De forma bem mais clara do que a adotada pelos setores do centro-direita que, por genuína defesa da democracia, ou por temerem o caos político e social que a vitória de Ventura traria, em Portugal escolheram apoiar abertamente o socialista moderado António José Seguro, alguns setores situados à esquerda do PS já estão a vincar que nele votaram forçados e, como insistem em declarar a todo o instante, «sem ilusões». Algumas pessoas desse espaço foram mesmo mais longe, tendo preferido abster-se ou votar em branco, escolha que verbalizaram antes ainda de domingo passado, embora se tenha tratado de uma ínfima minoria, dado a generalidade dos partidos de esquerda ter declarado apoio ao que a partir de 9 de março será o novo Presidente da República.
Neste território político, apesar do banho de realidade, e de muitos dos seus membros e simpatizantes estarem a apreendê-la, permanecem duas dificuldades básicas. Por um lado, a de compreender o que são realmente escolhas táticas, sentindo forte dificuldade em identificar o inimigo principal e de escolher uma larga e ajustada política de alianças que o combata. Por outro, uma impossibilidade atávica para entender que, no mundo atual, o eixo da luta progressista, não é a luta de classes, o combate prioritário contra o capitalismo e o neoliberalismo, mas o enfrentamento entre as forças da democracia, do progresso, da empatia, e quem espalha o rastilho do populismo, do medo, da violência e do autoritarismo. Num processo que, sem anular as necessárias diferenças, impõe aproximações bastante amplas e realistas.
Rui Bebiano

