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Mudança de hábitos

Sigo o Jacques Tati de Mon Oncle numa pré-visão realista da via acelerada do meu país rumo a esse futuro próximo que podemos vislumbrar. Sem grandes exageros. Do novo-riquismo que Cavaco projectou nos anos 80 à queda numa realidade para a qual acabaram de nos projectar.

    Atualidade, Cinema, Olhares

    Nadia

    Annie Girardot

    Depois de 1960, com a Nadia de Rocco e os seus irmãos, Annie Girardot interpretou sempre um só papel: o seu. Filme após filme, aqueles que a seguiram mudos e atenciosos pelas salas escuras habituaram-se a vê-la em qualquer género da arte, do drama à comédia, sempre com aquele rosto de pessoa comum que dispensava o glamour, aquela voz de fumadora inveterada em registo de metralhadora, electrizante, que a tornavam única. Por isso – e não é pouco – vão sentir tanto a sua falta.

    A partir de uma evocação aparecida no Libération.

      Apontamentos, Cinema, Memória

      Adeus Maria

      Maria

      As filas, «bichas» num português de outras eras, nunca foram o meu forte. De cada vez que me meto numa um pouco mais comprida e visivelmente demorada, rapidamente avalio se se justifica a espera e não será preferível trocá-la por uma actividade mais autónoma. Nessas alturas desisto sem ponta de remorso e vou-me embora. Mas não foi isso que aconteceu naquele final de tarde de um Verão dos idos de 75, ali nas imediações das bilheteiras do Cine-Atlântico (ou teria sido no Cine-Miramar?) de Luanda. Munido de toda a paciência deste mundo e do outro, deixei-me ficar bem mais de duas horas na bicha, ou «fila» em português do século vinte e um, que dava a volta ao quarteirão. O objectivo assumido: comprar um bilhete para ver O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci. Mais do que muitas famílias, libertas da censura pelas liberdades de Abril, seguiam pacientes em formatura, visivelmente interessadas em conhecer a dimensão estética da lubrificação na fantasia sodomita protagonizada por Paul (Marlon Brando) e Jeanne (Maria Schneider). A Maria morreu hoje de cancro e só consigo recordar-me de como estava esplêndida, na pele de uma mulher jovem e desconhecida, naquela noite luandina.

        Apontamentos, Cinema, Memória

        SG gigante

        Serge Gainsbourg, 1978

        Em Gainsbourg – Vida Heróica, de Joann Sfar, a ponta incandescente do cigarro e o fumo que dela se liberta têm uma dupla utilidade. Objecto omnipresente e grande vício, evocadores do jovem pintor-pianista Lucien, uma noite transfigurado por Juliette Gréco – pelo menos no filme, e talvez assim tenha acontecido também fora do cinema – em Serge, o compositor de canções, o artista de variedades, o futuro agent provocateur enrugado e decadente. Mas ao mesmo tempo, num tempo em que nos impõem que os maus, os ameaçadores, aqueles que pugnam pela desordem, são sistematicamente associados ao acto compulsivo de fumar, serve para subverter os códigos dos enredos higienicamente correctos. Logo no genérico, concebido como uma longa tira de banda desenhada, o fumo do cigarro é o ar que se respira e a água que se bebe: todos fumam, constantemente, perdidamente… menos um pelotão de nazis que atravessa a Paris ocupada sem qualquer concessão ao hábito.

        É fácil gostar do filme, mas não só por se gostar da poesia pop que escapa das canções de Gainsbourg. Da música inesperada, sempre uns tantos passos à frente, do respirar da palavra dúctil e só aparentemente repentina que corria paralela às tendências dominantes da chanson française do tempo, praticadas pelo crooner Aznavour ou por um militante Brassens. Gostei também deste filme por aquilo que se percebe desde o início mas que o realizador entendeu dever recordar, no final dos 130 minutos, ao espectador mais distraído: de SG disse não serem «as verdades dele» que o interessaram, «mas sim as suas mentiras». Neste sentido, não se trata de uma biografia clássica que apenas recapitula uma história conhecida, nem de uma hagiografia que transforma o biografado num ente predestinado. Procura-se antes o processo que levou a personagem a tomar conta do homem.

