Já perdi a conta ao número de vezes em que alguém me disse gostar de ler textos que escrevo, em particular os de natureza ensaística ou de opinião, porque neles abordo «temas complexos» de forma «simples e clara». Considero isto um elogio, embora saiba que muitos autores, numa escolha legítima, preferem a complexidade da forma à essência do argumento, entendendo a simplicidade como defeito. O meu processo de escrita tem, como será óbvio, um trajeto de largas décadas – comecei a publicar em 1970 – e foi sendo depurado ao longo do tempo, com muitos erros, hesitações e asneiras pelo meio. Mas a razão principal daquela característica é a escolha, que assumo, do meu papel como intelectual público, que pensa e comunica para estimular a crítica, a mudança, a cidadania e o conhecimento, visando o que escreve, sempre e imperativamente, um público. «Culto», é certo, mas tão alargado quanto o possível. Jamais consegui entender um antigo colega que certa vez me disse ter uns vinte leitores «no máximo» e bastarem-lhe esses.

