25 de Abril e 1º de Maio: complementares, mas diferentes

A celebração do 1º de Maio remonta a 1886, quando foi brutalmente reprimida em Chicago uma greve de operários pela redução da jornada de trabalho diária, então nas 14 horas. Três anos depois foi adotado, em congresso da segunda Internacional Socialista, como Dia Internacional dos Trabalhadores. Apesar de proibido pelo Estado Novo, que considerava a data subversiva, manteve-se em Portugal como momento de luta contra a ditadura e pelos direitos mais essenciais. Era evocado em jornais e panfletos clandestinos ou em celebrações privadas de grande simbolismo, sendo também pautado por arriscadas ações reivindicativas ou em manifestações de rua logo atacadas pela polícia. 

Antes de 1974 ainda participei em três delas, uma em Coimbra e duas no Porto, tendo sempre precisado, ao fim de uma quinzena de minutos, de testar o meu próprio recorde de velocidade para escapar às bastonadas, balas de borracha e bombas de gás lacrimogénio lançadas pelas brigadas de choque sobre os manifestantes. A data não poderia, por isso, deter uma dimensão festiva e pacífica, sendo sempre celebrada como iniciativa de combate pela democracia e de protesto contra o governo. A partir de dada altura, voltado também contra a continuação da dura Guerra Colonial.

Após o 25 de Abril tudo mudaria. Recordo vivamente o primeiro 1º de Maio em liberdade, vivido num embriagante estado de felicidade e de estranheza por manifestar-me e gritar palavras de ordem sem o risco de ser espancado ou detido. Nesse ano e no seguinte, no contexto do nosso comum processo revolucionário, a data manteria ainda o sentido de protesto contra a ditadura derrubada e de afirmação contra os que ainda a defendiam, mas começava a tomar o sentido, natural e emancipatório, de jornada de festa e de luta por direitos laborais, melhores salários ou transformações no modelo económico que permanecia dominante. 

É esta marca justa e necessária que tem conservado ao longo das décadas de democracia, ainda que ela possa, certas vezes, ser ensombrada por sinais de sectarismo, traduzido em tentativas de controlo político de um momento e de metas que deveriam sempre ser de todos. Pautadas, além disso, por uma incompreensível dificuldade em compreender a enorme mudança sociológica e cultural vivida ao longo das últimas décadas na própria figura do trabalhador, bem como num total alheamento de causas que também deveriam ter voz nesse dia, como as que promovem a defesa das minorias sociais, dos imigrantes, das mulheres, dos jovens ou da justiça climática.

Porém, não é este, ou não deverá ser este, o sentido tomado pela celebração anual do 25 de Abril. Ela não pode constituir uma data fraturante, mas ser momento de unidade, na linha da torrente de alegria e esperança que encheu ruas e praças de Portugal nos dias da Revolução dos Cravos. Na realidade atual, quando sombras autoritárias no horizonte ameaçam as democracias liberais, quando os grandes impérios procuram enfraquecer o multilateralismo saído do pós-Guerra Fria, quando a Europa como lugar complexo e de liberdade é cercada por tiranos como Trump e Putin, e quando, no caso português, regras de convivência elementares são postas em causa pela extrema-direita populista, o foco do 25 de Abril completa o do 1º de Maio, mas precisa ser outro. 

As lutas que Abril devem então, para além da celebração da memória dos que por ele longamente se bateram, ser dos valores e das causas que unem o mais possível, e não, por muito legítimos que sejam, daqueles que distanciam ou cavam clivagens. Ser aquelas travadas, com grande sentido de urgência e de aproximação na diversidade, pela liberdade, pela democracia, pelo regime constitucional, pelos direitos humanos, pela paz ou pelo Estado social. Reunindo todos os braços e vozes disponíveis.

Rui Bebiano

Fotografia de Igor Demidov
Publicado no Diário As Beiras de 2/5/2026

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