Arquivos Mensais: Julho 2006

Caminho do mar

Mal assinalada em certos mapas, inteiramente ausente da maioria deles, a ilha utópica de Philos – concebida por Martigny, na Voyage d’Alcimédon (1789), como um república das artes e do amor – encontra-se protegida do mundo por uma geografia singular: a única parte da sua costa que não se encontra cercada por escarpas e enormes rochedos é um pequeno vale. Aí, porém, as águas são tão pouco profundas que os navios têm forçosamente de se conservar a grande distância. O único processo para alcançar a ilha será, pois, o provocar do próprio naufrágio.

    Devaneios

    Operários-leitores

    No inverno passado acordava sobressaltado, de segunda a sexta-feira, impreterivelmente às seis menos um quarto da manhã. Por essa hora de bárbaros, despertava-me a buzina de uma carrinha que passava para transportar os vizinhos ucranianos do 2º andar (ou russos, jamais saberei) até uma qualquer obra da periferia. Já desperto, levantava-me às vezes, e, por detrás da cortina, espreitava-lhes as sombras: apenas homens, os gorros até às orelhas, os pés batendo no chão para afastar o frio, vozes incompreensíveis numa algazarra imprópria para os suburbanos que, como eu, procuravam ainda dormir mais um pouco. Devido à incompatibilidade dos horários nunca nos cruzámos. E fui-me acostumando à invisibilidade da sua presença. Até ontem, quando vi que estavam de partida. Reparei então, empilhadas no elevador e à entrada do prédio, em caixas e caixas cheias de livros amorosamente embalados, grossos volumes de capa dura com títulos em cirílico, revistas com um grafismo estranho mas cuidado, dossiês com recortes de jornais – abri um rapidamente, sem que me vissem, apenas para confirmar se eram mesmo recortes de jornais – que os haviam acompanhado até aquele lugar para eles distante. Mais livros e papéis, muitos mais e mais bem tratados, posso garantir, do que aqueles com os quais tenho deparado nas casas de muitos portugueses com título académico e horários suaves.

      Apontamentos

      O vate do ano

      Ricardo
      Conan Doyle e Albert Camus foram goalkeepers de futebol, desporto ao qual dedicavam horas de preocupação e entusiasmo. Nabokov sempre desejou muito sê-lo. Andoni Zubizarreta Urreta, o basco espadaúdo, amante de ópera, que por mais de uma década defendeu sem rival à altura a baliza de Espanha, mantinha conversas que, a acreditar naquilo que nos conta Javier Marías, «eram só de Joyce para cima». Durante tantos minutos em campo como espectadores solitários, e tal como tem acontecido com pastores e faroleiros, é provável que alguns guarda-redes desenvolvam a imaginação criadora. Não me espanta por isso que Ricardo – o sensível montijense capaz de se concentrar na sua missão fixando, como recordou, «aquele português pequenino, completamente só num mar de ingleses» – tenha podido conceber um poema épico em cinco minutos.

      Adenda do escritor e jornalista brasileiro Nelson Rodrigues (1912-80):
      «Amigos, eis a verdade eterna do futebol: o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários. Um atacante, um médio e mesmo um zagueiro podem falhar. Podem falhar e falham vinte, trinta vezes, num único jogo. Só o arqueiro tem que ser infalível. Um lapso do arqueiro pode significar um frango, um gol e, numa palavra, a derrota.»

        Etc.