Arquivo de Categorias: Cinema

Tonino Guerra

Devemos ao poeta, escritor e roteirista italiano Tonino Guerra (1920-2012), antigo professor primário e ex-prisioneiro do campo de concentração de Troisdorf, uma parte substancial  daquilo que nos mostrou o cinema de Michelangelo Antonioni (A Aventura, A Noite, O Eclipse, Deserto Vermelho, Blowup, Zabriskie Point, Identificação de uma Mulher), Federico Fellini (Amarcord, La Nave Va, Ginger e Fred), Theo Angelopoulos (Paisagem na NeblinaA Eternidade e um Dia, O Passo Suspenso da Cegonha) ou Andrei Tarkovski (Nostalgia). Isto quer dizer que lhe devemos uma parte significativa das nossas vidas, daquilo que somos e principalmente do que acreditamos ser. Eu, pelo menos, devo. Tonino aqui em entrevista a Carlos Vaz Marques.

    Apontamentos, Cinema, Olhares

    João Botelho / Páginas Tantas

    Esta segunda-feira, dia 12 de março, pelas 18H30, decorre a terceira sessão do programa Páginas Tantas, organizado em Coimbra pelo TAGV – Teatro Académico de Gil Vicente e pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Nele se irá falando de livros e de literatura, das artes e dos artistas, e de outras coisas úteis. Em cada sessão estará presente um/a convidado/a que irá conversar com o público sobre o seu trabalho. Desta vez será o cineasta João Botelho (Lamego, 1949). Após a sessão, pelas 21H30, será exibido no TAGV, em cópia de 35 mm, o filme Tempos Difíceis. No final da projecção haverá um debate com João Botelho e Sérgio Dias Branco. Mais informações no blogue do programa.

      Artes, Cinema, Novidades

      Truffaut e nós

      F. Truffaut
      François Truffaut e o seu alter ego Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud)

      A entrada na adolescência de François Truffaut foi semelhante à do pequeno Antoine Doinel de Os 400 Golpes: sem um núcleo familiar estável, viu-se entregue a si próprio no mundo perturbado e hostil dos anos da Paris da Ocupação alemã e da Libertação, passando rapidamente da condição de bom aluno para a de um miúdo ansioso, fingido, ladrão e mentiroso. Expulso da escola aos 14 anos, segue a partir daí um destino de autodidata, refugiando-se por sua conta e risco na literatura e no cinema, e percorrendo um trajeto no qual o romanesco e o íntimo permaneceram unidos e como constantes. Foi este mundo intimamente penoso, de uma realidade imaginada a partir da consciência singular do narrador ou do personagem que não pretende ser exemplo de nada ou para alguém, que Truffaut foi construindo, com raras exceções, o seu modo próprio de filmar e de se aproximar dos espetadores encerrados na sala escura para lhe verem as artimanhas.

      Ao longo das décadas de 1960-1970 foram muitos – eu fui um deles, para que conste, apesar de já só ter podido ver os seus primeiros filmes em sessões de reprise num velho cinema de cadeiras desconjuntadas e a cheirar exageradamente a encerado – os que foram projetando as certezas e as dúvidas sobre o seu próprio amadurecimento através do crescimento atormentado e problemático do inconstante Doinel (desde o citado filme, estreado em 1959, até Amor em Fuga, de 1979, passando por Antoine e Colette, de 1962, Beijos Roubados, de 1968, e Domicílio Conjugal, de 1970). Ou aqueles, homens principalmente, que foram perscrutando no ecrã pela mão do eterno menino parisiense as suas próprias fantasias (Jules e Jim, 1962; O Homem que Gostava das Mulheres, 1977; A Mulher do Lado, 1981). Truffaut nasceu em 6 de fevereiro de 1932 e se não lhe tivesse acontecido o pior em 1984 faria hoje 80 anos. Ter-nos-ia dado muito jeito que por cá se tivesse podido manter.

        Artes, Cinema, Memória, Olhares

        Naufrágio

        Sei que o drama vivido pelos naufragados não aconselha a brincadeira e que a minha formação básica de livre-pensador (não confundir com a do pedreiro-livre), de racionalista crítico e de pragmático materialista me impede de aceitar influências chegadas do domínio do sobrenatural, mas é preciso reconhecer a devida importância ao facto de na cerimónia de batismo do Costa Concordia a garrafa de champanhe não se ter quebrado. Quando assim acontece, diz a crença que o navio não terá grande sorte. Ao mesmo tempo, em Film Socialisme, de Jean-Luc Godard, numa grande parte rodado a bordo do Costa, falava-se metaforicamente do fim do capitalismo e desta Europa política que se afunda agora perante os nossos indefesos olhos. Uma óbvia premonição. O desastre marítimo ao largo do arquipélago Toscano representa assim um golpe duplo nas certezas de quem não acredita em bruxas.

