Uma Europa pisada e exangue

Bloodlands

Bloodlands, Terra Sangrenta na tradução portuguesa, inscreve-se numa região delimitada da Europa Oriental na qual se fixou, desde os finais do século XVIII até à Segunda Guerra Mundial, com proibição de habitar noutras paragens, um conjunto importante de comunidades judaicas, até aí errantes, com as quais só uma pequena parte da primitiva população se fundiu. Servindo-nos de um mapa atual, podemos dizer que ela se estendia entre o Báltico e o Mar Negro, desde o leste da Polónia até à parte mais ocidental da Rússia europeia, integrando a Lituânia, a Bielorrússia, a Ucrânia e a Moldávia. Ali foi sendo levantado um microcosmos cultural muito próprio, fundado numa sociedade particularmente dinâmica em volta da qual cedo confluíram, todavia, os fantasmas mais negros e letais do antissemitismo. Foi sobre este território que o historiador americano Timothy Snyder desenvolveu o extenso trabalho de investigação do qual resultou uma obra que nos desperta para uma realidade nem sempre olhada de frente.

Num crescendo de espanto e horror, observamos então de que forma, nessa área particularmente devastada durante a consolidação do Nacional-Socialismo e do estalinismo (1933-1938), no período que envolveu a ocupação germano-soviética da Polónia (1939-1941) e nos anos de guerra entre a Alemanha e a União Soviética (1941-1945), uma violência sistemática e intensa, como jamais tinha ocorrido na História humana, impôs em apenas doze anos que catorze milhões de civis, entre judeus, bielorrussos, ucranianos, polacos, russos e bálticos, tivessem sido eliminados. Documenta-se nestas páginas uma verdade assim tornada evidente: ao contrário do geralmente proclamado, a maioria das vítimas arrastadas nesse imenso banho de sangue, sofrimento e morte não foi consumida nos campos de concentração ou de extermínio distribuídos pelos lagern nazis e pelo Gulag – apesar destes terem cumprido a sua importante parte do trabalho sujo – mas sim por meio de ações punitivas lançadas no terreno, de assassinatos individuais e coletivos organizados localmente, rua a rua e casa a casa, de fomes propositadamente desencadeadas e não combatidas, de deportações brutais que impuseram a morte dos detidos antes ainda destes chegarem ao destino «prometido» da prisão e do desterro.

Livros como este ferem o leitor, sem dúvida, mas ampliam também a fundamentação histórica da culpa, mostrando-nos como o trabalho dos carniceiros não teria sido possível, pelo menos na escala em que o foi, sem a justificação da ideologia e, ao mesmo tempo, a cumplicidade de um grande número de pessoas comuns. Não será justo, obviamente, culpar o conjunto das populações não judaicas – e esta culpa tem sido atribuída sobretudo a polacos e ucranianos – pelas colossais vagas de extermínio dos judeus, que aliás também acabaram por atingi-las, ainda que de mais silenciosa e aparentemente mais seletiva. Mas também o não é limitar a responsabilidade pelo assassinato de massas, etnicamente «transversal» em toda a região, aos algozes que a História já se encarregou de julgar. Se nos apercebermos dos horrores de que foram capazes muitos «honestos» cidadãos – que por medo, cobiça, atavismo cultural ou convicção ajudaram as polícias secretas, as milícias e os exércitos da repressão soviética ou nazi – estaremos em condições de melhor compreender, aqui no «berço da civilização», o alcance profundo que podem tomar as políticas impostas pela separação étnica, religiosa ou de classe. Nestes tempos de crescente intransigência e falta de esperança, talvez de tambores que se preparam para rufar, será útil termos presentes as lições amargas que oferece um conhecimento detalhado do passado.

Timothy Snyder, Terra Sangrenta. A Europa entre Hitler e Estaline. Trad. de Rita Guerra. Bertrand Editora. 624 págs.Versão revista de uma nota publicada na LER de Janeiro de 2012.

    Democracia, História.