Sobre a pirueta «científica»

Estamos habituados, no meio académico nacional e também fora dele, à escassez de um debate substantivo sobre o estatuto de ciência. Não que ele não ocorra, de modo algum, mas é muito raro e com frequência limitado ou desvalorizado. Isto fica em boa parte a dever-se ao facto de algumas das suas vertentes, que colocam esse estatuto em perspetiva e o relativizam, poderem potencialmente perturbar a fixidez do status quo vigente e de algumas das dinâmicas de poder que a ele se encontram associadas. A valorização tradicional do conceito de «saber», como um absoluto imperativamente ligado a uma epistemologia ortodoxa, é frequentes vezes afirmada, replicando ainda o choque proposto pelo positivismo do século de Oitocentos a respeito do caráter estritamente objetivo da ciência, capaz de separar o evidentemente certo do óbvia e necessariamente errado.

Esta lógica tende a considerar o papel do conhecimento relativo, da subjetividade e até da velha e perpetuamente inacabada dúvida cartesiana como sinais de uma espécie perigosa de niilismo, capaz de perturbar a pacífica doçura de um lugar do saber imune à crítica e à contestação. Ela produz monstros, como os discursos que, a partir de um lugar de autoridade institucional, seja ele académico ou político, se arvoram em defensores de uma verdade única ou a caminho de o ser. Ainda que os seus advogados, por razões de estratégia ou de oportunidade, neste ou naquele momento sejam capazes de defender o contrário do que antes afirmavam, ou então, mais habitualmente, de lhe introduzir alguns retoques de cosmética. No contexto do debate sobre a pandemia temos assistido a alguns desses casos de pirueta «científica».

Quase a perfazer 99, o filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, em resposta a uma pergunta relacionada com os desafios da Covid-19 dada em entrevista recente à publicação Fronteiras do Pensamento (https://www.fronteiras.com/entrevistas/edgar-morin-as-certezas-sao-uma-ilusao), acaba de sublinhar o seguinte: «Infelizmente, poucos cientistas leram Karl Popper, que estabeleceu que uma teoria só é científica se for refutável, Gaston Bachelard, que colocou o problema da complexidade do conhecimento, ou Thomas Kuhn, que mostrou como a história da ciência é um processo descontínuo. Muitos cientistas ignoram a contribuição desses grandes epistemólogos e ainda trabalham de uma perspetiva dogmática.» Existe, pois, em nome da diversidade e da expansão do conhecimento, uma necessidade objetiva de enfrentar tanto o dogma quanto a pirueta «científica».

Rui Bebiano

    Atualidade, Ensaio.