          Apontamentos, Artes, Cinema, Olhares

          Don Juan e a presidência da França

          Um número recente da série da Le Point sobre os «grandes mitos» é dedicado a Don Juan. Se seguirmos a definição do Houaiss, podemos considerá-lo a representação ou a súmula do «homem extremamente sedutor, conquistador, mulherengo». Do donjuanismo diz um dicionário popular ser «mania» de quem quer para si, como num ritual de posse, «fêmea após fêmea». Outras fontes associam a figura a uma personagem semilendária que «parece ter vivido em Sevilha», servindo a fantasia da sua existência de inspiração a autores que recorreram ao tipo do «conquistador brilhante, libertino e sem escrúpulos» ao qual as mulheres são incapazes de resistir. Se bem que depois, recorrentemente, como um dever, ele «as engane, despreze e rapidamente esqueça.»

          Destaco dois artigos deste número da revista. No primeiro, Michel Delon, autor de um estudo recente com um título tão estimulante como Le Principe de délicatesse. Libertinage et mélancolie au XVIIIe siècle, contrapõe Don Juan a Casanova, o aventureiro italiano ao qual é frequentes vezes equiparado. A separação deve-se principalmente, para Delon, ao facto de Casanova arrebatar, por processos de sedução algo artificiais, o amor das mulheres, enquanto Don Juan o obtém naturalmente, pela sua própria maneira de ser. Um, o italiano, jogando sempre nos limites do cinismo, o outro, o espanhol, vivendo cada dia nas margens do absurdo. Num outro artigo, o sociólogo Michel Maffesoli define a figura do conquistador sevilhano como «arquetípica» de uma certa sede de viver o presente de forma total, permanente, que é muito característica do nosso próprio tempo. Aplicado na exaltação da paixão, vivendo cada relação numa espécie de estatuto de inocência, incapaz de considerar experiências anteriores, é, sob essa perspetiva, uma figura extremamente contemporânea. (mais…)

            Atualidade, Cinema, Olhares

            Demasiado humano

            Piccoli e Moretti

            Assistir a uma projeção de Habemus Papam, de Nanni Moretti, colocou-me em confronto com algumas leituras do filme que fui recolhendo antes de o ver. Diluiu-se de todo a apresentação do argumento como concebido num registo de genuína comédia, que foi o dos primeiros trabalhos para o cinema do realizador italiano. Além disso, tornou-se clara a estreiteza do ponto de vista dos que, procurando essencialmente ver aquilo que querem, encontraram na obra «uma ácida crítica à crise da Igreja no mundo de hoje». Para já não falar dos setores católicos mais conservadores que decidiram atacar o filme pelo motivo luminar de que, como dizia o bispo Salvatore Izzo sem se dar ao trabalho de o visionar, «no Papa não se toca».

            O filme é fundamentalmente uma intensa figuração dramática do dilema de um homem, eleito papa de maneira fortuita (um admirável Michel Piccoli, diga-se), que recebeu a nomeação que lhe deveria afetar para sempre a vida pessoal com uma explosão intensa e inesperada de pânico, sofrimento e dor interior, levando-o a ensaiar uma fuga pela vida real – aquela que o leva a deambular por ruas e bares de Roma – e a decidir-se enfim por uma rejeição visceral do cargo ao qual o haviam destinado. E é também uma abordagem comovente da solidão – a daquele homem, mas igualmente a dos cardeais que o escolheram – confrontada com a formalização do lugar social que supostamente deteriam como responsáveis e funcionários maiores do corpo eclesial e da «comunidade dos fiéis».

            Quanto ao argumento que invoca a dimensão abertamente crítica deste filme em relação ao pequeno e complexo mundo da Cúria romana, ela parece-me de todo ausente. A verdade é aqui a oposta, pois a exposição do lado hesitante, infantil e mesquinho, porque humano, dos dignitários romanos, apenas os humaniza. Justamente o contrário daquilo que aconteceria com uma representação dos salões, antecâmaras e corredores do Vaticano enquanto lugares soturnos e de mera intriga palaciana, essa sim a leitura dominante, que poderia ser olhada como uma censura dos processos de gestão interna da Igreja Católica Apostólica Romana. Ora não é isso que Moretti faz neste filme.

