Arquivos Mensais: Agosto 2008

Troca de passados

Na sanha um tanto doentia, que persegue repetidamente, de procurar reescrever o seu passado e o passado do universo que habitou – do qual parece possuir, aliás, uma visão truncada e muito parcial -, Zita Seabra afirmou ao Público, a propósito de Soljenitsine, que «a esquerda não o lia». Não é verdade. Existia uma parte da esquerda que o via apenas como mais um contra-revolucionário, e outra que o fez participar da revisão dos seus modelos e da reescrita das suas utopias. Esta é a verdade.

    Apontamentos, Memória

    Na morte de Soljenitsine

    Bem sei que cada um de nós se olha a si próprio de uma forma diferente daquela que os outros usam para vê-lo, mas «tenho para mim», como se diz na Beira profunda, que foram obras como os romances Um Dia na Vida de Ivan Denisovich (1962) e O Pavilhão dos Cancerosos (1968), ou ainda os grossos volumes-libelo do Arquipélago Gulag (1973-78), que independentemente do seu valor literário me fizeram evoluir politicamente e me transformaram numa pessoa talvez um pouco melhor. Por isso as tenho conservado na biblioteca à distância de um olhar. E também por isso sou incapaz de receber a notícia da morte de Alexander Soljenitsine sem a sentir de alguma forma como uma perda. Pessoal e colectiva.

    P.S.: Uma adenda ao excelente post do Luís Januário sobre Soljenitsine: o Arquipélago de Gulag (com este título) foi publicado em Portugal, em dois grossos volumes editados pela Bertrand. No ano, pouco propício para o efeito, de 1975 (o 2º tomo em 1977). Na altura foram apontados, obviamente, como mais uma «manobra da CIA». Tenho-os aqui, mas foram adquiridos mais tarde, quando já tinha percebido que afinal não fora a CIA a inventar todo o mal do mundo. E muito menos a criar a «Administração Geral dos Campos».

    P.S. (2): Veja-se também a posição de Carlos Brito, que levanta aspectos para mim até agora desconhecidos e que não podem ser omitidos. Embora me pareça que devam ser avaliados considerando as circunstâncias da vida de Soljenitsine e a intensa manipulação das suas palavras e acções que ocorreram em meados da década de 1970.

      Atualidade, História

      Adeus, Príncipe Valente

      O meu á-bê-cê foi o Diário de Notícias, mas lá em casa lia-se também A Bola, o Mundo Desportivo, a Vida Rural, e o portuense O Primeiro de Janeiro, que era o jornal favorito do meu avô e ao domingo incluía um divertido suplemento pelo qual eu esperava sempre com alguma impaciência. A memória que dele guardo é a de um caderno que trazia consigo preciosidades para um rapaz de província, como histórias policiais, charadas, quebra-cabeças, anedotas, curiosidades, e a imprescindível banda desenhada, onde sobressaíam Os Filhos do Capitão Grant, série concebida a partir da obra de Júlio Verne, e, mais para as raparigas que procuravam um universo de teenagers que Portugal ainda não conhecia, O Coração de Julieta. Mas o melhor de tudo eram os quadradinhos a cores de O Príncipe Valente, de Harold R. Foster, surgidos no jornal em 1959 (embora lançados em 1948 nas páginas d’O Mosquito), e que foram, provavelmente, os responsáveis primordiais pelo meu gosto pela história, ali revelada sedutora na dimensão mítica e romanesca de uma Idade Média de papel.

      Publicado desde 1868 como jornal da burguesia liberal que se opunha ao lançamento do imposto sobre o consumo e havia participado no movimento da Janeirinha, quando o conheci o PJ era já um tanto conservador nos conteúdos e no grafismo, mas permanecia ainda muito popular. «O Janeiro» evidenciou porém, nos últimos anos, uma decadência visível, com alterações gráficas e de conteúdo que visaram provavelmente assegurar-lhe a sobrevivência mas que o foram descaracterizando e o afastaram do seu público original. A actual administração acaba de suspender a sua publicação, despedindo 32 jornalistas e prometendo «uma nova imagem» que não se sabe com quem vai ser construída (embora se saiba que os método utilizados não pressagiam nada de bom). Apenas podemos ficar certos de que jamais regressará o diário de referência que manteve durante gerações um público atento e fiel. Como aquele que vibrou semanalmente com as aventuras únicas do Príncipe Valente.

