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Vidas infelizes

Mantém-se um costume antigo, quando se fala da vida de certos artistas ou escritores, de embelezar o triste e o deplorável. Vemos marcas dos seus trajetos, comuns às de tanta outra gente, por onde passa o abandono, a infelicidade, a pobreza, a miséria, a doença, a depressão, como pagamento de um destino que lhes concede a admiração temporária ou póstuma. Nesses momentos, os traços que em outras pessoas são marca de rejeição, codificam uma maldição que as torna admiradas dos comuns e lhes assegura lugar num anel superior.

Nasceu sem dúvida nos ambientes do mundo romântico, essa admiração desenfreada pela grandeza da infelicidade como destino dos eleitos que habitam mansardas e morrem cedo. Periodicamente reencontramo-la em documentários, palestras ou suplementos literários, onde, por algum tempo, geralmente pouco, as vidas infelizes e solitárias são colocadas à admiração do vulgo. É, porém, a sua idealização que conta, não as pessoas reais fora desse foco momentâneo. Por isso me custa sempre ver essas tristes hagiografias.

Pintura: O Pobre Poeta, de Carl Spitzweg, 1839

    Apontamentos, Artes, Olhares

    Loucos Anos 20? Quais Loucos Anos 20?

    De repente, não sei precisar em que momento, começaram a chegar-me às turmas de história contemporânea na universidade estudantes que traziam na cabeça uma grande léria sobre os «loucos anos 20». Como se a vida de toda uma década do século passado tivesse sido moldada à imagem da fruída pelo grupo diletante de Scott Fitzgerald e Zelda Sayre. Como um reverso elitista, saído da paisagem parisiense e da Riviera, do que aconteceu a milhões de humanos depois do crash bolsista de 1929. Passando para segundo ou terceiro plano aquilo que foi nesses anos a brutal exploração, as duríssimas condições do trabalho, as perseguições de natureza étnica e política e a explosão dos fascismos. Por vezes, para tentar diluir o que trazem na cabeça sobre o brilho ofuscante da vida experimentada apenas por um pequeno setor da população privilegiada de certas capitais, e para abrir espaço a uma mistura de conhecimento com consciência crítica, leio e comento este parágrafo de «A Era dos Extremos», de Eric Hobsbawm:

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      Artes, História, Memória, Olhares

      «Por trás de um grande homem…»

      A frase é conhecida e recorrentemente citada, se bem que a sua origem literária seja, tanto quanto sei, desconhecida: «Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher». Ela possui em regra uma óbvia e forte tonalidade machista, subentendendo que certos homens estão vocacionados para grandes obras, ou para grandes causas, e para terem tempo de se dedicar a elas deverão ter, na retaguarda, mulheres que arrumem a casa, vão às compras, eduquem os filhos, paguem as contas da água e da luz e lhes confiram a paz de espírito necessária para poderem dedicar-se por inteiro à nobre missão da qual se crêem investidos. Grandes mulheres, para muitas das mentes que produzem aquele juízo, serão estas, e não tanto as que concorrem com os homens por igual ou que não asseguram aos seus a devida supremacia na vida privada e em sociedade. Esta relação desigual é, obviamente, antiga, pois Plutarco, sem tomar como objecto da suas perto de cinquenta biografias uma só mulher, colocou-as sempre como fatores benfazejos ou influentes, imprescindíveis para acalmar a destemperada valentia que julgava caracteristicamente masculina.

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        Artes, Cinema, Etc., Olhares

        Charles et moi

        Agora já posso escrever isto. O segundo disco de 45 rpm em vinil que comprei foi Love Me Do, dos Beatles, mas o primeiro foi Et Pourtant, de Charles Aznavour. Desde a pré-adolescência, a vida toda, sem abandonar os outros gostos, para mim «o» cantor dos amores démodés, perdidos, impossíveis, finitos, implacáveis, que foram tantas vezes aqueles que efabulei ou talvez tenha vivido. Ao longo de décadas, confesso, fui estranhamente pensando no que aconteceria no dia em que Charles morresse, como sentiria uma espécie de orfandade de alguém que não conheci, mas me ajudou tantas vezes a viver a vida. E fui construindo uma playlist improvável, destinada a esse momento, que trouxe sempre no bolso. Chegou a vez de a pôr a tocar só para mim.
        [Publicado originalmente no Facebook]

          Apontamentos, Artes, Memória, Música

          Cultura e responsabilidade política

          A desastrosa decisão da Direção-Geral das Artes e do Ministério da Cultura, traduzida na negação de apoio material a estruturas indispensáveis no campo do teatro, da música e das artes visuais, desencadeou uma tempestade que se adivinhava desde há algum tempo e poderia ter sido evitada se os critérios de financiamento tivessem sido mais transparentes, justos e realistas. Espera-se agora que a situação possa ser resolvida, pelo menos no que respeita às consequências mais gravosas para a sobrevivência de organismos culturais insubstituíveis, com décadas de experiência profissional, atividade criteriosa e reconhecimento do público e da crítica. (mais…)

