1965 e depois
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Monica Zetterlund com o Bill Evans Trio (Bill aqui com Chuck Israels e Larry Bunker)
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Monica Zetterlund com o Bill Evans Trio (Bill aqui com Chuck Israels e Larry Bunker)

Antony Beevor tem articulado sempre a solidez de investigação histórica com uma capacidade narrativa fluida e atraente. É este, aliás, um dos motivos do êxito de obras tão merecidamente reconhecidas como Paris Após a Libertação (escrito a meias com a mulher, Artemis Cooper), Estalinegrado, A Queda de Berlim, A Guerra Civil de Espanha e o mais recente Dia D. Saído em 2004, este O Mistério de Olga Tchekova não foge à regra, embora possa, graças em parte ao título escolhido, ser tomado pelo leitor mais distraído como obra de ficção. Na verdade, o escritor e historiador britânico oferece-nos aqui um magnífico fresco, sedutor mas sempre bem documentado, no qual se entrelaçam a história da União Soviética e a da Alemanha durante as décadas que decorreram entre as vésperas da tomada do poder pelos bolcheviques e o avanço do Exército Vermelho sobre Berlim.
Dois irmãos de ascendência russo-alemã, sobrinhos de Anton Tchekov, são as personagens nucleares, em redor das quais se desenha a trama intensa e dramática dos grandes acontecimentos do tempo, mostrando ao leitor o modo como as duas grandes experiências totalitárias do século passado partilharam importantes momentos de uma história com muito de comum. Olga Tchekova (1897-1980), instalada a partir de 1920 na Alemanha, teve aí um percurso fulgurante como actriz de cinema, tornando-se, logo após a tomada do poder pelos nazis, próxima de Hitler e de Goebbels, e mesmo um ícone do regime. O seu irmão, Lev Knipper (1898-1974), foi um antigo guarda branco arrependido que construiu uma notável reputação como compositor durante as décadas de afirmação do realismo socialista e se tornou agente especial do NKVD, com um papel provavelmente decisivo no recrutamento de Olga como «agente adormecido» dos soviéticos em plena capital do Reich. O epicentro dos acontecimentos narrados situa-se, no entanto, na União Soviética, a partir da relação da família Knipper-Tchekov com os episódios da revolução russa e da guerra civil que se lhe seguiu, com o alastramento incontrolável do terror estalinista e com a invasão nazi, sendo a «conexão alemã» uma consequência destes.
O recurso à «pequena história» e ao testemunho individual, comum nos livros de Beevor, é determinante para assegurar o interesse deste livro, permitindo ao autor contornar o pesado muro de silêncios e de omissões que foi arquitectado pelo sistema de informação soviético em redor das actividades subterrâneas de Olga e de Lev. Esta valia é ainda reforçada pelo facto de ambos pertencerem a uma destacada família da antiga intelligentsia russa, que usufruíra de um prestígio considerável durante as últimas décadas do czarismo e por isso deveria, em condições normais, ter sido varrida no decurso da revolução ou do violento processo de «construção do socialismo» Pode assim observar-se de que forma uma parte deste importante mas vulnerável sector social conseguiu sobreviver – sem dúvida através de laboriosos processos de adaptação ou de dissimulação – aos longos anos da autocracia estalinista e aos pesados constrangimentos por esta impostos aos intelectuais soviéticos. [Antony Beevor, O Mistério de Olga Tchekova. Trad. de Rita Guerra. Bertrand Editora, 280 págs. Publicado previamente na revista LER.]

Não irão faltar os jograis prontos a desqualificar, apenas porque configura uma pequena afronta ao actual governo da nação, a atitude de Paulo Nozolino ao decidir devolver o dinheiro do Prémio da Associação Internacional de Críticos de Arte/Ministério da Cultura de 2009 em repúdio por lhe ser exigido o pagamento de IRS sobre o total da importância recebida, mas não é todos os dias que alguém do campo das artes recusa receber 10.000 euros e exige que o seu nome nem sequer conste, de futuro, da lista dos premiados. Acontece, muito simplesmente, que um prémio por mérito artístico é um prémio por mérito artístico e não um serviço prestado em troca dos respectivos emolumentos. Pelo menos para quem não avalie tudo pela óptica do contabilista. Fica registada a atitude frontal do fotógrafo.
Adenda – Podemos conhecer aqui uma explicação detalhada do próprio Paulo Nozolino.

Acaba de sair por cá o número de Julho-Agosto da revista literária Books (estranho nome este para revista francesa, sinal definitivo de mudança). Domina-o um dossiê, «Le pouvoir de la musique», no qual se enunciam e debatem muitos dos problemas relacionados com a dimensão social e política da produção e dos consumos musicais. Recorda-se, por exemplo, que de Goebbels e Jdanov a Khomeini e aos talibãs, «o poder da música não deixou de preocupar os arautos do Estado totalitário», cujo coração balançou sempre entre o controlo e a interdição. Refere-se a propósito aquilo que Goebbels escreveu numa carta dirigida a Wilhelm Furtwängler, então maestro-titular da Orquestra Filarmónica de Berlim: «A música deve preservar a sua forma original e nenhuma inovação pode ser admitida, uma vez que ela transporta sempre consigo grandes perigos para o Estado. Sempre que as formas musicais se alteram, as leis fundamentais do Estado mudam também». Descreve-se também de que forma o estalinismo se serviu das obras de Prokofiev e de Chostakovitch para ao mesmo tempo as condicionar, ou como foi a rumba «domesticada» em Cuba pelo castrismo. Fala-se do modo como a música serviu para humanizar um pouco a vida e a morte em alguns dos campos de concentração nazis. Viaja-se até às origens do reggae e do seu potencial subversivo, esclarecendo-se ao mesmo tempo de que maneira o disco-sound serviu na década de1970 a afirmação da identidade gay e como, em menos de vinte anos, o hip-hop passou de cultura de rua a modalidade de contracultura e depois a instrumento do capitalismo global. Mas há ainda bastante mais, em dezenas de artigos nos quais por vezes se abre espaço à controvérsia.

Assinala-se hoje o Dia Mundial das Bibliotecas. Dessas que estão ali à nossa espera, disponíveis sempre que as desejamos, sempre que precisamos de algum amparo. Mas também das outras, essas que levamos connosco para todas as partes.

Releio pedaços de Actuelles, a compilação de textos políticos quase todos eles escritos por Albert Camus para o jornal da Resistência Combat – que tenho numa reimpressão velhinha e amarelenta da Gallimard –, e dou de caras com um passo surgido numa crónica de Fevereiro de 1947: «A democracia não se separa da noção de partido, mas a noção de partido pode passar muito bem sem a democracia. Tal acontece quando um grupo de homens imagina deter a verdade absoluta. Eis a razão pela qual a Assembleia e os deputados têm hoje necessidade de uma cura de modéstia». Gosto da ideia – uma cura de modéstia – porque vejo esta qualidade, tomada no sentido de decência, de despretensão, de clareza, como esquecida, abandonada, sistematicamente trocada pela bazófia, pela arrogância, por uma guerra de absolutas certezas que tende a distanciar as democracias de quem as legitima e de quem elas devem servir.