O Bloco no seu labirinto (4)

Último post da série, um pouco mais comprido que os anteriores. Aspectos avulsos poderão ser desenvolvidos mais tarde. Recordo que escrevo estas notas a partir de fora, como simpatizante crítico, eleitor e «compagnon de route» do BE, do qual não sou militante. O meu objectivo é apenas estimular inquietações.

Anoto quatro possíveis áreas de intervenção no debate sobre a reorganização do Bloco e o seu papel na construção de uma alternativa à esquerda. Com a solidariedade social, o desenvolvimento económico e da qualidade de vida e a defesa da liberdade como elementos incontornáveis e comuns de um cenário com futuro.

1. No centro da necessária renovação encontra-se uma definição tão clara quanto possível do paradigma político a adoptar e uma identificação da base social que o pode apoiar. É preciso escolher de forma segura e consistente entre a construção de uma alternativa socialista e democrática, voltada para a produção de convergências no campo da governabilidade – uma «social-democracia de esquerda», sem dúvida, e não há que ter medo das palavras quando se nomeia esta tendência fundadora do movimento operário e popular –, ou a insistência num «comunismo modernizado», aparentemente arejado mas ao mesmo tempo nostálgico da intervenção redentora de uma vanguarda omnisciente e do papel de um Estado despótico. Escolher entre o protesto como uma necessidade, destinada a defender direitos e a melhorar a vida dos cidadãos, e o protesto como parte da «luta final», enquanto instrumento de uma transformação violenta da sociedade. É também preciso esclarecer o espectro sociológico que o Bloco está em condições de reunir. Com toda a probabilidade, a crescente mas empobrecida classe média urbana, os intelectuais e profissionais liberais desprezados pelo «desenvolvimentismo» capitalista, os estudantes e as mais novas e melhor formadas gerações de trabalhadores efectivos ou precários. Aceitando que outros partidos à esquerda, a começar pelo PCP, agregarão diferentes sectores. O «povo do Bloco» terá um rosto fundado nos interesses e expectativas sociais que podem convergir, mas sem a fantasia de um dia englobar toda a gente que confia na esquerda como território de um projecto solidário.

2. Estas escolhas implicam também uma reapreciação da política de alianças, fundamental para a construção de uma alternativa à governação da direita neoliberal. Será preciso agregar forças mas sem a exigência de o fazer com base apenas nos próprios princípios e recusando fazer cedências no que se considera essencial, geralmente quase tudo. Só desta forma será possível lançar pontes e ajudar os sectores democráticos – uma parte substancial do PS, democratas sem partido, organizações de cidadãos, associações profissionais, movimentos de natureza reivindicativa – a virarem Portugal à esquerda. Ao mesmo tempo, torna-se imprescindível romper com o modelo tardo-leninista que impede essa maleabilidade: por enquanto o Partido Comunista só poderá participar em alianças conjunturais, adiando-se uma aproximação mais clara para quando este partido desenvolver posições inequívocas que lhe retirem a vertigem da hegemonia, a convicção de que possui uma legitimidade que os outros não possuem e a associação a processos e a modelos orgânicos de pendor repressivo e autoritário. Quanto à esquerda de matriz irrevogavelmente maximalista, inclusive aquela que se conserva dentro do Bloco para procurar inflecti-lo numa direcção antidemocrática e messiânica, só pode ser excluída deste processo, pois impede a aproximação de importantes sectores da opinião democrática e não representa sequer uma base social e de militância com razoável expressão, apesar do ruído com o qual procura projecção mediática

3. É vital entretanto diversificar as áreas do combate político. O trabalho no parlamento e nas autarquias continua a ser muito importante, tendo o Bloco nele desenvolvido, inúmeras vezes, uma intervenção exemplar. Porém, terá sido ele também a impor um recuo a outras áreas de intervenção e a suscitar em muitos cidadãos e activistas alguma desconfiança em relação ao peso excessivo da política de tribuna. Sabe-se que no BE a escassez de quadros foi determinante na criação desta situação, mas será agora imprescindível, de forma a evitar um isolamento ainda maior, desenvolver uma actividade muito mais ampla e melhor organizada. Desde logo regressando à «política de causas» que lançou o Bloco em termos públicos e lhe deu identidade mas foi sendo abandonada em favor de uma temerosa imagem pública de responsabilidade que provavelmente alienou inúmeros simpatizante e votantes. Depois, há a intervenção no movimento sindical, que tanto precisa de iniciativa, renovação e maior ligação às bases. E uma intervenção visível e prioritária em áreas do combate social que fazem parte das expectativas de parte significativa da esquerda (as mulheres, as minorias sexuais, os imigrantes, a ecologia, o racismo, a xenofobia, entretanto rebaixados na ordem das prioridades). E também o retorno de uma presença activa e organizada no universo estudantil. E a actividade associativa no campo do pensamento, das artes, da criação e da intervenção cidadã. E, por fim mas sem ser de importância menor, uma actividade orientada e organizada no terreno da política internacional, nomeadamente na construção de um novo europeísmo, no desenvolvimento da aproximação norte-sul e na defesa inequívoca dos direitos humanos.

4. Por fim, é preciso adaptar a organização, a direcção e o discurso partidário aos renovados objectivos estratégicos e às novas linhas de intervenção, controlando a narrativa política e não deixando o discurso ir atrás das circunstâncias. Isto faz-se em boa parte discutindo política sem preconceitos, de forma transparente, e aceitando toda a diversidade que não colida com os objectivos programáticos nucleares e a identidade democrática do partido. É também importante a gestão de uma política de quadros com formação elevada e especializada, adequada aos domínios da prática política e da experiência profissional nos quais exercem a sua actividade. Mas sempre e sempre na recusa de atitudes autocentradas e de pseudo-vanguardismo, com uma grande capacidade para ouvir os sectores da sociedade que, não militando no Bloco, com ele podem em muitos momentos confluir de uma maneira empenhada e solidária.

Se é razoavelmente fácil pensar todas estas possibilidades, materializá-las carece evidentemente de tempo, de esforço e, nesta altura em particular, de alguma pedra a partir. Reduzindo ao mínimo os inevitáveis acidentes de trabalho. Os militantes do Bloco têm a palavra.

Atualidade, Opinião.