            Artes, Atualidade, Democracia, Opinião

            Princesa Leia

            Em Novos Ritos, Novos Mitos, saído em 1965, o crítico e filósofo Gillo Dorfles declara a ficção científica, entre as diversas formas de arte para as massas, como aquela que soube englobar um maior número de «constantes de época» e torná-las evidentes. Não sei se, meio século depois, podemos continuar a dizer isto de uma forma tão absoluta, mas parece hoje ainda mais claro, com a voga das grandes sagas para o cinema ou para a televisão, que existe uma dimensão em histórias e personagens de ficção científica, como parte de uma fantasia épica, que entraram nas nossas vidas e dão sentido a um certo lado do nosso imaginário partilhado. Tão saturado de realidade, tão esvaziado de propostas mobilizadoras, e por isso tão carente de um universo paralelo no qual possamos projetar a eterna luta entre o bem e o mal. É isso que faz com que, por exemplo, tantas pessoas estejam a tomar quase como uma perda pessoal a morte inesperada de Carrie Fisher, desde 1977 a Princesa Leia Organa da saga A Guerra das Estrelas. Por cuja libertação das mãos das forças imperiais comandadas por Darth Vader, Luke Skywalker e o capitão Han Solo tanto tiveram de lutar logo no primeiro episódio. Afinal, tratava-se de alguém indispensável para ajudar a restaurar a liberdade e a justiça na galáxia e esta é uma missão que muitos de nós considera essencial no mundo de verdade.

              Artes, Cinema, Democracia, Ficção

              O génio cobarde e o medíocre engenhoso

              O Ruído do Tempo, último livro de Julian Barnes, é um romance histórico. Incorporando uma componente ficcional, centrada em particular nos diálogos, nos cenários, nos personagens secundários, no enunciar de subjetividades e, naturalmente, na trama narrativa, possui uma espinha dorsal que é o conhecimento histórico das circunstâncias que envolvem os factos mencionados e a biografia das figuras reais que as povoam. Em algumas obras do género a primeira componente é dominante, mas neste caso isso acontece claramente com a segunda. Barnes seguiu aqui, de forma muito próxima, a vida do compositor russo Dmitri Chostakovich, personalidade central da música do século XX, que viveu sempre uma relação tensa e ambígua como o poder soviético. Nas últimas duas páginas, aliás, refere as fontes históricas das quais principalmente se serviu.

              Gira em torno de três momentos nos quais essa tensão emergiu de forma particularmente dramática, aproximando o génio criador da pessoa que a todo o instante teme pelo seu bem-estar e pela sua pele. O primeiro ocorreu em 1936, ano do início dos impiedosos Processos de Moscovo, quando a sua ópera Lady Macbeth de Mtsensk, composta dois anos antes, foi acusada pelo jornal Pravda de se tratar de «chinfrim em vez de música», uma expressão de um inútil formalismo e, por isso, contrária ao dogma artístico do realismo socialista. Incidente que que forçou Chostakovich a uma longa fase de medo físico da prisão ou mesmo da execução, e depois a uma retratação pública que não deixou de o manter ao longo de décadas sob suspeita, cerco e vigilância. (mais…)

                Artes, Biografias, Leituras, Olhares

                Banana

                Velvet Underground

                Alguém insinuou que estava a mentir quando, a meio de conversa sobre o modo como na década de 1960 os jovens portugueses de classe média se dividiam entre adeptos dos Beatles e fãs dos Rolling Stones, disse que era antes seguidor dos Velvet Underground. Que não podia ser, e tal, porque a música deles ainda não chegara cá. Que sim, disse eu, porque ia todos os dias à missa. Isto é, ouvia religiosamente o programa Em Órbita, no Rádio Clube Português, e este, pioneiro contumaz da música moderna, passava regularmente a banda nova-iorquina fundada em 1964 sob os auspícios de Andy Warhol. E assim era. Este sábado, 16 de Abril, até se perfazem 50 anos sobre o início da gravação do seminal The Velvet Underground & Nico. Quase toda a gente sabe qual é: aquele álbum “da banana”, reunindo Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison, Maureen Tucker e, claro, a inefável Nico. 50 anos, com mil diabos.

