Em democracia, a valorização positiva ou negativa do «voto útil» depende sempre, passe a forçada redundância, da utilidade política que ele serve e materializa. Este modo de votar no que se pode considerar um mal menor não é intrinsecamente «bom» ou «mau», mas é vantajoso ou não, de acordo com as circunstâncias. Em eleições legislativas ele quase sempre possui mais de negativo, uma vez que tende a esvaziar a pluralidade das propostas, acentuando a distância entre os grandes partidos, os do poder, e aqueles que fundamentalmente atuam como contrapoder, contribuindo para silenciar as perspetivas que se assumem como alternativas às que são momentaneamente dominantes.
Nas presidenciais, como as atuais, já não é bem assim. Desde logo porque as candidaturas em presença não correspondem a programas de governo ou a projetos de sociedade que estes possam configurar, mas também porque, desde a origem, se assumem como formalmente agregadoras de tendências efetivamente transversais. Uma constatação que se transforma numa inevitabilidade em tempos de crise, de risco e de polarização social, política e cultural. Como o são, no plano nacional e também no global, estes, bem terríveis e incertos, que estamos hoje a viver. Onde se enfrentam, cada vez mais clara e dramaticamente, as forças democráticas e as do autoritarismo, as que defendem um Estado protetor e as que pugnam pelo caos do «salve-se quem puder» neoliberal, as da solidariedade e as do ódio social, as do progresso e as do retrocesso.
Nas circunstâncias do momento, ser-se frontalmente contra a opção do voto útil e, pior, fazer-se um esforço para boicotá-la, por legítimo que seja – e é-o, por isso vivemos (ainda) em democracia -, optando por reforçar margens que não se perfilam como agregadoras no confronto cujo terreno de batalha são as urnas de voto, traduz sectarismo e cegueira. Dando também mostras de infantilidade política ao colocar duas frases, três vírgulas e um rosto de escassa convicção como peças de uma inultrapassável barreira. Esquecendo até o princípio avançado em 1904 por Lenine – jamais identificável como um democrata, como sabe quem sabe – sobre a necessidade tática de, por vezes, para dar um passo em frente ser preciso primeiro dar dois atrás. Ou «engolir um sapo», como propôs Álvaro Cunhal, completam-se agora quatro décadas, nas presidenciais de 1986.
Rui Bebiano