              Artes, Cinema, Ficção

              Num filme neorealista

              Enzo Staiola (Bruno) e Lamberto Maggiorani (Antonio)
              em «Ladrões de Bicicletas», de Vittorio de Sica (1948)

              Na minha escola primária, nós, as crianças – apenas rapazes –, dividíamo-nos em quatro grupos que se distinguiam pelos pés. Um, pequeno mas muito expressivo, chegava à escola descalço, mesmo de inverno, usando sacos de sisal para se proteger da chuva e do frio da manhã, e todos os colegas sabiam que aqueles eram os filhos dos pobres, sobrevivendo no limiar da miséria e da caridade. No extremo oposto, outro grupo, igualmente pequeno, usava sapatos de sola de cabedal, sempre a reluzirem e com aspeto de novos: era o dos que vinham de famílias com mais posses e melhores ligações, ou que se faziam passar por tal. No meio, um segundo conjunto de alunos usava calçado velho, de baixa qualidade, por vezes tamancos de madeira. Compunham-no os filhos da gente humilde mas aprumada, que fazia, sabiam Deus e o Diabo como, por se manter à tona, no rebordo da «pobreza honrada». E havia ainda um terceiro, ao qual eu pertencia, naquela escola talvez o maior de todos eles, que era composto pelos mais novos membros de uma classe média que via na poupança a única forma de encarar um futuro sempre imprevisível. Usávamos sapatos apresentáveis aos domingos e dias santos de guarda, que as nossas mães engraxavam com atenção e carinho, reservando para outros dias o calçado mais usado, reforçado com «protetores», pequenas peças de ferro ou de chumbo que serviam para prolongar a vida das solas e das capas dos saltos. Ontem, pela primeira vez em muitos anos, encontrei na vitrina de uma velha loja «protetores» à venda. Fiquei na dúvida sobre se seriam um vestígio arqueológico recuperado ou um sinal dos tempos. Ou se sempre ali estiveram e só agora, condicionado pela realidade, eu reparei neles.

                Apontamentos, Cinema, Memória

                Ceaucescu em solo absoluto

                Nicolae Ceaucescu e Kim Il-sung em 1980

                Só esta semana vi as três horas ininterruptas da Autobiografia de Nicolae Ceaucescu, o filme de Andrei Ujică, realizado em 2010, que explora a imagem do ditador romeno numa montagem que recorreu a mais de mil horas de películas, em grande parte não utilizadas pela propaganda, existentes nos depósitos da Televisão Nacional Romena e do Arquivo Nacional de Bucareste. A expectativa de assistir a um desfile documentado de crimes de Estado e de maquiavelismo prático frustrou-se em poucos minutos. Mas aquilo a que pude assistir não foi menos violento e de certa maneira penoso. Seguindo a voz e o olhar que são os do próprio Conducator, os da construção do seu universo pessoal ao longo de duas décadas e meia de autoridade incontestada, percebemos como é fácil fabricar uma versão completamente distorcida da realidade quando o poder absoluto, a interminável bajulação, a fantasmagoria de uma conceção unilateral do mundo e da história, afastam da realidade o dirigente que vive exclusivamente dentro das suas margens, projetando-o num abismo dourado do qual já não pode sair. E percebemos também a lógica ilógica da construção de um discurso dogmático e previsível, projetado como voz do povo e em nome do povo, ao mesmo tempo que o transforma numa amálgama de escravos empobrecidos e mudos. Um documentário que assusta e no entanto elucida.

                [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=nR7UTcxhDv0[/youtube]
                  Apontamentos, Cinema, História, Olhares

                  Os cómicos

                  Jacques Tati
                  Jacques Tati em «Play Time»

