1 – Neste domingo de fevereiro menos chuvoso do que se previa, uma ampla maioria de votos expressos entendeu que não queria um presidente eleito com base no ressentimento, no medo e em fantasmas autoritários. A vitória de António José Seguro não representa um milagre nem significa uma redenção do país, é certo, mas é um não claro ao messianismo político e à ideia de que Portugal precisa, para viver melhor, de homens fortes e de dedos autoritários apontados, em vez de continuar o seu percurso como democracia adulta e equilibrada.
2 – Todavia, não é possível ignorar que um terço de quem foi votar apostou no ódio, no racismo, na verborreia e na instabilidade das instituições democráticas. E que perante o dilema um pouco mais de 50% dos eleitores se absteve ou votou em branco. Isto significa para a extrema-direita, há que reconhecê-lo, um forte capital político que precisa começar a ser esvaziado, pelo menos em parte, para tal usando transformações positivas e visíveis ao nível da realidade concreta. E recorrendo ainda, sempre que possível, a essa memória que só interessa à extrema-direita para a falsificar, como aconteceu com a conversa dos «três salazares».
3 – A noite eleitoral nas televisões permitiu observar com clareza, uma vez mais, como parte desse notável capital de Ventura e do Chega advém da sua fortíssima e constante presença televisiva, bem como da complacência de um grande número de comentadores, quase todos da área do centro-direita. Vimos ontem de que forma vários deles tiveram como principal objetivo fornecer à extrema-direita, de modo paternal, receitas sobre como deveria moderar-se formalmente, de forma a conseguir uma maioria e poder governar. Temo que, como acontece em Itália e pode ocorrer em breve em França, ela lhes siga os conselhos.
4 – Quero acreditar, finalmente, que este resultado de Seguro, e a convergência que o permitiu, leve os partidos democráticos, de direita ou de esquerda, a compreender que, para além das diferenças políticas e de projeto que naturalmente os separam, precisam sobretudo, mais do que de retórica inflamada, de ter em conta as necessidades, as expetativas e os objetivos das pessoas comuns, bem como a inevitabilidade de equilíbrios entre diferentes interesses sociais. Ainda que isto possa significar, no caso de quem está na oposição, demorar mais tempo a aceder ao poder.
Nota suplementar: Não posso deixar de lembrar que inicialmente resisti à candidatura de AJS e que, formalmente, o candidato com o quem politicamente me identifiquei foi Jorge Pinto (no qual, todavia, na 1ª volta não votei por motivos táticos). Todavia, reconheço a excelente campanha do agora presidente eleito, essencialmente apoiada no que a larga maioria dos portugueses tem, estruturalmente, de bom, dialogante e pacífico. Quanto aos outros, cá estaremos para demover alguns e combater os restantes.
Rui Bebiano

