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(Como lá fora)

Gemini
Esgotado por outra aventura online, cheguei tarde ao planeta dos blogues, numa altura em que parte dos seus primeiros batedores estavam já a abandoná-lo. Depois fui saindo e entrando, a solo ou em companhia, convivendo sistematicamente com a dificuldade em combinar o registo pessoal, diarístico e minimamente escorreito, com uma fala destinada a leitores capazes de partilharem dúvidas, indignações, crises de ideias e excesssos de certezas. Coisa que jamais poderia fazer num meio tradicional, cuja redacção, e respectivos leitores, pouco interessados estariam num registo flutuante, quase sempre superficial, sem trabalho de revisão, empenhado em divagações destinadas ao próprio autor ou a alguma dessas «almas gémeas passageiras» que passam num bater de asas. Admiro pois os operários dos blogues que têm sido capazes de atravessar todas as estações, ultrapassando desânimos, ilusões e servidores em baixo, esforçando-se por permancerem activos, calorosos, inesperados. Irão todos para o céu, tenho a certeza.

    Etc.

    Insolência

    antevisão de pernas

    Os poetas machos da geração que me antecedeu
    falavam obsessivamente das pernas das mulheres.
    Viviam num universo móvel onde elas as pernas
    prefiguravam o indizível distante que as mãos,
    tangentes, iriam procurar e querer depois beijar.
    Habitavam o lugar distante lá onde todo o desejo
    perfazia em privado a intenção das linhas ondulantes.

    Os da minha, que eu saiba procuraram o corpo
    erotismo táctil ignorante de pernas porém ágil em pêlos
    odores líquidos nos lugares que não era preciso vigiar.
    Saíam de manhã as mãos abertas averiguando o vento
    preliminar de encontros indagados sob as árvores
    ou em camas cedidas nuas por companheiros solitários.
    Sabem da urgência diurna que antecede o silêncio.

      Etc., Poesia

      Que é diferente dos outros

      Tenho um problema com o desaparecido blogue Barbané idêntico ao que certa vez tive com os extintos sabonetes Nordika. Quando descobri o seu suave cheiro a pinho, a forma como me levantavam a moral sob o duche da manhã, já estes haviam deixado de ser comercializados. Percorri então, um tanto desesperado, pequenas mercearias de bairro, lojas vende-tudo de ignotas aldeias, dispensas esquecidas de familiares, conseguindo reunir um stock que me permitiu dois anos extra de saponácea felicidade. Ao Barnabé, a esse comecei a segui-lo tardiamente, quando os seus autores estavam já para «descontinuá-lo». Felizmente, andam por aí, nas livrarias, alguns títulos de Rui Tavares, talvez aquele dos barnabitas que, por assim dizer, mais me sussurrava ao sentimento. D’O Pequeno Livro do Grande Terramoto tem-se falado bastante: um livro de história que devia servir de exemplo para a desgraçada escrita – e, certas vezes, desbaratada investigação – que domina ainda a tribo dos historiadores a que pertenço. Vou recomendá-lo aos meus alunos, claro, para lhes reacender o interesse (e a admiração) pelo conhecimento do passado e as mil formas de o contar. Sai agora Pobre e Mal Agradecido, ainda na Tinta da China, que inclui, entre outros textos imperdíveis do RT, da melhor e mais inclassificável prosa que alguma vez percorreu a blogaria lusitana. Tenho, para uns tempos, o meu suplemento de Barnabé.

        Etc.