O veneno do tabloidismo

Fotografia de Jaroslav A. Polák

Parafraseio de forma muito livre a tantas vezes citada frase com a qual abre o Manifesto Comunista, publicado por Marx e Engels em Fevereiro de 1848: um espectro ronda o mundo da informação, esse é o espectro do tabloidismo. Por toda a parte os jornais mimetizam o modelo de publicação, surgido em meados do século passado, que visava conquistar novos públicos privilegiando o espetacular, o fácil, o fútil, o breve, o colorido e ilustrado, fundado no escândalo, no sexo, na violência e na dor dos outros. E quanto mais, melhor, pois supostamente mais vende. Mas se a tendência existe há largas décadas, ela permaneceu durante algum tempo confinada a certas margens, ou a públicos específicos. Isto fazia com que existissem publicações diferentes para diferentes pessoas, cada uma com voz própria e vocacionada para comunidades de leitores que partilhavam distintos interesses, escolhas, linguagens ou expectativas.

Entretanto, tem vindo a generalizar-se no setor o culto do voyeurismo, da manipulação, da simplificação, da «pós-verdade» – a mentira manipulada, com estatuto de verdade –, num processo que reduz o leitor-padrão ao menor denominador comum. Idealmente, o daquele sujeito que para o carro na estrada só para ver os corpos do terrível acidente, que suspende o garfo junto da boca quando na televisão se fala de um crime, ou aquele outro que não lê mais que duas linhas de texto, preferencialmente com caracteres em maiúsculas ou em negrito. Pode dizer-se que é um processo que resulta de algumas alterações no sistema educativo, mas estaremos mais próximo da realidade se relacionarmos tudo isto com a subordinação da maioria dos órgãos de comunicação a interesses de natureza política e económica que fundam o seu poder justamente na ocultação, junto do cidadão comum, do conhecimento aberto e da verdade múltipla, uniformizando o diverso.

Nessas condições, existe todo um trabalho a fazer para inverter a situação. O pior, porém, é que quem sente o dever moral de o fazer, ou para isso detém capacidades, raramente é quem dispõe dos meios técnicos e materiais para o conseguir. Nos últimos anos, o padrão de jornalista que goza de alguma independência, que vê a sua atividade associada a normas consagradas de deontologia profissional e aos valores mais essenciais da ética democrática, e não separa aquilo que faz de um processo de elevação do conhecimento e de politização do cidadão, tem vindo a ser sufocado pela intervenção do responsável editorial que funciona muitas vezes como um «comissário político» ou, no terreno, pelo trabalho dos jornalistas precários ou inexperientes que lutam em primeiro lugar para preservar o seu emprego, aceitando instruções que noutras circunstâncias rejeitariam.

Os outros, aqueles que poderiam marcar a diferença pelo saber, pela criatividade e pela independência, são cada vez mais empurrados para o desemprego ou para a reforma, ou então têm de mudar de profissão. Alguns refugiam-se – só das minhas relações conheço centenas, posso garantir – nesse nicho de liberdade que, apesar dos inúmeros vícios que também contém, se instalou nas redes sociais. Ou esperam, desesperando, por projetos editoriais mobilizadores. O jornalista Arthur Sulzberger, do New York Times, escreveu que «o objetivo último do jornalismo é informar os leitores, manter todos os dias um compromisso com cada um deles, e não servir apenas interesses particulares». Esses que não se entregam sabem que reside neste princípio de confiança a salvação do próprio jornalismo. O antídoto contra o veneno do tabloidismo que pode matá-lo. A curto prazo.

Publicado no Diário As Beiras de 14/7/2017

    Democracia, Jornalismo, Olhares, Opinião.