uma das partes verdade e mentira não carecem de prova, bastando proclamá-las de forma pública e em alta voz.
Quando confrontados com a realidade histórica, ficou claro que os dados de Ventura, além de não terem em conta o todo dos 48 anos de ditadura, omitiam a duríssima atividade da PIDE-DGS nas ex-colónias, cuja inscrição naquelas contas facilmente revela uma desproporção irrefutável e de sinal inverso. Afinal, o que pretendeu ao dizer aquilo que disse foi, como é habitual, desqualificar a democracia e o período de transformações e conquistas sociais que acompanhou a Revolução dos Cravos, desvalorizando, de caminho, a vertente repressiva da ditadura, mostrada como benévola.
É verdadeiro que logo após o 25 de Abril foram detidas pessoas por motivos políticos – agentes da PIDE, altos dignitários da ditadura, sabotadores económicos e alguns membros de grupos radicais –, mas o seu número não é comparável ao dos presos por, ao longo de décadas, se terem oposto ao Estado Novo. Terão então existido casos pontuais de prisões injustas e até arbitrárias, mas praticamente todas corresponderam, não a uma modalidade de repressão sistemática análoga à do anterior regime, mas a uma forma provisória e improvisada de defesa da jovem democracia face aos seus inimigos.
Na polémica sobre aquele episódio que se prolongou depois, faltou, entretanto, um argumento que permite um olhar mais rigoroso e completo sobre o que ocorreu em Portugal nos anos de 1974-1975. Ele contraria releituras recentes, algumas transmitidas às novas gerações pelo sistema escolar, que apresentam o período revolucionário como apenas caótico e desordenado, ignorando a sua dimensão emancipatória proposta pelo MFA e aceite por quase todas as forças políticas. Esse argumento depende da definição daquilo que são as revoluções e das formas que estas tomam, sempre associadas a um tempo extraordinário e instável durante o qual, rodando 180 graus, se mudam regras e a ordem anterior é suprimida, produzindo-se uma nova.
Elas transportam consigo situações de natureza provisória e experimental, abrindo inevitavelmente lugar a um tempo de desordem e conflito. Escreveu Mao Tsé-Tung – um mau exemplo sob muitos aspetos, mas neste caso certeiro – que revolução alguma é «um convite para jantar, a escrita de um poema, a pintura de um quadro ou o tecer de um bordado», contendo sempre uma dimensão de caos e mesmo de violência. Sem estes, aliás, a rutura com a ordem que pretende derrubar, erguendo outra radicalmente diversa, não passaria de um mero episódio, sendo isto ainda mais evidente quando tem lugar em países sob ditadura ou a viverem uma grave crise social.
Nas condições políticas criadas pelas revoluções, vive-se um tempo em suspenso, testam-se regras, confrontam-se divergências e questionam-se práticas, e, justamente porque tudo é novo, ocorrem erros e falhas, só depois emendados. A história está cheia de exemplos desta natureza, como aconteceu nos episódios das revoluções americana, francesa e russa, as mais profundas e poderosas que conhecemos, mas também, bem mais próximos no tempo, nos que acompanharam o fim do «Bloco de Leste» e depois o ciclo da «Primavera Árabe». A nossa Revolução de Abril não foi uma exceção.
Rui Bebiano
Fotografia de Priscilla GyamfiPublicado no Diário As Beiras de 16/5/2026
