Arquivos Mensais: Maio 2010

Esta noite sonhei com Fidel

Juventud Rebelde

Esta noite sonhei com Fidel. Com um Fidel jovem que me interpelava num passeio e me perguntava simpaticamente se queria tomar com ele o café da manhã. Durante o sonho, a minha reacção foi de surpresa, mas quando acordei achei natural a aparição nocturna, uma vez que a figura do terceiro filho do Senhor Ángel Castro y Argiz, o imigrante galego, permanece, como um espinho, cravada nesse ethos da minha consciência de esquerda que é absolutamente incapaz de separar a ideia de justiça social de uma liberdade sem adjectivos. Por causa desta extravagância pessoal e da sombra deixada pelo sonho nocturno, decidi-me a ler um artigo da revista Books que tinha na pilha das leituras programadas para aquele futuro que jamais se sabe quando chegará. O autor de «La splendide illusion cubaine» é José Manuel Prieto, romancista, ensaísta e professor nascido em La Habana, que publicou em alemão um livro cujo título traduzido enche logo a boca de água: A Revolução Cubana Explicada aos Motoristas de Táxi (atenção, caros editores, a edição original é da Suhrkamp). Prieto é um emigrado – viveu muitos anos no México e ensina actualmente em Nova Iorque – mas não é um gusano cego pela raiva anticastrista. Procura compreender a revolução cubana e o estado a que esta chegou, sem por isso prever um futuro para o regime que não seja o da sua preservação – para além do inevitável desaparecimento físico dos Castros – por ainda uns quantos anos.

A sua convicção acerca da possibilidade de manutenção da Cuba «socialista» (as aspas são minhas) depende de dois factores que condicionam uma certa aceitação interna do governo e o ainda razoável prestígio internacional do regime. Um é a conservação da relação conflituosa com a América como a principal razão de ser da independência cubana ao longo de todos estes anos: sem a emanação de uma ideia de enfrentamento corajoso das iniquidades, reais ou fictícias, made in USA, há já muito tempo que Cuba se teria afundado na banalidade da pobreza generalizada (que no contexto actual é apresentada como honrada) e do bloqueio das liberdades (justificado todos os dias por uma necessidade de autodefesa). O outro factor, associado naturalmente ao primeiro, prende-se com a manutenção, devidamente apoiada numa cuidada rede de propaganda mediática de dimensões internacionais, da projecção heróica da saga cubana como um movimento de características insurrectas sem precedentes: «uma ode rebelde contra os adultos» nos anos sessenta, hoje «um país cercado» cuja dignidade não tem preço e legitima as medidas mais extremas. É isto que faz com que um abaixo-assinado há algum tempo promovido por dissidentes e que reuniu dez mil assinaturas tenha, num país com onze milhões de habitantes, sido considerado pelos círculos de oposição como uma «grande vitória». Segundo Prieto, a maioria da população permanece muito sensível à propaganda antiamericana e à retórica da valentia diante do cerco, o que se traduz na aceitação tácita de uma tirania que muitos cubanos ainda olham como uma infeliz necessidade. Mais próxima do pesadelo do que do sonho, mas por enquanto incontornável.

    Atualidade, Democracia, Opinião

    Nazismo, pilhagem e bem-estar

    Hitler e o povo

    Continua a imperar a interpretação da ascensão e da apoteose do nacional-socialismo como resultado da iniciativa tenaz e carismática de Adolf Hitler, combinada com a actividade de alguns companheiros de missão que o secundaram na direcção infalível de uma política externa belicista e de uma actuação interna ultra-autoritária. Outras explicações associam também a ascensão do nazismo e a afirmação do seu lado mais odioso a uma política de anti-semitismo sistemático que conduziu à Solução Final e à consumação do Holocausto. Pode por isso dizer-se que a historiografia do nazismo e da Segunda Guerra Mundial tendeu a produzir interpretações que de alguma forma foram reduzindo a responsabilidade colectiva da maioria do povo alemão, muitas das vezes apresentado como vítima de um logro arquitectado por uma minoria de delirantes inflexíveis. Aliás, terá sido este princípio, rapidamente fixado após o final da guerra, que fez com que um grande número de responsáveis do aparelho nazi ou seus colaboradores pudesse ter ficado isento de qualquer processo formal de culpabilização, vivendo o resto dos seus dias como respeitáveis e intocáveis cidadãos do regime democrático.

