A indiferença, o deserto e o futuro

Fot. Inês Nepomuceno

Desde que em 1982 comecei a ensinar na universidade, a cada Julho costumo fazer um balanço da forma como correram as aulas. Até há pouco, e mesmo sendo juiz em causa própria, considero que ele foi sempre globalmente positivo. Sem falsa modéstia, e retirando uma ou outra situação pontual menos boa, inevitável numa experiência que envolveu meia centena de disciplinas e seminários, cerca de setenta orientações de pós-graduação e ao redor de vinte mil alunos e alunas, acredito que o esforço e a entrega valeram sempre a pena. A memória que tenho da larguíssima maioria das aulas e dos alunos, mesmo de muitos dos menos empenhados, foi quase sempre a de envolvimento, curiosidade e aproveitamento médio, bom ou excelente. Ao ponto, tantos anos depois, de permanecer na memória de largas centenas deles, que continuam a transmitir-me constantes e até afetuosos testemunhos de que o esforço compensou.

Talvez boa parte desse aproveitamento positivo se deva a ser uma atividade da qual sempre gostei. Dar aulas jamais foi sacrifício ou obrigação: ao contrário, fi-lo sempre com prazer e proveito, e, considerando a especificidade dos temas de história política e cultural que são aqueles em que trabalho, com um profundo sentido de que aquilo que faço, para além de ampliar os saberes e as competências de quem me escuta, contribui para desenvolver um sentido crítico e social do conhecimento, que desde o primeiro dia considerei o mais importante. Sempre digo aos meus alunos que, mais do que saber muitas coisas, é preciso ser-se capaz de relacioná-las, explicá-las e ligá-las à existência pessoal e coletiva. E encará-lo como um começo, uma abertura, e não como um fim em si. No fundo, procurei seguir o princípio inspirado no velho provérbio chinês – «os professores abrem as portas, mas deves ser tu a transpô-las» – que atribui responsabilidade e autonomia aos dois lados do binómio.

Todavia, algo se tem vindo a romper dramaticamente nesta cadeia. Aconteceu nos últimos cinco ou seis anos, e não apenas comigo, pois não conheço colega que não se queixe mais ou menos do mesmo. As causas serão múltiplas: a redução do peso dos saberes duros e cumulativos em troca da valorização de simples competências funcionais (estimulada pelo Processo de Bolonha), as transformações ao nível dos processos de comunicação não devidamente acompanhadas pelas práticas pedagógicas, e principalmente a desvalorização social do conhecimento não meramente prático e a crise de empregabilidade, nas quais os próprios poderes detêm responsabilidades. As consequências são pesadas: absentismo galopante, um grande desinteresse, introdução de fatores de instabilidade nas salas de aula, redução do empenho nos processos práticos de aprendizagem e, acima de tudo, e o que é mais visível, uma instalação gradual da indiferença individual e do menosprezo coletivo pelo próprio valor do saber.

É claro que este panorama não é definitivo e contém exceções. Na realidade, ele deteta-se mais em alguns cursos que em outros, sendo as humanidades e as ciências sociais, por razões que não cabe aqui avaliar, particularmente afetadas. Continuam, evidentemente, a encontrar-se alunos e alunas excelentes, empenhados, criativos, muitos dos quais envolvidos com os professores em esforços e projetos fantásticos, tendentes a ultrapassar este estado de coisas. Mas no ensino superior vivemos neste momento, de facto, um período de retrocesso do compromisso e do rendimento pedagógico na sala de aula. Estamos, sob este aspeto, a atravessar um deserto. O importante é resistir ao calor e à sede com as forças que temos para chegar a um bom destino.

Rui Bebiano

Crónica publicada no Diário As Beiras de 16/7/2018.

    Ensino, Olhares, Opinião.