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Selva manual

Apesar dos inevitáveis erros e do grau de incerteza que uma escolha entre diferentes leituras pode sempre conter, a decisão do governo no sentido de centralizar a escolha dos manuais escolares – atribuída nas últimas décadas a cada uma das diferentíssimas escolas, à competência sempre irregular de muitos dos seus docentes, às todo-poderosas influências comerciais das editoras – será positiva. Desde que não se aproxime da velha prática estado-novista do livro único, o que, bem vistas as coisas, a pluralidade essencial do tempo neste lado do planeta por certo impedirá. Permitindo um mais criterioso reconhecimento dos conteúdos e da qualidade pedagógica dos materiais, a medida poderá corrigir assim um dos efeitos nefastos da «regionalização no terreno». Ou, pelo menos, espera-se que assim aconteça.

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    As pedras da calçada, ainda

    Força já o bocejo a lengalenga sobre a impossível analogia que podemos estabelecer entre a rebelião estudantil francesa que se desenrola «sem horizontes definidos», e aqueles combates em redor de 1968 «que invocavam utopias futuras» (palavras de um daqueles invariavelmente seguríssimos textos dominicais de Mário Mesquita). Claro que a distância entre os dois momentos é enorme, como enorme é a separação abissal – ou «abismal», tal qual escreve e vulgariza a novilíngua jornalística – que distingue o actual meio estudantil daquele que existia há quatro décadas atrás (distância muito maior, sem dúvida, do que aquela que separa actualmente as realidades e as expectativas dos estudantes universitários franceses, portugueses ou mexicanos). Mas parece continuar sem se reconhecer a existência de um estado juvenil de «prontidão para a revolta», que, sendo historicamente recorrente a partir do pós-guerra, tem funcionado sempre como expressão de um profundo mal-estar e sinal de uma vontade de mudança tão intensa quanto mobilizadora. E que não é um simples caso de polícia.

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      Folclore regional

      caldo verde
      Fala-se de novo em regionalização e vale a pena reparar nas tentativas para, aqui ou além, devagar ou mais apressadamente, às claras ou recorrendo a subterfúgios, reerguer aquilo que em referendo, num fugaz assomo de colectiva sageza, a maioria dos portugueses recusou. Porque a regionalização da qual nos falam não é a necessária descentralização, mas sim a criação de novas centralidades regionais. Com a agravante de, num país em estado de óbvia indigência na qualificação política e técnica dos quadros políticos locais, essa eventualidade reforçar os poderes de quem nem para gerir convenientemente uma pequena junta de freguesia – com todo o respeito para com as pequenas juntas de freguesia – possui muitas vezes visão e capacidades. Naquela que se imagina ainda a terceira cidade do país – contando com a concentração urbana e o crescimento demográfico, talvez seja, de forma optimista, a oitava ou a nona – sente-se particularmente esse drama. Há anos, muitos, que uma cidade triste e deprimida como Coimbra – cujo amor-prórpio é apenas ciclicamente reiventado por scholars e estudantes à procura de referências identitárias – se vê gerida de forma autista, kitsch e, num certo sentido, esquizóide. Autista porque, cidade de fortes tradições democráticas e de abertura ao mundo, tem sido governada de forma essencialmente anti-cosmopolita e fora de uma efectiva cultura da participação. Kitsch porque lhe definem constantemente horizontes culturais a partir do mais provinciano mau-gosto. Esquizóide porque a todo o momento lhe indicam a repetição ad infinitum, visível sinal do seu atraso, como prova provada da grandeza do mundo. Seria então com gente responsável por tais desvarios, ou por aquela que preludia outros, na eventualidade com acrescidos poderes, que seguiria avante a regionalização de todos os perigos. Na «cidade dos doutores» como em muitos outros locais mais ou menos plebeus deste país de magnos problemas e tão distraídos cidadãos.

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        Voz do povo

        Numa nota de imprensa escrita em 1947 pelo SNI de António Ferro, proclamava-se ser pelo folclore «que um povo reencontra o potencial poético característico da sua raça na sua forma mais cristalina e pura». O regresso em força, aos ecrãs televisivos, aos palcos das praças, aos desfiles alegóricos, às políticas culturais de alguns municípios, do folclorismo mais artificial, das cantadeiras mais aberrantes, do azedo arroto a chouriço, caldo verde e «boa pinga», assusta. Já repararam nele? Na forma como estão de volta o acordeão, os ferrinhos, a pandeireta? Como se insinuam outra vez, mostrando ao povo que o povo existe e, a cantar e a dançar, não deve querer ser senão povo? É provável que este retorno ao passado tenha alguma coisa a ver com uma recuperação da rusticidade – e do kitsch que lhe é frequentemente associado – consubstanciada na presidência saloia que agora se inicia.

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