        A «vida heróica» de Serge que nos conta Sfar agarra o heroísmo pelo lado que me parece certo: todos os heróis humanos são, fora dos momentos em que exercem a sua singular profissão, no dia-a-dia das discussões domésticas e das contas por pagar, uns tipos insuportáveis, a quem só os excessos, de perversidade ou de nobreza, de paixão ou de raiva, associados a um sentido de justiça cujo código são eles próprios que escrevem, conferem a dimensão de extravagância e de bravura. Por isso, por não ser um Gaisnbourg canonizável, mas na realidade um anti-herói com muito de atormentado e alguma coisa de oportunista, tão singular e excessivo como tantas pessoas comuns que nunca saíram em capas de revista, é que esta «vida de artista» em formato animado nos pode seduzir. Humanizando com muita dignidade a própria decadência do biografado, contando com algum pudor a sua encenação do excesso. A desmesura da música como modo de vida, de sexo com divas apetecíveis e de cigarros Gitanes que se acendiam uns nos outros. Um belo filme francês, deixem que vos diga.

        Adenda – O trabalho de legendagem é por vezes mau. Não sei se por dificuldades com alguma das duas línguas se por mero descuido. Um exemplo: transformar «Je t’aime / moi non plus» em «Eu amo-te / eu também não» não lembra ao diabo.

          Cinema, Memória, Olhares

          O seu nome era Tony

          Tony Curtis

          Talvez faça parte da última geração que construiu o seu amor pelo cinema debaixo dos telhados maternais dos velhos cineteatros de província. Daqueles com palco de cortina, pequenos camarotes, primeiro e segundo balcão, duas plateias e, certas vezes, um «piolho» onde era possível fumar e atirar cascas de amendoim para o chão. Dessa primeira experiência deslumbrada sobra-me a memória de alguns clássicos para o grande público (Cecil B. DeMille e John Ford forever!) e a recordação das paredes beije de foyers decorados com fotografias um tanto descoloridas de astros e de estrelas da Hollywood dos anos 40 e 50. Foi esta a primeira imagem que me ocorreu – lamento, não foi um fotograma de Some Like It Hot (1959), de Billy Wilder – quando soube ontem da morte de Tony Curtis (1925-2010). Um dos rostos omnipresentes nessas galerias íntimas do maravilhamento. Deve ter sido por isso que senti mais uns quantos gramas de passado a caírem no chão com algum estardalhaço.

            Apontamentos, Cinema, Memória

            Sol e poeira

            Open Range

            Havia tempo. Tinha saudades de um western normal e previsível. Daqueles onde os maus, gananciosos e sem piedade, se encontram de olhos nos olhos com os bons, firmes quando é preciso mas sempre generosos, sob um sol toldado pela pólvora e pela poeira. Noite fora e sem pipocas, vi ontem, via RTP1, Kevin Costner e Robert Duvall em quase três horas de um filme assim.

            «Waite, Spearman, Button e Harrison tentam fugir ao passado, criando gado nas pradarias, onde a lei é a da Natureza. Os cowboys tentam seguir um código de lealdade e integridade e evitam a violência. Ao chegar a uma cidade dominada pela corrupção e tirania, no entanto, estes homens são forçados a entrar em acção.»

            No final de Open Range (A Céu Aberto, de 2003, dirigido por Costner), e em harmonia com o modelo, consumada a justiça o pistoleiro de boa índole pediu em casamento a moça compassiva – bem, já não era tão moça assim pois «já lhe despontavam as cãs» – que sempre esperara por ele. E a paz regressou à pradaria. Quando apareceu no ecrã o clássico «The End» transpirava um pouco e tinha na boca o sabor inconfundível de um filme «para maiores de 12 anos». Tinha saudades.

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              Cinema, Devaneios, Etc.

              Norma, a leitora

              Marilyn e Arthur Miller

              Não se tratou apenas uma intuição, suscitada por uma ou outra imagem de uma sensualidade menos óbvia e nitidamente mais despojada de Marilyn. Sempre me pareceu que o estereótipo foi exagerado e deformante – como todos os estereótipos –, além de francamente injusto. Indícios aqui e acolá. Em entrevistas que não eram de promoção, poses menos condicionadas pelo fotógrafo, informações a conta-gotas e transmitidas por portas travessas, vindas de pessoas que com ela um dia se cruzaram. Agora parece que se confirma: a menina Norma Jean não tinha apenas os diamantes como os seus melhores amigos. Gostava muito de ler e não correspondia bem ao protótipo da loura burra das piadas de subúrbio.

                Apontamentos, Cinema

                Dennis

                Morreu hoje o Dennis Hopper (1936-2010). O Goon de Rebel Without a Cause (meninos jornalistas, em Portugal chamou-se Fúria de Viver, no Brasil Juventude Transviada). O fotojornalista do Apocalypse Now. O pai de Mickey Rourke em Rumble Fish. O Frank Booth de Blue Velvet. Mas para mim, principalmente, o Billy de Easy Rider. Em cima daquela mota, por interposta pessoa, vislumbrei um dia outra vida. Quanto à vida dele parece que Dennis passou por ela muito bem, obrigado. Intensamente, como é preciso.

