
Gosto de mar e da proximidade do mar, mas não de passar horas na praia, entre grãos de areia, golpes de sol e banhistas ruidosos. Da infância até aos quinze era forçado a viver cada agosto do ano na Figueira (da Foz), suportado por não ter direito de escolha. Salvaram-me os filmes bíblicos e os western spaghetti, os carrinhos de choques e os gelados de cone, as músicas da jukebox e a primeira namorada, mas a praia, a praia em si, esse era um lugar de tédio. Continuei depois a frequentá-la periodicamente, uma vez que o sol me ajuda a diluir alguns problemas de pele, mas o enfado permanece.
Pior agora, quando cada vez mais pessoas transportam os irritantes telefonemas em altíssima voz, feitos antes apenas em carruagens de comboios e cafés de bairro, para aquele espaço público, que se supõe de descanso e de lazer. São chamadas «lá para a escola», assuntos «da empresa», conversas sobre «faturar rápido», exasperações várias sobre isto ou aquilo, tudo durante larguíssimos minutos, que todos os demais banhistas de mar ou de luz solar são forçados a escutar. Um irritante incómodo, por estes dias em que a atenção ao outro parece refugiar-se lá longe, numa sombra qualquer.
[Fotografia de Raphael Nogueira]