                  Apontamentos, Artes, Memória, Música

                  Brixton Boy

                  David Bowie por Annie Leibovitz
                  David Bowie por Annie Leibovitz

                  Como aconteceu com tantos milhões de pessoas de diversas gerações, credos, gostos e modos de estar, a morte de David Bowie não me deixou indiferente. Aliás, mesmo que eu o quisesse, isso seria impossível, dada a catadupa de notícias, memórias, entrevistas, vídeos, documentários, fotografias, músicas, dossiês temáticos e muito, muito mais, projetando por todo o lado a vida, a morte e a presumível imortalidade do «Brixton Boy».

                  Admito que não o fui, não sou, um absoluto incondicional de Bowie. Terei gostado muito de boa parte do que fez como músico, ator, performer, «artista visual» (como lhe chamou Annie Leibovitz), e outras coisas mais, mas terei ficado razoavelmente indiferente a algumas outras. Em cada álbum, por exemplo, escolhi sempre três ou quatro temas, deixando os restantes mais ou menos de parte. E não, não viajei até ao sétimo céu com as palavras do Major Tom em Space Oddity. Em 1969, aliás, as viagens espaciais que me ocupavam eram outras. (mais…)

                    Artes, Atualidade, Memória, Música, Olhares

                    A Ponte dos Espiões

                    Antes de ir ver o recente A Ponte dos Espiões (Bridge of Spies), realizada por Steven Spielberg com um roteiro, notabilíssimo como seria de supor, redigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen, procurei ler algumas críticas publicadas na imprensa. A generalidade era exigente e classificava o filme, vamos usar a antiga tabela escolar, entre o sofrível e o bom menos. O argumento conta a história verdadeira de dois homens, um piloto norte-americano e um espião soviético, que em 1960, no auge da Guerra Fria, foram presos pelos serviços secretos de Washington e de Moscovo. Após complicadas negociações envolvendo o advogado James B. Donovan (Tom Hanks) e um terceiro prisioneiro norte-americano, ambos foram trocados numa operação que funcionou, de parte a parte, como breve ensaio para algum apaziguamento do conflito então em curso. Sabe-se hoje que os falcões norte-americanos e soviéticos pretendiam que o episódio corresse mal, o que, felizmente para os dois homens e talvez para o mundo, não aconteceu.

                    A narrativa está muito bem urdida (sim, os Coen de novo), a produção é luxuosa e podemos ver excelentes atores, destacando-se, para além de Hanks, Mark Rylance, no papel do espião soviético Rodolf Abel, ou Vilyam Génrikhovich Fisher. Mas a película nada tem de particularmente inovador, nada acrescentando por isso à longa filmografia de Spielberg. Sob esta perspetiva, aceitam-se inteiramente as reservas colocadas pela maioria dos críticos. O que não tenho visto escrito, e me faz ter uma posição diferente e bem mais positiva, é uma outra leitura do filme. Para além do ritmo envolvente, ele comporta uma excelente lição de história, sempre acompanhada de reconstituições de grande rigor e realismo. A Guerra Fria e a paranoia que de parte a parte a alimentou, a construção do Muro de Berlim, a crise provocada pelos aviões de espionagem U2, os conflitos internos, ainda mal conhecidos, entre as novas autoridades da RDA e tutela soviética, são magnificamente expostos e constituem um excelente suporte para uma lição de história contemporânea. Particularmente útil quando sabemos que tudo isto desapareceu dos jornais e muito pouco é ensinado.

                      Artes, Cinema, História

                      Os «Homens dos Monumentos»

                      Monuments Men – Caçadores de Tesouros, realizado e interpretado por George Clooney, não é um grande filme. O ritmo é algo trôpego, a caracterização dos personagens quase sempre insípida – salva-se Cate Blanchett como Claire Simone, na verdade Rose Valland, a «Capitaine Beaux-Arts» – e nota-se uma hesitação excessiva entre a comédia que o não é e o drama que o não chega a ser. Melhora bastante na última meia hora, mas como filme convida um tanto ao bocejo de quem tenha dormido mal. Existe, porém, algo que o torna importante e o fará permanecer na memória de quem o viu. (mais…)

