Arquivos Mensais: Janeiro 2010

50 anos sem Albert

Apesar do aniversário ser quase ignorado pela nossa «imprensa de referência», passam hoje 50 anos sobre a morte trágica de Albert Camus, ocorrida na sequência de um acidente de automóvel. Logo com ele, que tinha medo da estrada. Um bom dia para evocar a vida e o esforço de um intelectual engagé – no sentido puro, zoliano, do termo – ao qual a História acabaria por dar razão, tanto no seu combate contra os totalitarismos como na dolorosa querela com o ex-amigo Sartre, suscitada pela publicação, em 1951, de O Homem Revoltado. Uma obra, editada há muitos anos em Portugal pela Livros do Brasil, na qual Camus questionava o terrorismo de Estado e o papel que a esquerda intelectual atribuía à violência revolucionária. A verdade, seja ela de direita ou de esquerda, eis o que contava para este «francês da Argélia» que teve um dia a ousadia de proclamar que a ter de escolher entre a justiça e a sua própria mãe optaria pela mãe.

    Apontamentos, História

    Do Avatar

    O argumento de Avatar é trivial, na linha de um certo cinema americano pós-sixties de bilheteira – agora já sem os tiques da Guerra Fria – para o qual a luta entre o bem e o mal traduz frequentemente um confronto directo entre pessoas comuns, lesadas nos seus direitos, e os agentes de uma qualquer tirania que procuram subjugá-las. Só que, no caso, essas «pessoas comuns» são os Na’vi, seres de pele azul e compleição esguia, que vivem em comunhão com o que o espaço e os animais que os rodeiam no distante e quase edénico planeta Pandora. O resto do filme de James Cameron tem contornos de western, fechando com o castigo do vilão e o transpirado herói a ficar de bem com a mocinha (ou a squaw, já não sei bem).

    Trata-se de um aparatoso filme de entretenimento, com quase três horas de efeitos 3D que deixam qualquer espectador exausto, com o sentido da visão momentaneamente perturbado, mas feliz por isso. Eu, pelo menos, fiquei-o. Transcrevo, para não dizer mais ou menos o mesmo por outras palavras, aquilo que Jorge Leitão Ramos escreveu no Expresso: «Mesmo percebendo que há uma falta de textura, de peso, que retira aos eventos e à acção emoções profundas, a verdade é que os achados visuais são portentosos e não me refiro só aos seres fantásticos, ora insectos, ora árvores imensas, ora canídeos ferozes, ora criaturas dinossáuricas ou aos espaços da natureza de uma exuberância que roça o delírio. Refiro-me aos intérpretes, aos corpos dos Na’vi, aos seus felinos movimentos, a uma respiração sensual que habita todo aquele mundo mágico e espantoso.»

    Merece entretanto um comentário um padrão de crítica que se compraz a depreciar o filme com argumentos bastante perversos. No Telegraph, Will Heaven fala de um «subtexto racista» que se fica a dever ao pormenor dos Na’vi usarem adereços e armas próximas das utilizadas por algumas etnias africanas. Mas principalmente ao facto da libertação da tirania ser trazida «de fora», de forma paternalista, por seres híbridos que tinham sido originalmente humanos e dispunham de sageza e tecnologia próprias da sua espécie de origem. Não importa se estes humanos tomaram o partido dos naturais e escolheram passarem a ser uns deles. A tolice repetitiva do remorso ocidental é ecuménica e, pelo lido, transportável também para Pandora. Para mim trata-se, insisto, de um filme belo e divertido que deixará nos espectadores uma marca de preocupação ecológica e de grande humanidade (sim, somos nós, humanos de não-ficção, que a escrevemos e lemos essa humanidade). E pontua o início de uma nova epopeia visual aplicada ao cinema que muito provavelmente repercutirá, como tem sido dito, uma alteração das expectativas plásticas do espectador idêntica à projectada em 1968 por 2001: Odisseia no Espaço, de Kubrick.

