Coimbra e os álbuns de retratos

Frozen Coimbra. Fotografia de Riki

Nos últimos anos costumo ver, sobretudo nas redes sociais, onde este estado de espírito mais facilmente se revela, a expressão precoce, por parte de muitos alunos da Universidade de Coimbra que frequentam o último ano da sua licenciatura, de declarações inflamadas sobre a «saudade» que já sentem da cidade e da vida que nela real ou ficticiamente levaram. Fazendo-o ainda que aqui contem prosseguir os estudos de pós-graduação. Estão a viver o seu «tempo» – hoje tão curto, por comparação com o dos antigos cursos de quatro ou cinco anos –, e já têm saudade dele. O que é, de certo modo, um contra-senso: agem como se a sua vida se encontrasse em suspenso, pois ainda não é o que será, mas já não é o que foi. Alguns arrastam este estado de espírito ao longo de todo o último ano letivo.

Não discuto o conceito de saudade, primo, sem ser sinónimo, do de nostalgia, que é complexo e já aqui tenho referido. O que observo nesta tendência recente é uma relação com a ideia de saudade que não depende da experiência de cada um, mas antes de uma espécie de romance, inerente à mitografia da vida estudantil, que contraria o próprio conceito. A saudade exprime um sentimento de perda, de falta, de distância, que só se vive na ausência. Mesmo que discutível, ele pode compreender-se quando é partilhado por quem partiu para uma vida noutro lugar, noutras circunstâncias, e sente que não regressa aos que deixou. Mas vivê-lo por antecipação só se compreende na medida em que isso responde, como me parece ser o caso, a uma espécie de marca identitária inculcada – parte dela depositada em livros de memórias chegados de outras gerações  –, assente na ideia de que o auge da existência se cumpre com o fim do curso, com o qual termina uma felicidade irrepetível.

Conheço até pessoas que viveram toda a existência em Coimbra, mas partilham socialmente essa doença da saudade, o que apenas comprova que sentem a perda de uma forma de vida, não a distância de um território idealizado. Trata-se de uma atitude compreensível e legítima que depende muito da estrutura da personalidade e da forma de estar no mundo de cada um. No plano pessoal (esta é a minha escolha, talvez facilitada por aqui viver), lembro com nostalgia muitos momentos, mas não tenho saudade do que ficou. Impressiona-me, porém, que por alguns ela seja sentida por antecipação. Se é que tal lhes pode interessar, sugiro que deixem os sentimentos fazer o seu curso. Que não antecipem o sofrimento, a ideia de perda, que em muitos casos até podem vir a não sentir. E que esperem mais do futuro que do passado. Para este existem as memórias e os álbuns de retratos.

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