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Entretanto em Minsk

O Avante! considerou ser muito relevante «o facto da Bielorússia manter um sistema de auscultação popular alargado» e de no início do mês se terem «reunido pela terceira vez, milhares de delegados na Assembleia Popular de Toda a Bielorússia, na qual foram aprovadas as linhas de orientação socio-económica até ao ano de 2010». Mais adverte que, recentemente, o Presidente Lukashenko afirmou que «o nosso país segue com confiança na via do desenvolvimento escolhida pelo povo, na base da qual estão os ideais legados por Outubro: a paz, a liberdade, a igualdade e a justiça social». E assim sucessivamente.

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    Da servidão

    Começa assim O Homem Revoltado: «Há crimes de paixão e crimes de lógica. Com uma certa dose de comodidade, distingue-os o Código Penal pela premeditação. Vivemos no tempo da premeditação e do crime perfeito. Os nossos criminosos já não são aquelas crianças desarmadas que invocam o amor como desculpa. Hoje, pelo contrário, são adultos, e o seu álibi irrefutável é a filosofia, que pode servir para tudo, até para transformar os assassinos em juízes». Publicado em 1951, o livro de Albert Camus marca a sua ruptura com Sartre, vinculando o ideal existencialista de liberdade à afirmação da autonomia individual e não tanto à integração do sujeito no movimento do colectivo, a qual ele acreditava conduzir ao estado de servidão. Por este motivo, Camus foi acusado de se haver passado para «a direita». As posições no interior de uma esquerda de matriz maioritariamente leninista omitiam, à época, a possibilidade da existência uma tirania do colectivo. Quase vinte anos depois da queda do Muro, os sucessores dessa tradição procuram ainda fugir à questão, vitimizando, se preciso for, alguns dos piores algozes da liberdade de opinião. Ou relativizando o valor da sua acção.

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      Lawrence já não mora aqui

      O abuso do conceito de aventura afirma-se sobre os escombros de vidas passadas, de episódios contados em crónicas antigas, de cadernos de viagem com nódoas e páginas amachucadas, de romances feitos de movimento e distância. Perde a sua dimensão como acto ilícito, subversor do corrente, construído como viático de liberdade e risco, procura de um alhures inatingível do qual jamais se regressará a salvo. No último número, temático, a revista Déserts ensaia a história idílica e o presente encantador das caravanas concebidas para turistas. Procura mesmo perturbar a narrativa paradisíaca do oásis, enunciando o sabor benévolo de um percurso ao sol, sobre as dunas, providos os seus viandantes de roupa e sapatos confortáveis, tendas climatizadas, bebidas frescas, navegação GPS e guias-hospedeiros disfarçados de tuaregues. No caravanserai dos mortos legendários, T. E. Shaw, Lawrence da Arábia, sentir-se-á perdido na sombra de um outro mundo, de um outro tempo.

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        A glória do fumo

        Na década de 1950, recorda um apontamento do suplemento (do DN), a pose das figuras da televisão (e do cinema, acrescento) incorporava o cigarro «como sinal de requinte e sintoma de segurança». Talvez fosse interessante olhar um pouco – neste tempo de antitabagismo irracional (inexistente no mundo islâmico, tal como na maior parte da Ásia, de África e da América a sul de Ciudad Juárez) – para a história dos interditos e da valorização simbólica do tabaco. Reparar na forma como este funcionou enquanto sinal de emancipação (das mulheres, dos adolescentes, dos soldados, dos empregados e dos operários submetidos a cadências absurdas), marca de reflexão e de inteligência (entre os intelectuais ou aqueles que o ambicionavam ser) ou elemento-chave das estratégias de sedução social e amorosa.

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          Solidariedade

          «Nós somos impenetráveis», escreveu um dia Unamuno. «Os espíritos, como os corpos sólidos, não podem comunicar-se a não ser pelo toque na sua superfície, não penetrando uns nos outros, e muito menos fundido-se.» Sem esta consciência, erram, de desconsolo em desconsolo, até ao abandono. Com ela, podem tornar-se solidários sem se sentirem hipócritas.

            Apontamentos, Olhares