                  Italo Calvino disse uma vez de Groucho Marx que o seu sucesso se deveu ao facto de, «enquanto consumado viveur e conquistador irresistível», se apresentar sempre com os atributos exteriores do prestígio, da autoridade e do saber viver. Fatores que terão ajudado a manter a relação de cumplicidade com um público que lhe permaneceu sempre fiel. Como acontece com todos os cómicos que através de performances  burlescas partilham com quem os observa um sentimento de conivência para com a sua forma oportunista e habilidosa, individualista e sem grandes preocupações morais, de representar a vida. É o que se passa com atores como Fernandel, António Silva, Louis de Funès, Jerry Lewis, Mel Brooks e Rowan Atkinson. Com eles, a ironia é remetida para um limiar estreito e incerto, muitas vezes invisível. Talvez por isso tenha preferido sempre um outro género de humor. O dos clowns pobres, grandes solitários, histriões de roupa amarrotada e paixões impossíveis, de semblante triste e porta-moedas vazio, que não riem ou quase não riem, como Buster Keaton ou Chaplin, Totó ou Jacques Tati, Cantinflas ou Woody Allen. A essência da comicidade – tão intensa que pode levar às lágrimas – não se encontra aqui no espalhafato ou no gag inusitado, mas nas virtualidades subversoras de um modo sóbrio e desastrado, desolado e quixotesco, de usar o humor como meio de sobrevivência e estilo de vida. Os Monty Python não entram nestas contas pois o nonsense pertence a outro planeta.

                  versão 2.0 – original de 2006

                    Apontamentos, Artes, Cinema

                    Porque gosto eu tanto do cinema francês dos anos 60
                    (de preferência a preto e branco)

                    «Seria difícil imaginar um realizador americano ou inglês a fazer um filme como Ma Nuit Chez Maud (1969), de Éric Rohmer, em que Jean-Louis Trintignant agoniza durante quase duas horas sobre se deve ou não dormir com Françoise Fabian, invocando, nestas duas horas, tudo, desde a aposta de Pascal sobre a existência de Deus à dialética da revolução leninista. Aqui, como em tantos filmes da altura, é a indecisão, e não a ação, que faz avançar o enredo. Um realizador italiano teria acrescentado sexo. Um realizador alemão teria acrescentado política. Para o francês, bastavam as ideias.» (Tony Judt, O Chalet da Memória)

                    [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=_t9begCwIB0[/youtube]
                      Cinema, Olhares, Recortes

                      How I Learned to Stop Worrying

                      Peter Sellers

                      Um grupo de técnicos de uma unidade industrial de Amarillo, Texas, dependente da National Nuclear Security Administration, acaba de concluir o desmantelamento daquele que o governo norte-americano afirma ter sido o último exemplar da B-53. O objeto não era de todo inofensivo, uma vez que continuava a ser considerado a bomba termonuclear mais poderosa do mundo, seiscentas vezes mais potente do que a lançada sobre Hiroxima em 1945. Esta arma assustadora fora um produto demencial da fase mais quente da Guerra Fria, e tinha sido concluído de forma acelerada, no início dos anos sessenta, na altura da Crise dos Mísseis de Cuba. A B-53, carinhosamente apelidada de Big Dog pelos militares que a haviam concebido com o objetivo de exterminar parte da humanidade, destinara-se a ser lançada de bombardeiros estratégicos de longo alcance B-52. Era capaz de rebentar com bunkers e de enviar ondas de energia através do solo semelhantes às dos sismos, fazendo desaparecer grupos de cidades ou países inteiros, e desimpedindo de vez o uso dos botões vermelhos da Casa Branca e do Kremlin. Despoletando então a batalha final, o dia antes do «day after», o fim dos tempos, esse Armagedão que, com forte sentido de realismo, Stanley Kubrick desenhou em 1964 na sequência derradeira do filme Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (em Portugal Dr. Estranho Amor ou: Como Aprender A Deixar De Me Preocupar E A Amar A Bomba). No entanto, este gesto simbólico da administração americana não parece suscitar agora qualquer sentimento de alegria, alívio ou segurança, surgindo nas notícias como uma simples curiosidade. Na realidade, todos sabemos que a indústria da guerra foi entretanto inventando outros meios menos espetaculares, menos definitivos, mas mais insidiosos e eficazes de gestão do medo e do poder. Por isso este objeto estrondoso pode muito bem ser abatido sem danos de maior para a atual ordem do mundo.

                        Apontamentos, Cinema, Memória, Olhares

                        Cérebros e corações

                        Em When Harry Met Sally, por cá Um Amor Inevitável, a comédia romântica de Rob Reiner filmada no final dos eighties com Billy Crystal e Meg Ryan, uma linha de diálogo faz soar uma verdade numa tonalidade lamechas que por sê-lo não lhe faz perder a exatidão. «Os nossos cérebros são bons a registar datas e factos que podem ser esquecidos quando já não são necessários. Mas nada do que é bem guardado nos nossos corações alguma vez se perderá.» Provavelmente uma das deixas mais despretensiosas e certeiras da história do cinema.

