
Em defesa do papel indispensável da cultura crítica, costumo afirmar, em especial ao falar para públicos jovens, que «criticar não é dizer mal». Ela emerge naquele espaço da vida coletiva onde se cruzam ideias, factos, saberes, criações e comportamentos, como dimensão na qual é possível compreender e questionar significados, valores, contextos e dinâmicas, sempre afastando hipotéticas «verdades absolutas». A cultura crítica traduz, por isso, um modo de pensar que tende a questionar saberes, ideologias, tradições e formas dominantes de representar o mundo. Apoia-se num pressuposto básico: nada «é o que é», simples, inequívoco, estático, e tudo é complexo e instável, com diferentes e contraditórios sentidos para as dinâmicas da vida e do progresso.
Esta caraterística separa a análise crítica, que contém o debate e o contraditório, da vulgar e oca maledicência, mas torna-a por vezes objeto de desconfiança. Entre nós esta possui três condicionantes que lhe dão uma tonalidade negativa. A primeira recupera comportamentos antigos e atávicos, influenciados pela censura e pela repressão do salazarismo, que pelo medo impunham a rejeição do confronto plural. A segunda prolonga a pedagogia do silêncio, transmitida a partir do sistema escolar e da educação religiosa e familiar, que por largas décadas se manteve dominante. E a terceira integra a experiência, vivida já em democracia, traduzida, em particular em ambientes académicos e até partidários, numa prática débil da polémica.
Todavia, a cultura crítica permite a construção de um rico espaço de conteúdos e de formas de comunicar. Escapando, como Gramsci sugeria, aos territórios da cultura moderna, condicionados por interesses materiais – já denunciados pela «teoria crítica» proposta desde a década de 1920, pelos pensadores da Escola de Frankfurt –, mas fugindo igualmente aos da cultura popular, também esta manipulável. Já a sua ausência, por falta de alternativas ao imobilismo, abre campo às piores perversões do debate cívico, favorecendo o pensamento único e o autoritarismo, condicionando o conhecimento, e reduzindo as condições de diversidade e de criação das democracias. Cedendo ainda espaço à propagação massiva da mentira e da calúnia, munição do populismo.
Imersos na afirmação constante de juízos não-fundamentados, tendencialmente negativos e de sentido único, veiculados em particular por parte da comunicação social, em especial das televisões e das redes sociais, vivemos um clima favorável ao perigoso pântano que as alimenta. Todavia, não se trata apenas da banalização da mentira e do ódio, instigadora das pessoas comuns contra a sociabilidade mais básica, mas da imposição, de um modo ainda mais intenso do ocorrido no passado com a afirmação dos vários totalitarismos, de formas de pensamento apresentadas como únicas certas, aceitáveis e «úteis».
Opondo-se a este panorama, a importância da cultura crítica revela-se na capacidade que detém para alimentar, na construção de sociedades mais livres e melhores, escolhas fundamentadas e coerentes com aquilo em que os cidadãos acreditam ou que desejam. A autonomia dinâmica da reflexão é, pois, um elemento fundamental e imprescindível para, em ambientes plurais, contrariar a imposição, de cima para baixo, dessa cega e aviltante mentalidade de rebanho que Nietzsche com tanta veemência condenou em Para além do Bem e do Mal. Porém, ela não se afirma por si, num registo de conciliação e cega indulgência para com quem a procura silenciar, antes traduzindo um combate constante e a levar a cabo todos os dias.
Rui Bebiano
Fotografia de Constantin HypPublicado no Diário As Beiras de 21/2/2026
