
Na antiga Roma, histrionis começou por ser todo o ator que representava farsas, mas cedo passou a designar um tipo próprio, caraterizado por exibir em cena um excesso de palavras, de timbres e de gestos que diferenciava a sua personagem das demais. Aplicada a este tipo de comediante, o sentido da palavra «histrião» manteve-se até hoje, embora com cambiantes segundo o momento histórico e o lugar. No período medieval, por exemplo, referia o artista itinerante, ou o jogral, que se apresentava, geralmente com estrépito, em cortes, praças e adros. Divertindo, cativando ou atemorizando, não raras vezes ao expressar pela sátira desgostos e dúvidas partilhados com a assistência.
O termo tem designado também uma patologia própria. Antes da sua identificação como doença, vários dos seus sinais haviam sido, por mais de um século, classificados como «histeria», um padrão de nevrose atribuído apenas às mulheres – a palavra adveio da que no grego designa o útero – e traduzida em reações emocionais intensas e instáveis, às quais se juntavam sintomas físicos, como paralisias, espasmos, gritos e dores. A designação foi gradualmente perdendo validade científica, mantendo-se hoje apenas na linguagem misógina ditada pela ignorância ou pelo preconceito. Já as marcas a que aludia foram repartidas por diversas enfermidades.
Uma das principais é o «transtorno de personalidade histriónica». Carateriza-o clinicamente um padrão de emotividade excessiva e a necessidade, por parte de quem dele padece, de chamar permanentemente a atenção para si mesmo, procurando a aprovação dos outros através da sedução. Essa pessoa socializa com as demais recorrendo em regra a comportamentos inflamados e teatralizados, «histriónicos», alternando constantemente entre a dúvida e a certeza, ou entre o entusiasmo e o desânimo. Caraterizam-na também o forte egocentrismo, a autoindulgência, o anseio de admiração e um comportamento manipulador, algumas vezes sexualizado. Todos conhecemos pessoas assim, sabendo-se como são nocivas e perturbantes.
Estes traços têm efeitos perversos quando são exibidos por indivíduos com reconhecimento público e poder, em particular no domínio político. O político histriónico é aquele que os utiliza para alcançar os seus objetivos e como motor de um fascínio obtido através de mensagens muito simples e diretas, invocando de forma oportunista e venenosa, se preciso através da mentira ou da deturpação, necessidades, medos e anseios dos cidadãos, de quem se declara o primeiro defensor. O exemplo mais completo, pela concentração de caraterísticas e pela influência à escala global, é o de Trump, mas outras figuras da política contemporânea, como Milei, Bolsonaro e Maduro, ou mesmo Le Pen, Farage, Orbán, Abascal e Ventura, são claros exemplos deste padrão de transtorno, neles transposto para o palco da democracia, mas ajudando a pervertê-la.
Com perfis cabotinos e coléricos, apoiados pela propaganda paga e pela hiperatividade teatral que asseguram a sua popularidade – e com o frequente apoio de uma comunicação social acrítica e cúmplice –, dão rosto a propostas agressivas e erráticas, sempre vociferadas, pautadas pela imoderação, pelo egoísmo, pela incivilidade e pela falta de empatia humana, que não olham como defeitos. Quem as exibe não procura a coerência, mas uma afirmação histriónica do ego que vê na atividade política antidemocrática, desprovida de equilíbrio ético e sentido do coletivo, o território para ser quem é. Não podem ser os cidadãos informados e livres a oferecer-lhe o ambiente de cura.
Rui Bebiano
Fotografia: «Brick Point», de IncolorwetrustPublicado no Diário As Beiras de 7/3/2026
