
No meio da avalanche imensa que é hoje a sucessão de informação noticiosa e a abundância da opinião, vemo-nos cada vez mais empurrados, queiramos ou não, para temas considerados urgentes ou prioritários. Estes são logo substituídos – por vezes, bastam dois dias para que aconteça – por outros de igual forma julgados urgentes e prioritários, fazendo os mais recentes destaques com que os anteriores sejam logo abandonados. E fazendo também, num processo contínuo, com que determinados assuntos se tornem irrelevantes, salvo para nichos de audiência, acabando por ser confinados à irrelevância da memória ou ao silêncio.
Sem ponta de nostalgia, ao encarar o tema faço uma curta viagem ao passado. Àquele que culturalmente herdei e também ao que vivi. A partir dos meados do século XIX, com o crescimento dos títulos dos jornais, o alargamento do seu corpo de leitores e a expansão da instrução pública que o alimentou, a imprensa tornou-se um espaço influente e plural, onde passou a ser possível deparar com informação crucial sobre o quotidiano, artigos de opinião que alimentavam a expansão da democracia e um volume crescente de abordagens plurais em domínios como a política, a história, a ciência e a tecnologia, a filosofia, as artes e a literatura ou a observação do quotidiano. A partir da década de 1960 reforçadas com a inovação gráfica e a televisão, e, mais tarde ainda, com a Internet.
Essa pluralidade foi decisiva para a difusão massiva do conhecimento e para o alargamento de uma experiência mais esclarecida e plural da cidadania. Articulando o saber oficial, de origem académica, com o chamado «saber comum», ou «cultura geral», por vezes associado à perceção do trivial e ao entretenimento, o que, apesar das advertências de Adorno contra a «perda de aura» do saber convencional, não se revelou um defeito ou um drama. Em consonância, foi possível construir vivências pessoais e coletivas mais informadas, diversas e independentes. Logo em 2001, Peter Watson interpretou-as, na magnífica História Intelectual do Século XX, como geradoras de «uma nova condição humana», mais livre e emancipada.
Pelos anos oitenta, com a ampliação à escala global do controlo do capitalismo neoliberal sobre os sistemas de comunicação e informação, e com o triunfo de uma conceção utilitarista do conhecimento, agora bem mais fundado no uso produtivo ou comercial do que na relevância para o enriquecimento pessoal, essa condição positiva deu lugar a uma outra, bem menos desinteressada e solidária. Ao mesmo tempo, a afirmação da «era do vazio», para Gilles Lipovetsky pautada pelo individualismo e por um alheamento dos «velhos» ideais de progresso e de liberdade, bem como pelo desprezo do conhecimento puro, transformou o grande território do conhecimento e da informação plural num lugar de confronto diário pelo poder.
A paisagem agravou-se nas últimas duas décadas. Com o desregulamento das tecnologias da informação e da comunicação, o funcionamento caótico das redes sociais e a hiperconcentração dos média, reduziu-se o espaço para o saber pelo saber, ou para o valor do «assunto menor» como ferramenta de leituras autónomas. Por sua vez, a usura da informação imediata e volátil reduziu o espaço para a construção livre, plural e «vitalmente lenta» – como propôs Lamberto Maffei no Elogio da Lentidão – das perspetivas do mundo. Situação que tem produzido um novo totalitarismo, apoiado no domínio do conhecimento controlado e imposto sobre a liberdade de pensamento e de escolha.
Rui Bebiano
Fotografia de Igor Demidov («Red Patterns», 2017)Publicado no Diário As Beiras de 10/1/2026