      Apontamentos, Cinema

      O som suave das palmas

      Em Dia D – A Batalha da Normandia, Antony Beevor retoma ao seu estilo a tradição da historiografia militar britânica, quase perdida no sul da Europa durante a segunda metade do século passado, que se apoia numa narrativa capaz de combinar o depoimento dos sobreviventes – sempre quente, sempre épico ou azedo, sempre um pouco nostálgico, povoado de imagens que conferem às descrições um inevitável recorte cinematográfico – com a sequência dos factos e das decisões comprováveis. Um passo do livro documenta na perfeição o modo como o testemunho oral – e a inclusão do que podemos considerar o eco poético do vivido na memória de quem o transmite – oferece ao historiador (e ao leitor, claro) fragmentos do passado absolutamente únicos e que deixaram um rasto ténue mas indissipável.

      «O comandante de uma companhia [de infantaria americana] descreveu uma estranha experiência, vivida enquanto avançavam ao longo de um trilho florestal [na Bretanha]. De repente, ele e os seus homens ouviram o som suave de palmas: “Quando nos aproximámos, conseguimos ver as formas indistintas de homens, mulheres e crianças franceses, a debruar o caminho, sem falar, alguns chorando baixinho, mas a maioria apenas a bater palmas ao de leve, estendendo-se por várias dezenas de metros de ambos os lados da estrada. Uma menina veio pôr-se ao meu lado. Era loura, bonita, talvez com uns cinco anos. Deu-me a mão, cheia de confiança, caminhou um pouco comigo e, depois, parou e disse adeus até termos desaparecido.” Mesmo cinquenta anos mais tarde, ainda conseguia ouvir o som suave das palmas numa floresta.»

        Apontamentos, História, Memória

        Tónico Verdi

        Faço parte daquela minoria de extravagantes para os quais os desejos do réveillon não se esgotam na «paz no mundo», «saudinha», «muito amor» e «sorte no euromilhões». Claro que sou contra a guerra e a doença, completamente pró-amor e não me importava mesmo nada de ver a conta bancária reforçada. Mas tenho também a expectativa de uma vida mais digna que passa pela invenção de melhores pessoas. E o que há de melhor para operar a mudança que não seja a disseminação desse sopro, dessa brisa – de alguma forma, de um certo estado aurático da experiência estética – que a grande literatura ou a grande música permitem quando retirados dos seus templos, disseminados, democratizados? Foi do que me lembrei frente a este vídeo comovente e feliz.

        [youtube width=”400″ height=”324″]http://www.youtube.com/watch?v=Ds8ryWd5aFw[/youtube]

        «Un día cualquiera de mercado, la música empieza a sonar entre los puestos de frutas y verduras.» Fragmentos da Traviata, de Verdi, interpretados em pleno Mercado Central de Valência. [obrigado ao Elísio Estanque pelo link]

          Atualidade, Música, Olhares

          Cepticismo

          No último dia do ano, o Zé Neves deixou no Cinco Dias uma citação de John Holloway que exaltava a dimensão não-heróica do projecto comunista-radical no qual acredita. Nela se proclama que «o objectivo da revolução é a transformação da vida comum, quotidiana, e é certamente dessa vida comum e ordinária que a revolução deve surgir». Claro que a revolução da qual se fala aqui não é a messiânica (a dos tontos e dos exaltados) ou a golpista (a dos leninistas e dos oportunistas), ambas com R maiúsculo, que apenas valem pela transferência do poder e pela instauração posterior de uma liturgia sacralizadora do «acto fundador» e dos seus intérpretes. De forma diversa, Holloway fala antes da possibilidade de conceber e de instaurar uma ordem do mundo que exige uma perspectiva solidária e uma iniciativa radical em condições de ultrapassar essa «gestão do possível» da qual tanto gostam os reformistas. E que se não esgota na festa da vitória sobre a ordem velha. De acordo. Agora aquilo que não vislumbro é a possibilidade desse gesto refundador emanar naturalmente da vida de todos os dias, e das mãos de pessoas comuns, sem a intervenção de protagonistas organizados e mesmo de heróis que, como todos os heróis, ignoram a hesitação e a dúvida. Como ideia acho-a linda, embora como mapa do tesouro me pareça um tanto fantasiosa. A gestão da fantasia também faz parte da acção, bem sei, só que funciona mais como um pauzinho na engrenagem ou como balanço para o impulso. Não chega para tudo e dura muito pouco. Infelizmente, admito.

            Apontamentos, Opinião