
De sentido oposto, «ódio» e «moderação» são palavras que têm sobressaído no discurso público em artigos de opinião, rodapés dos telejornais, manifestos partidários ou estudos de teoria política. O ódio emergiu mais cedo neste panorama, como termo rude que associamos a sentimentos extremos de cólera e repulsa, expressos através de propostas irracionais, violentas e antidemocráticas, tendentes a excluir indivíduos ou grupos, combatendo sem tréguas quem não é, não vive e não pensa como quem o exprime. Teve forte expressão nas primeiras décadas do século XX, esses «tempos sombrios», como Hannah Arendt os designou, em que emergiram os totalitarismos assassinos e genocidas, mas foi controlado no pós-Segunda Guerra Mundial, regressando em força há apenas uma vintena de anos, e não parando, entretanto, de crescer.
Para o entendermos importa referir o regresso à ribalta política de correntes de pendor autoritário e populista, assentes numa linguagem fundada na vulgaridade, na vacuidade e na mentira, bem como no aproveitamento da insatisfação e do rancor do cidadão despolitizado, que se pretendem impor pela violência e sem contestação ao conjunto da sociedade. Elas cavalgam retoricamente esse «homenzinho», incapaz de compreender a manipulação da qual era alvo, que em livro de 1945 – Escuta, Zé Ninguém!, no título da edição portuguesa – Wilhelm Reich considerou fulcral para a ascensão de Hitler e do nazismo. Olhando as estratégias de Trump, Putin, Milei ou Bolsonaro, ou dos seus imitadores de outras latitudes, facilmente veremos como a propagação do ódio, alimentada pela ignorância e pela manipulação, para elas tem sido crucial.
Neste contexto, é tentador, para quem se opõe a esta vertigem ampliada pelos sistemas de comunicação e pelas redes sociais, apelar a escolhas e a atitudes de sinal contrário. A «moderação», apresentada como forma de evitar excessos ao impor o valor do comedimento, do equilíbrio e da prudência, está a ser utilizada nesse esforço. Combatendo com toda a justeza a sensação pública de desordem e de conflito, e apelando ao controlo de emoções e comportamentos, bem como à tolerância. Em Portugal, dela constitui bom exemplo a estratégia afirmada, para já com êxito, na campanha que elegeu o novo Presidente da República. Boa parte do amplo e inesperado consenso que Seguro reuniu ficou a dever-se, sem dúvida, à forma como enfatizou a necessidade de combater o ambiente destrutivo de conflito, gritaria, desconfiança e ódio imposto pela nossa extrema-direita.
Perante os dois cenários, o cidadão comum, razoavelmente informado e dotado de valores essenciais de humanidade e sociabilidade, com uma vida pautada pela paz, pela sensatez e pelo equilíbrio, escolheu, e bem, a via da moderação. Em pleno século XIX, essa fora já a solução proposta por Charles Dickens nos seus romances sobre a sociedade desigual e conturbada da Inglaterra saída da Revolução Industrial, para contrariar a crescente violência social. Estamos agora a assistir, por todo o lado, a uma reemergência desta escolha, o que é compreensível e positivo. Todavia, uma expansão acrítica da ideia de moderação contém também alguns perigos, sobretudo quando as sociedades, pelo receio do conflito, falham em ousadia e capacidade de inovação. A moderação pode ser um belo princípio, mas não deve ser um fim em si, avisaram os filósofos da dialética.
Rui Bebiano
Fotografia de Claudio SchwarzPublicado no Diário As Beiras de 21/3/2026
