
Vivemos asfixiados pelo ruído do «soundbite». O curto fragmento de uma frase ou ideia maior, pautado pela concisão e pelo registo de fácil e imediato impacto. Prática comum na comunicação social norte-americana dos anos 70, espalhou-se depois globalmente, tornando-se um fator cada vez mais percetível e relevante da publicidade e da propaganda política. Na presente conjuntura de excesso de informação e de redução do peso da argumentação sustentada e complexa, associada a uma crescente passividade do pensamento e à dificuldade de concentração de muitas pessoas, o «soundbite» funciona, com a ajuda de televisão, jornais e redes, como poderoso fator de manipulação.
Todavia, existe uma outra forma, rica, criadora e dinâmica, de usarmos a frase breve, conferindo-lhe, sem a necessidade de desenvolvimento formal, uma dimensão densa e plena de significados. Refiro-me ao aforismo. No século XVII, La Rochefoucauld escreveu, expondo o sentido essencial tomado por este género, que «a verdadeira eloquência consiste em dizer apenas o que é preciso, e não seja lá o que for». Chegado do grego «aphorismós» (αφορισμός) e como «definição breve» ou «sentença», o termo refere um curto pensamento de teor moral provido de sentido dinâmico e impacto social.
O aforismo combina então reflexão, saber e experiência, num pequeno todo em que certos aspetos da vida pessoal e da coletividade que reconhece o seu sentido sobressaem sob a forma de mensagem dotada de uma sensibilidade e de uma profundidade que transcendem o momento. Parecendo semelhante ao adágio – que tem a forma singela do ditado popular –, consegue ir bem mais longe que este, uma vez que apela ao conhecimento e à reflexão, e não à simples evidência. Também não resulta da mera intuição, como um «achismo» repentista, mas de um trabalho amadurecido da sabedoria e da experiência.
Grandes cultores do aforismo foram Erasmo de Roterdão, possivelmente o seu criador, Rabelais, Voltaire, Benjamim Franklin, Flaubert, Nietzsche, Kafka, Karl Kraus, Sartre ou Adorno, embora os meus favoritos sejam Montaigne, Cioran e Camus. Nas linhas plenas de sensibilidade e sageza que produziram neste domínio, tenho encontrado o que de mais essencial sobre a capacidade do humano pode reconhecer-se. Pelos meados de Quinhentos, escreveu no registo Michel de Montaigne: «Se a vida não é mais que uma passagem, sobre ela ao menos semeemos flores». E também: «A palavra pertence metade ao que fala e metade àquele que escuta». Ou ainda: «Cada indivíduo transporta consigo o todo da condição humana». Poderá ser-se mais certeiro na arte da concisão?
O mesmo pode dizer-se sobre palavras do romeno Emil Cioran, como «A única coisa que eleva o humano acima do animal é o uso da palavra, mas é este que certas vezes o coloca abaixo dele», e, mais pessimistas, «Desunidos corremos para a catástrofe, em conjunto acercamo-nos dela». Ou sobre três afirmações de Albert Camus. A primeira: «É verdade que que nem sempre escapamos à História, pois estamos mergulhados nela até ao pescoço. Mas podemos bater-nos, no seu interior, para proteger a parte do humano que não lhe pertence». A segunda: «De nada serve a justiça sem a hipótese da felicidade». E por fim a terceira: «O nosso mundo não precisa de almas tíbias, mas de corações ardentes».
Confrontado com os instantes de lucidez contidos nestes aforismos, humano algum, se atento, emancipado e dotado de capacidade crítica, poderá deixar-se embalar ou esmagar pela atroadora torrente dos vulgares e entorpecentes «soundbites». É com estes, como punição sem fim que é suposto aceitarmos, que se procuram condicionar as nossas formas de pensar e de agir em liberdade.
Rui Bebiano
Fotografia de Amador LoureiroPublicado no Diário As Beiras de 17/4/2026
