Anticomunismo e poética do comunismo

Anticomunismo

Nos últimos anos, as tentativas de embelezamento desse «mundo a leste» que desabou em 1989 e de mitigação da memória e das consequências do sistema ultra-repressivo que nele germinou, têm atravessado fronteiras. Em Portugal, porém, elas têm tomado uma forma inusitadamente organizada e sistemática. A causa de tal originalidade é relativamente fácil de decifrar: aqui não se cingem à iniciativa de círculos diminutos e sectários de activistas, mas contam com o suporte de um Partido Comunista militante que conserva peso social e detém um lastro histórico respeitável, reconhecido por pessoas que não partilham sequer do seu ideário e objectivos.

Trata-se de um partido resistente a uma renovação ideológica que é observada, de uma forma que a actual direcção tem vindo a reforçar, como repugnante traição a valores considerados intocáveis. De um partido que jamais reconheceu as consequências práticas e teóricas do movimento de desestalinização vivido ao longo das últimas décadas por quase todas as organizações homólogas, e que vive condicionado por uma animosidade atávica, de recorte leninista, contra essa «democracia burguesa» reputada como expressão de um mundo inferior. Comporta-se ao mesmo tempo como bastião tardio da «ordem socialista» que Gorbatchev e os seus cúmplices «capitulacionistas» se encarregaram de dissolver, e tem vindo – de uma forma cada vez mais veemente nos últimos tempos – a promover o reconhecimento, por vezes a defesa, de experiências e de princípios que o próprio PCUS pôs em causa há mais de cinquenta anos, logo após a morte de Estaline. É assim que, de forma aparentemente miraculosa, a Queda do Muro, ao invés de se transformar num factor de reflexão, de ground zero para projectar a busca de alternativas, se transforma num acto de pura traição que pôs termo a um universo conceptualmente perfeito, enquanto os crimes do estalinismo internacional passaram a ser olhados como irrelevâncias ou a ser evocados, quanto muito, como «erros» menores e justificáveis.

Partindo desta posição, muitos comunistas (do PCP, mas também fora dele) têm observado e comentado, quase sempre de forma crispada e depreciativa, por vezes com alguma violência, os argumentos de quem entende que os horrores do sistema repressivo e concentracionário imposto sobre o mapa do «socialismo real», tal como a punição brutal da dissidência e a gestão do sistema do Gulag e dos seus sucedâneos, não devem ser atenuados e muito menos silenciados. Aqui a palavra-chave é «anticomunismo». Quem critica frontalmente as certezas da actual direcção do PCP ou questiona uma certa «mitografia do comunismo» é então acusado de «anticomunista», quem insiste em apontar o falhanço do modelo burocrático e totalitário e em afirmar que foi horror o horror do Gualg é taxado de «anticomunista», quem questiona valores, princípios éticos e perspectivas políticas de uma esquerda autoritarista porque os considera perigosos, sugerindo que podem existir alternativas democráticas combativas, é qualificado sem apelo como «anticomunista» impenitente.

A perversão é antiga e integra-se na velha tradição dos comunistas russos, anterior à própria Revolução de Outubro – ela está presente, por exemplo, na cisão consciente e brutal com os mencheviques ou na ruptura sem apelo com os socialistas-revolucionários –, que foi depois tomada em mãos por outros partidos-irmãos. Basta lembrar os epítetos lançados sobre centenas de milhares de militantes revolucionários perseguidos e abatidos durante as purgas estalinistas, indiciados todos, consoante a etapa da repressão, como «contra-revolucionários», «fascistas», «provocadores», «capitulacionistas», «agentes da Gestapo», «espiões ao serviço do imperialismo», «lacaios do capital», e, claro, «trotskistas», o que no jargão em vigor no Kremlin e no edifício moscovita da Lubianka passou a significar, no mínimo, criminosos destinados ao pelotão de fuzilamento. Pode, aliás, estabelecer-se uma analogia moderada com o epíteto de «comunista» atribuído pelo Estado Novo a todo aquele que destoasse da ordem que este procurava impor, a quem discordasse ainda que só pontualmente do governo de Salazar, manipulando e diabolizando a palavra, num quadro que foi agravado com a propaganda da Guerra Fria.

