A complexidade de tudo acima de tudo

Se alguém um dia me perguntar o que de mais importante aprendi nesta vida, tenho a resposta preparada há muito. Não foi o conhecimento útil e inútil (do qual tanto gosto e que cultivo) que fui obtendo, continuo a procurar, divulguei e por vezes ajudo a produzir. Também não foi a beleza e a diversidade dinâmica do humano, que transcende em muito o peso da maldade, da desigualdade e da desgraça. Nem foi mesmo a compreensão do valor da música, para mim tão vital e omnipresente quanto o oxigénio. A mais importante das coisas, que contra ventos e marés tenho procurado praticar e transmitir a quem me escuta ou lê, é a perceção da complexidade de tudo. Absolutamente de tudo, incluindo-se aqui a das formas de fé, sejam elas as religiosas ou as formalmente laicas.

A certeza de que, na verdade, nada é definitivo e explicação alguma é completa, desdobrando-se em vertentes que dão lugar a outras. E de que isso não é fator que reduza o lugar do humano, da sua criatividade, da sua confiança e da sua inteligência. Pelo contrário, essa incompletude alimenta a capacidade crítica, fator indispensável do progresso coletivo e pessoal. É também um instrumento de liberdade, pois, não isentando ninguém de ter convicções e de lutar por elas, impede que se deixe encerrar no seu próprio círculo de vida, crenças e relações. Por isso, aliás, me custa tanto ver quem, apesar de ter na boca essa liberdade, é incapaz de ultrapassar a dicotomia negativa do bom e do mau, ou do branco e do preto, aceitando sem medo, como vital e criador, o princípio da complexa incerteza.

Rui Bebiano

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