    Foi o facto desta leitura dominante ter sido questionada pelo historiador e jornalista alemão Götz Aly que de imediato transformou O Estado Popular de Hitler, quando da sua saída na Alemanha, em objecto de comoção pública e de intensa polémica. Desde logo, porque Aly se esforça por provar que foi uma articulação entre os interesses materiais da maioria dos alemães e as políticas agressivas do regime que permitiu a este erguer-se e afirmar-se. Mas também porque, de um modo algo paradoxal, esta atitude pôde desenvolver-se mais em função da aplicação da vertente «socialista» do Nacional-Socialismo do que do seu programa «nacionalista», aparentemente mais visível. Apoiado em fontes procedentes de organismos estatais de gestão económica e militar, este estudo detalha o modo como o governo nazi instaurou uma relação de cumplicidade entre a promoção dos interesses materiais da maioria dos alemães e a aceitação, por parte destes, da política antijudaica (os bens nacionalizados ou pilhados dos judeus financiaram em larga medida o esforço militar germânico), da agressão contra outros países (transformados em áreas de colheita de bens roubados ou produzidos a baixo custo) e do ataque sistemático contra as populações conquistadas (em larga medida transformadas em mão-de-obra barata destinada a alimentar as necessidades do alemão comum). Neste sentido, Aly cria uma nova associação entre nazismo e práticas sistemáticas de pilhagem. E mostra também de que modo o povo alemão retribuiu, com o seu entusiasmo pelo projecto hitleriano e um elevado empenho no esforço de guerra, o estado de prosperidade que lhe foi oferecido de mão-beijada.

    Publicado na revista LER de Abril

    Götz Aly, O Estado Popular de Hitler. Roubo, Guerra Racial e Nacional-Socialismo. Trad. de Ana Schneeberger. Texto, 464 págs.

      História

      Do estado a que isto chegou

      GAC

      Fui dos que trautearam, cantarolaram, tamborilaram, os álbuns do GAC (Grupo de Acção Cultural). Em 1975-1976, na época da primitiva edição dos dois primeiros álbuns, com José Mário Branco a adestrar os arranjos – e já como GAC-Vozes na Luta –, a sua música manteve-se como uma excepção de elevada qualidade no que respeitava às harmonias, à escolha das vozes e dos músicos, ao trabalho de estúdio, sobretudo se comparada com uma «canção de intervenção» que quase sempre privilegiava a «mensagem» e a redução jdanovista do gosto do público destinatário ao menor denominador comum. Foi popular, sim, mas sem se tornar populista ou armar-se em popularucha. Os dois últimos álbuns perderam alguma da frescura inicial, mas guardaram ainda boa parte do cuidado com o feitio e com a intenção militante. A reedição em CD da discografia do grupo, que acaba de acontecer, vem comprovar essa originalidade e essa pujança. Significativo também é que as letras – laboriosamente panfletárias e inequivocamente anticapitalistas – pouco envelheceram. O que é um bom indicador do estado a que isto chegou. E de que a cantiga ainda pode ser uma arma.

        Atualidade, Memória, Música

        Um olhar participativo

        Cultura-mundo

        Ultrapassado o tempo no qual a cultura era observada como um sistema completo e coerente de elucidação do mundo, expirada a época da separação rigorosa entre cultura popular e cultura erudita, entre uma «civilização» das elites e a «barbárie» popular, eis que mergulhámos todos numa terceira fase histórica. A cultura transformou-se agora em mundo, na cultura «do tecnocapitalismo planetário, das indústrias culturais, do consumismo total, dos media e das redes digitais». Em A Cultura-Mundo. Resposta a uma Sociedade Desorientada, Lipovetsky e Serroy observam o fim da busca do sentido último das coisas, das classificações hierarquizadas, substituídas agora pelas redes, pelos fluxos, pelo mercado sem limite ou centro de referência. Todavia, «os novos tempos hipermodernos» não são aqui enfrentados com pessimismo, sendo antes observados como um território de acção e descoberta, num mundo cuja circunferência está em toda a parte e cujo centro não se encontra em lado algum. A infindável abundância de escolhas, de possibilidades de consumo cultural, permitirá assim, a cada sujeito, a produção de um universo de opções, fazendo com que o comércio de influências convenientemente programadas possa, em determinadas circunstâncias, funcionar como um instrumento libertador. A cultura-mundo desenvolve-se agora em campo aberto, podendo «mobilizar a inteligência e a imaginação dos seres humanos» e não congregar apenas o pessimismo e o ódio dos que a observam a partir de pontos de vista que já prescreveram. É preciso participar nela desenvolvendo as suas virtualidades democráticas e emancipatórias, e não ensaiar a tarefa de a destruir na tentativa vã de ficcionar uma regressão no tempo. [Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, A Cultura-Mundo. Resposta a uma Sociedade Desorientada. Trad. de Victor Silva. Edições 70, 248 págs.]

          Atualidade, Cibercultura, Olhares