      Adenda a 04.Ago.2008: De acordo com o Expresso online, o novo O Primeiro de Janeiro está a ser redigido pelos jornalistas de O Norte Desportivo, caderno desportivo que integrava o centenário jornal portuense.» Rui Alas, o novo director do Janeiro e antigo director do Norte Desportivo, esclareceu que «apenas soube que iria ser responsável pelo novo projecto no passado sábado e que a equipa tomou domingo conhecimento disso».

        Atualidade, Memória

        O silêncio

        Pior que um silêncio imposto é o apagamento das circunstâncias da sua imposição. Os silenciados cumprem então uma dupla pena: aquela à qual foram socialmente sujeitos e a que os impele para um irrevogável esquecimento. Vidas singulares que foram diminuídas, quebradas, interrompidas, e, no final, reduzidas a coisa nenhuma. Formas de emudecimento que adquiriram contornos singularmente dramáticos quando os totalitarismos as transformaram em simples factores instrumentais da sua monstruosa autoridade.

        Por isso se torna indispensável, nas sociedades democráticas, a organização de um esforço destinado, tanto quanto a dar voz àqueles que não têm voz, a fazer ouvir os ecos dos silenciados. Esse esforço não pode devolver-lhes a parcela de existência que para sempre lhes foi roubada, mas pode, pelo menos em alguns casos, lançar um pouco de luz sobre o frágil rasto da sua exemplar vontade de escolherem o próprio caminho ou de pensarem a contracorrente. Ao mesmo tempo, pode projectar para as gerações mais recentes, que por vezes os desconhecem, a existência ou a forma de determinados casos de apagamento. Para que elas possam conhecer por si próprias de que maneira e em nome de que princípios se tornou possível, e continua a ser possível, esmagar aquilo que de mais intrinsecamente humano possuímos: a capacidade para fruir uma liberdade sem adjectivos e para construir um destino que podemos a qualquer instante fazer reverter.

        Debaixo das experiências totalitárias, este pesado circunstancialismo tornou-se mais presente do que nunca, pois foi imposto em todos os recantos e não apenas na sua dimensão meramente policial e penal. Porque pôde ir até ao mais fundo das consciências. Porque em alguns momentos feriu até a capacidade para pensar o mundo de uma forma autónoma. Por isso, poucos foram aqueles que perseguidos, vilipendiados e reduzidos ao silêncio puderem enfrentá-lo com uma obra capaz de ultrapassar as circunstâncias e de lhes sobreviver. Poucos, muito poucos, foram os homens e as mulheres que, em tempos sombrios, puderam alimentar uma luz que emanasse, como escreveu Hannah Arendt, «da chama incerta, vacilante, e muitas vezes ténue». Luz que esses poucos foram capazes de «alimentar em quase todas as circunstâncias e projectar em todo o tempo que lhes foi dado viver neste mundo». A maioria, porém, jamais o conseguiu, reduzida ao silêncio – ainda que sob a capa protectora das melhores utopias –, pela brutal repressão, pela censura sem tréguas, pela prisão prolongada, pelo trabalho extenuante, pelo ruído seco do tiro na nuca.

        A partir de Setembro seguirei aqui o rasto de algumas dessas vidas. Tentando mapear dolorosamente a linha frágil e irregular que através delas foi separando a esperança do horror. E este do esquecimento.

          História, Memória, Olhares

          O «nosso Magalhães»

          Já aqui ficou demonstrado, com o apoio de instrutivos links, como a originalidade da ideia do governo Sócrates de co-financiar a produção do Magalhães, um «computador português» de baixo custo destinado aos alunos do ensino básico, é em certa medida uma fraude. Trata-se de colocar uma vez mais o carro à frente dos bois, pois o governo não tem investido o suficiente no apoio prioritário à introdução dos conteúdos na rede e no desenvolvimento das capacidades informáticas dos professores – a maioria pouco mais continua a saber fazer que servir-se primariamente do Word ou do Powerpoint e utilizar de forma quase sempre passiva o browser –, fornecendo assim o martelo sem dar os pregos. Mas constitui também um gesto de mau gosto, espera-se que não de mau agouro, organizar uma homenagem em vida ao secretário de Estado (e ex-«deputado informata») José Magalhães.

            Atualidade, Devaneios