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                  Apontamentos, Cinema, Memória

                  Do Avatar

                  O argumento de Avatar é trivial, na linha de um certo cinema americano pós-sixties de bilheteira – agora já sem os tiques da Guerra Fria – para o qual a luta entre o bem e o mal traduz frequentemente um confronto directo entre pessoas comuns, lesadas nos seus direitos, e os agentes de uma qualquer tirania que procuram subjugá-las. Só que, no caso, essas «pessoas comuns» são os Na’vi, seres de pele azul e compleição esguia, que vivem em comunhão com o que o espaço e os animais que os rodeiam no distante e quase edénico planeta Pandora. O resto do filme de James Cameron tem contornos de western, fechando com o castigo do vilão e o transpirado herói a ficar de bem com a mocinha (ou a squaw, já não sei bem).

                  Trata-se de um aparatoso filme de entretenimento, com quase três horas de efeitos 3D que deixam qualquer espectador exausto, com o sentido da visão momentaneamente perturbado, mas feliz por isso. Eu, pelo menos, fiquei-o. Transcrevo, para não dizer mais ou menos o mesmo por outras palavras, aquilo que Jorge Leitão Ramos escreveu no Expresso: «Mesmo percebendo que há uma falta de textura, de peso, que retira aos eventos e à acção emoções profundas, a verdade é que os achados visuais são portentosos e não me refiro só aos seres fantásticos, ora insectos, ora árvores imensas, ora canídeos ferozes, ora criaturas dinossáuricas ou aos espaços da natureza de uma exuberância que roça o delírio. Refiro-me aos intérpretes, aos corpos dos Na’vi, aos seus felinos movimentos, a uma respiração sensual que habita todo aquele mundo mágico e espantoso.»

                  Merece entretanto um comentário um padrão de crítica que se compraz a depreciar o filme com argumentos bastante perversos. No Telegraph, Will Heaven fala de um «subtexto racista» que se fica a dever ao pormenor dos Na’vi usarem adereços e armas próximas das utilizadas por algumas etnias africanas. Mas principalmente ao facto da libertação da tirania ser trazida «de fora», de forma paternalista, por seres híbridos que tinham sido originalmente humanos e dispunham de sageza e tecnologia próprias da sua espécie de origem. Não importa se estes humanos tomaram o partido dos naturais e escolheram passarem a ser uns deles. A tolice repetitiva do remorso ocidental é ecuménica e, pelo lido, transportável também para Pandora. Para mim trata-se, insisto, de um filme belo e divertido que deixará nos espectadores uma marca de preocupação ecológica e de grande humanidade (sim, somos nós, humanos de não-ficção, que a escrevemos e lemos essa humanidade). E pontua o início de uma nova epopeia visual aplicada ao cinema que muito provavelmente repercutirá, como tem sido dito, uma alteração das expectativas plásticas do espectador idêntica à projectada em 1968 por 2001: Odisseia no Espaço, de Kubrick.

                    Apontamentos, Cinema

                    O destino de Sofia

                    Sofia Loren

                    Sofia Loren faz hoje 75 anos e há sensivelmente 60 que anda por aí, revelada em filmes e fotogramas, a perturbar as horas de descanso de adolescentes com borbulhas e honestos patres familiae de diferentes gerações, origens, línguas, credos e regimes. Abençoada seja também por isso. E longa vida à camarada Sofia!

                      Cinema, Etc., Memória

                      Uma vida e filmes vários

                      Villa

                      Johnny Depp será José Doroteo Arango, Pancho Villa, no próximo filme de Emir Kusturica, que tem como título provisório Seven Friends of Pancho Villa and a Woman With Six Fingers e começará a ser rodado em 2010. Terá a companhia preciosa da mexicana Salma Hayek. Promete, claro. Mas já em 2003 Antonio Banderas foi Villa em Starring Pancho Villa As Himself, um documentário sobre a forma como D.W. Griffith e Harry Aitken compraram ao próprio Villa os direitos exclusivos sobre as imagens das batalhas da revolução mexicana, permitindo-lhes montar em 1914 The Life of General Villa, o primeiro filme de acção de Hollywood. A dimensão densamente cénica e cinematográfica das acções e da própria presença física de Villa pode ser avaliada numa descrição deixada por John Reed em México Insurrecto. Aqui fica ela:
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                        Cinema, História