
Chama-se «pegada digital», ou «eletrónica», ao rasto de dados que deixamos para trás ao usar a Internet. Ela pode ser passiva, composta sobretudo por páginas que visitamos, mails que enviamos e alusões que por ali nos são feitas, ou então ativa, incluindo textos e imagens que produzimos e deixamos em «sites», caixas de comentários e redes sociais. Esta «pegada» pode ser usada com objetivos muito diversos, seja para rastrear a atividade de alguém ou para assinalar a sua presença física e virtual. E por muito que isso possa ser lastimável, quem hoje a não possua pode ver bastante reduzida, ou até apagada, a perceção da sua atividade e até a sua existência pessoal, ainda que estas sejam notáveis.
Esta realidade replica o que se passou, no curso do tempo histórico, em todos os processos de comunicação humana. Independentemente das caraterísticas e das capacidades das tecnologias que se foram sucedendo – da invenção da escrita à tipografia, do telefone ao computador – eles passaram sempre, em termos das marcas do seu uso que vão ficando, por uma combinação de possibilidades e de vontades. As possibilidades dependem principalmente das condições objetivas que permitem comunicar desta ou daquela forma, através de meios mais ou menos complexos e eficazes. Já as vontades são determinadas pela intervenção pessoal, definindo esta o conteúdo e o momento do que se pretende comunicar aos outros, seja de forma privada ou pública.
A dimensão de vontade é aqui crucial, sobretudo quando resulta de um gesto de «diálogo e prática de liberdade», como se lhe referiu Paulo Freire, sendo particularmente importante como alimento da vida democrática. Ao mesmo tempo, se essa liberdade confere a alguém a possibilidade de comunicar, ela implica também o seu desejo de o não fazer. Esta opção, entre o falar abertamente e a necessidade do silêncio está muito presente nas sociedades contemporâneas, onde a hipercomunicação pode tornar-se sufocante, levando a que muitas pessoas a evitem. O que acontece hoje, de forma notável, com a rejeição da participação na Internet, em particular nas redes sociais.
Ocorre então um paradoxo. Por um lado, recorrendo principalmente a este meio, comunica-se hoje mais que nunca, numa torrente de informação e de opinião sem paralelo no passado. Salvo sob ditaduras, agora quase todos podemos expressar-nos ali sob diferentes formas, dizendo o que pensamos, protestando ou aplaudindo, ou partilhando notícias ou conhecimento. Por outro lado, neste mesmo espaço proliferam a informação sem fundamento e o debate desregulado, esbatendo, num ambiente muitas vezes dominado pelo ruído e pela violência verbal, a diferença entre verdade e mentira, objetividade e subjetividade, argumentação e propaganda, ou urbanidade e injúria. Ampliando, como lembra Max Fisher em The Chaos Machine, já de 2022, um ambiente caótico e devastador que tende a favorecer ou a legitimar as formas de autoritarismo.
Nestas condições, muitas pessoas com vidas que possuem dimensão pública e requerem comunicação, preferem ainda assim usar o menos possível a Internet, ou afastar-se de todo das redes, isolando-se sem visibilidade na sua bolha ou atrás de uma grossa parede de silêncio. Desta maneira, a sua «pegada digital» vai-se diluindo, enquanto se lhes apagam os vestígios, como já se nota quando as procuramos no Google e muito pouco ou nada encontramos. A solução está em lidar com o ruído, afirmando com iniciativa, coragem e alguns naturais cuidados formais uma comunicação substantiva, eficaz, inovadora, responsável e livre.
Rui Bebiano
Fotografia de Declan SunPublicado no Diário As Beiras de 7/2/2026
