
Vivemos um confronto de amplitude e intensidade sem precedentes nas cinco décadas da nossa Terceira República. Ele não se limita à expressão verbal e nas urnas das diferenças políticas, natural e necessária em democracia, mas liga-se sobretudo a uma tentativa de subversão do regime e das formas mais essenciais do convívio social. Esta traduz-se na atividade antidemocrática de um setor que visa alcançar o poder e instalar uma ordem autoritária, servindo-se para o efeito de mecanismos e processos oferecidos pela própria democracia. Tem um rosto visível, o do Chega e do seu líder, mas integra também grupos, alguns de natureza criminosa, que aceitam ou levam ainda mais longe os seus objetivos e a sua retórica incendiária.
Vale a pena relembrar de onde parte e o que defende esta gente até há poucos anos quase invisível. Tem a seu favor uma conjuntura internacional desequilibrada e instável, pautada pela afirmação imperial das figuras de Trump, Putin e Jinping, pelo retorno da divisão do mundo em áreas de influência, pela ascensão das forças populistas e da extrema-direita, e pela disseminação planetária de uma informação parcial, por elas manipulada e apoiada em redes sociais desreguladas, bem como na cumplicidade das televisões e de parte da imprensa. Valendo-se ainda do recuo político, sociológico e cultural, em particular na Europa, das forças do progresso, da paz e da democracia.
Apoia-se também em imposturas e falsidades atiradas sobre olhos e ouvidos do cidadão incauto. Elas assentam em ideias, simplificadas e distorcidas, capazes de influenciar, apenas pela repetição, a consciência de um grande número de pessoas com escassa formação cultural e cívica. Procurando explorar a credulidade, além de problemas conjunturais e medos atávicos, os seus intérpretes voltam pessoas contra pessoas, e denigrem as instituições democráticas e «os políticos» – como se o não fossem também –, atacando as minorias e a diversidade cultural, além, apesar de delas beneficiarem, as conquistas do Estado social, como os direitos do trabalho ou a saúde e a educação para todos. Falsificam também dados sobre imigração e criminalidade, espalhando o ódio e demolindo regras básicas da convivialidade e do Estado de direito.
Na fonte deste comportamento, um profundo desprezo pelos valores da empatia, da liberdade e da democracia. Da empatia por esta privilegiar o respeito e o reconhecimento do próximo, procurando a paz e o equilíbrio em vez do conflito. Da liberdade por ela oferecer a possibilidade de escolha na diversidade dos modos de pensar e de viver. Da democracia porque integra formas plurais, informadas e críticas de intervenção e de representação do mundo. Em Portugal este conflito não está nas ruas, mas está no horário nobre das televisões ou nas primeiras páginas dos jornais, encontrando-se agora na ordem do dia com a segunda volta das eleições presidenciais, onde se defrontarão duas formas inconciliáveis de viver a vida, o país e o mundo.
À parte do que possa pensar-se do passado político ou da personalidade discreta de António José Seguro, no dia 8 de fevereiro este irá representar o Portugal decente e democrático num claríssimo confronto, como tem sido dito e repetido, entre ética e demagogia, entre ponderação e descaramento, entre palavras e soundbites, entre humanismo e boçalidade. Num combate entre quem defende a Constituição de Abril ou quem a deseja ver destruída. Perante a escolha, só a ignorância ou a má-fé podem fazer vacilar.
Rui Bebiano
Fotografia de Andrej LišakovPublicado no Diário As Beiras de 24/1/2026