                          Apontamentos, Cinema, Olhares

                          Viver depressa, muito depressa

                          James Dean

                          A propósito da morte prematura de Amy Winehouse, um despacho da Agência France-Press veio falar-nos de um certo «clube 27». O dos «grandes mitos musicais do século passado» que morreram com esta idade, quando supostamente tanto havia ainda a esperar das suas vidas e do seu trabalho criativo. O despacho lembra alguns, os mais conhecidos: Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain. É fatal, numa situação destas, evocar a deixa do actor John Derek em Knock on Any Door (O Crime Não Compensa), realizado em 1949 por Nicholas Ray: «Live fast, die young and leave a good-looking corpse». Pouco tempo depois Ray dirigiria James Dean em Rebel Without a Cause (Fúria de Viver, de 1955), onde paira a permanente vertigem da morte prematura, aparentemente sem sentido, e da linha ténue que a separa da vida. Como se cumprisse um destino, Dean morreria pouco tempo depois, aos 24, ao volante do carro com o qual contava participar numa corrida em Salinas. Em qualquer caso, um elo parece unir o trajecto de um conjunto de pessoas que desapareceram naquela altura da vida em que todos ainda nos cremos imortais, circulando sem olhar para o lado no limite do possível e sobre o fio da navalha. A daquelas ou de tantas outras, mais ou menos anónimas, que todos os dias aparecem pelos piores motivos nas páginas dos jornais. Não valerá a pena proclamar princípios de moral comum a propósito das «vidas perdidas» e dos exageros – de álcool, droga, noitadas, sexo, velocidade – daqueles que pagaram por eles o mais alto dos preços. Talvez acreditassem que viver era apenas aquilo, que mais nada valia realmente a pena. Como também não me parece que devam ser transformados em modelo apenas por recusarem os valores da moderação ou da mediania. Podemos talvez conjecturar, com alguma crueza e mórbido egoísmo, sobre como seriam hoje Morrison ou Janis aos 68, o que restaria do seu legado acumulado ao fim de todos estes anos, e se para nós – não para os seus pais, os seus amigos, que sofreram a perda – não terá sido preferível que as coisas se tenham passado daquela triste maneira.

                            Cinema, Música, Olhares

                            No cinema com Hector Barbossa

                            Barbossa & Sparrow

                            Como gosto de filmes de «entretenimento, acção, aventura» e tenho um especial carinho pela figura ficcional do pirata – bem mais pela ficcional do que pela histórica, embora também possamos reconhecer piratas dos verdadeiros com um trajecto assombroso – fui ver «Por Estranhas Marés», o quarto filme da série O Pirata das Caraíbas, desta vez dirigido por Bob Marshall. Resultado: uma desilusão profunda, uma irritante experiência de tédio e a sensação pós-visionamento de 10 euros e 137 minutos de vida esbanjados. A movimentação dos actores, puramente coreográfica, tem algo de jogo para PlayStation, e provavelmente será essa mesmo a ideia, já que deparei, por comparação com os anteriores episódios, com uma clara infantilização do argumento, dos personagens e dos diálogos. Estes são agora deploráveis, primários, com tudo «bem explicadinho», prontos para um público pouco exigente e não preparado para subtilezas e citações. As sequências amorosas – as do casto missionário com a sereia ingénua, ou as que envolvem Johnny «Sparrow» Depp, desta vez com os maneirismos do personagem exagerados até à caricatura, e uma Penélope Cruz que aqui mais parece uma esforçada actriz de teatro amador – são de um bocejo indescritível. E a piorar a experiência, um inquietante sinal dos tempos: como é possível fazer um filme de piratas sem tabaco e quase sem álcool? Salva-se a intervenção da única personagem que conserva uma certa dignidade «pirática» e que é desde o início da série a minha favorita. Sim, refiro-me ao imprevisível, bem-humorado, e tão canalha quanto generoso, Capitão Hector Barbossa, de novo interpretado por Geoffrey Rush, que é de longe o melhor actor de todo o casting. Se querem mesmo ver o filme, então abstraiam-se do omnipresente Jack Sparrow – agora tão enjoativo quanto as pipocas do espectador da fila da frente – e sigam as pisadas do «perna de pau».

                              Cinema, Fotografia, Olhares

                              Mudança de hábitos

                              Sigo o Jacques Tati de Mon Oncle numa pré-visão realista da via acelerada do meu país rumo a esse futuro próximo que podemos vislumbrar. Sem grandes exageros. Do novo-riquismo que Cavaco projectou nos anos 80 à queda numa realidade para a qual acabaram de nos projectar.

                                Atualidade, Cinema, Olhares