Da sabedoria 1

Buda
O número de Novembro-Dezembro do Le Monde des Religions integra um dossier sobre a construção de uma «espiritualidade laica» que emergiu, a partir da década de 1970, da decadência das ideologias de matriz política ou religiosa. Dele consta uma lista comentada e cronologicamente disposta de «dez textos fundamentais da sabedoria», acompanhada de fragmentos dos mesmos que me arrisco a traduzir. Capturando algumas pequenas pistas para um trajecto que poderá revelar-se luminoso. Ainda que longe do divino.

Buda, séc. VI a.n.e. (Cûla Mâlunkiya Sutta)

«Supõe tu, Mâlunkyaputta, que um homem tenha sido ferido por uma flecha fortemente envenenada. Os seus amigos e parentes chamam um cirurgião. E o homem diz: “Não deixarei que me retirem esta flecha sem primeiro saber quem me feriu: qual é a sua casta; qual é o seu nome, qual a sua família; se é grande, pequeno ou de média estatura; de que aldeia, vila ou cidade veio ele; não deixarei que me retirem esta flecha antes de saber com que espécie de arco me alvejaram; antes de saber que espécie corda foi usada nesse arco; antes de saber que pluma enfeitou a flecha; antes de saber de que material foi talhada a sua ponta.”

Mâlunkyaputta, este homem homem morreu sem saber aquelas coisas. Da mesma forma, se algum de nós disser “não seguirei uma vida virtuosa, na direcção do Bem-aventurado, sem que possua respostas a perguntas sobre se o universo é ou não eterno, etc.”, ele morrerá e esses problemas serão deixados sem resposta.

Qualquer que seja a opinião que possamos deter a respeito de tais questões, existem o nascimento, a velhice, a decrepitude, a morte, a infelicidade, as lamentações, a dor, a aflição, pelo que eu afirmo que deveremos ser capazes, nesta vida, de nem tudo pretender saber.»

    Recortes.