Ambas as escolhas foram e são, para além de potencialmente injustas, completamente incorrectas e inapropriadas, voltando-se até contra quem as utilizou e continua a utilizar, uma vez que alienam quem pode, pelo menos em determinados contextos, tornar-se um aliado. Tratam-se, na realidade, de expressões ao serviço de «teorias da conspiração» destinadas a identificar «culpados» para dificuldades e incompreensões que, num quadro democrático, poderiam e deveriam ter sido debatidas ou partilhadas, mas que aqui servem, como referiu Lucien Boia em Pour l’histoire de l’imaginaire, de processos destinados à «redução da história e da política a um só princípio, fundado na crença de que a história avança e a política se faz à custa de conspirações sucessivas». Os conspiradores são então seres apresentados como possuidores de uma inteligência degenerada, como génios malignos que é necessário desacreditar e destruir. Esta atitude diabolizadora é, como se sabe, uma das essências de todos os sistemas totalitários e das ideologias que os servem, e o anti-«anticomunismo» dos comunistas ortodoxos serve-se recorrentemente deste processo.

É verdade que enquanto movimento político e social, e também como atitude individual, o anticomunismo – aqui sem aspas – existe, possuindo um percurso histórico longo e complexo, como o mostra um recente estudo de Miguel Real incluído na obra colectiva Dança dos Demónios. Intolerância em Portugal (Temas e Debates/Círculo de Leitores), mas a generalização constitui um erro de tiro. Porquê? Desde logo porque contestar o dogma ou contrariar a cegueira não significa propor a destruição de quem o faz. No que me diz respeito – pois ciclicamente tenho sido alvo de impropérios desta natureza justamente por me interessar investigar o lado negro da história da esquerda – esse erro é flagrante. Para começar porque defendo o direito do PCP à existência como partido democrático e, mais do que isso, me parece incontornável a relevância do seu papel como parte do presente e do futuro da nossa vida colectiva. Só que este papel necessário apenas pode ser cumprido de forma plena se nele ocorrer um processo de abertura anti-sectária à diferença no interior da esquerda anticapitalista, tendo em conta que esta abertura passará inevitavelmente pelo questionamento, doloroso mas imprescindível, dos dogmas que foram prendendo o partido ao lado negro de um passado que insiste em invocar. Quando tal verdadeiramente ocorrer, quando a experiência da União Soviética deixar de ser mitificada e a maioria dos comunistas aceitar os valores da liberdade individual como matriz constitutiva, ficará claro que o epíteto de «anticomunista» se aplicará apenas àqueles que recusam o direito de opinião e de intervenção aos que se batem contra a ordem capitalista indagando a possibilidade de uma alternativa.

Por isso a experiência histórica do «socialismo real», porque globalmente negativa, principalmente na materialização da sua vertente acentuadamente imobilista, intolerante e repressiva, deve ser olhada de frente, analisada, dessacralizada, criticada sem quaisquer complexos. Seguindo um processo revelado imperativo por três diferentes razões: por uma questão de justiça para com as suas inumeráveis vítimas; para que se perceba que a experiência não pode ser repetida; e para que fique claro que os projectos de mudança devem ter em consideração a defesa básica – a única que pode promover realmente uma actualização do conceito de comunismo – dos direitos e das liberdades individuais, indispensáveis para um desenvolvimento harmonioso das sociedades e para o aproveitamento da capacidade criadora das pessoas. É por defendê-lo como aspecto essencial da vida democrática que muita gente que não é de direita ou «apologista do capitalismo» se dá ao trabalho – para os dogmáticos quase criminoso – de exumar cadáveres injustamente esquecidos. Para que a sua memória seja limpa de uma vez por todas. Para que se não esqueçam, para que se não repitam, as injustiças que perverteram o princípio da utopia anticapitalista, cometidas em nome de um projecto igualitário que é, que foi, essencialmente justo. Para que o ideal comunista – sinal vital de esperança e de compaixão, mas também de liberdade – jamais morra. Foi a comunista Rosa Luxemburgo quem escreveu que a verdade é revolucionária e deve ser sempre exposta, mesmo quando melindrosa. Negá-lo significará então ser-se contra-revolucionário e, de facto, anticomunista.

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