                        Artes, Cinema, História, Memória

                        Hannah

                        Fui ver Hannah Arendt, de Margarethe von Trotta. As expectativas eram moderadas: grande parte da crítica levantava sérias objeções ao filme, mas algumas das pessoas com quem tinha falado e que já o tinham visto haviam gostado razoavelmente, se não «muito». Além disso, Arendt é Arendt, a filósofa de vida arriscada e de personalidade forte que escapou à bota antissemita e no exílio americano não deixou de assumir posições incómodas contra o governo ou as verdades convenientes. Fui portanto de espírito aberto e pronto para tudo. No entanto, esse tudo revelou-se bastante dececionante. O argumento foca-se numa espécie de pedagogia da «banalidade do mal para principiantes», com alguns passos nos quais flutuam conceitos algo ingénuos e com situações completamente caricaturais. O próprio referencial histórico – apoiado nas imagens televisivas a preto e branco do julgamento de Eichmann em Jerusalém, que por acaso me recordo de ter visto em criança na televisão – é muito simplificado, não enfatizando com o devido destaque a descrição desse «estado normal de obediência» da larga maioria dos alemães ao domínio nazi que, ele sim, poderia fundamentar com maior clareza a consideração do mal como parte da vida de todos os dias, da normalidade, «banalizando» até as suas expressões mais extremas. Salvou-se a representação excecional de Barbara Sukowa, uma Hannah forte e assertiva, mas ao mesmo tempo sensível e afetiva, como o era a verdadeira. E ficou-me no ar o aroma de um passado que já não participa do mundo que agora conheço: das aulas onde era possível fumar cigarro atrás de cigarro, do ruído único e familiar da máquina de escrever, das conversas argumentadas noite fora com inteligência e paixão.

                          Apontamentos, Artes, Cinema, História

                          Santos e a modernidade

                          Joyce em 1915, pouco depois de começar «Ulisses»

                          Numa entrevista assombrosa que concedeu ao diário i – assombrosa pelo vendaval de futilidade, desconhecimento e espírito mercantil que exibe, mas também pelo caráter desestruturado e algo rústico do próprio discurso – o jornalista, professor e so-called escritor José Rodrigues dos Santos saiu-se com esta: «Ah, uma pintura de Picasso é bonita? Não, não é bonita. Nem Picasso queria que fosse. Ele está a cultivar o feio. Stravinsky faz música que são guinchos. O truque está justamente aí. Isto contagia a literatura. Ler o Ulisses do Joyce é um exercício de masoquismo. Ele leva duas páginas a descrever um armário.» Não estão em causa os interesses de Santos ou os gostos das muitas pessoas que apreciam os seus romances, muitas vezes a única escrita que reconhecem como literatura. Mas já é inaceitável, para alguém que tem um perfil público e, além disso, é docente universitário, a apresentação de uma crítica da estética do modernismo tão primária e, ademais, superada há já perto de um século. Desvalorizando, como se nada se tivesse entretanto passado na história da cultura, a dimensão positiva da subjetividade nos processos de produção e de consumo da obra artística ou literária. Mostrando-se indiferente, com a ligeireza do ignaro, aos criadores e aos públicos que a recolheram, viveram ou vivem como uma dádiva. Uma observação projetada, afinal, na dimensão do que era ainda o senso comum e do que definia a estética dominante no tempo dos nossos bisavós. Já quanto à obra de Joyce que menciona, talvez pela complexidade monumental da teia de palavras, referências e jogos que ela oferece, por certo areia em demasia para a camioneta que conduz, mais valeria a Santos manter-se em silêncio.

                            Artes, Atualidade, Devaneios, Olhares

                            Foi bom enquanto durou

                            Alma e Gustav Mahler

                            As minhas primeiras biografias eram hagiografias. Retratavam invariavelmente os biografados como santos, seres incomuns, grandiosos e perfeitos, dotados de uma vontade indómita que ninguém sabia de onde vinha. Eram quase sempre histórias de vida muito simples, condensadas para leitores principiantes e escritas de forma cândida, em boa parte influenciadas pela conceção romântica de heroísmo, que destacava os biografados como modelos de bronze diante dos quais o leitor não podia ter outra atitude que não fosse a da admiração mais incondicional. Recordo sobretudo histórias de vida de compositores, como Mozart, Beethoven, Schubert, Chopin ou Mahler, desenhadas sobre o modelo de Sísifo, o humano rebelde castigado por Zeus ao qual foi imposto o dever de cumprir até à eternidade a tarefa sempre inacabada de carregar um bloco de mármore até ao topo de uma montanha. Também eles se mostravam exímios, na vida pessoal como na sua arte, a cumprir o duro destino que no entanto, contrariamente ao que acontecera com o filho de Éolo, lhes traria a imortalidade. (mais…)

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                              Isto agora, José…

                              José Afonso

                              Republico este post no dia em que, se por cá estivesse a aturar a corja e a dar-nos força para a pôr a andar, José Afonso perfaria 84.

                              Não, não vou invocar uma relação de proximidade com José Afonso. Falei com ele uma única vez, por curtos instantes, e ouvi-o cantar uma dúzia, se tanto, sempre com a cábula por perto. Ouvi-o desafinar. Vi-o até tocar violão, coisa que, como lembra Rui Pato e posso confirmar, fazia pessimamente. Mas mais nada. Por isso não o chamo de Zeca, tratamento carinhoso e plebeu que sempre olhei como um exclusivo dos seus íntimos. Gostei medianamente de alguma da sua música (das primeiras baladas, de forte carga simbólica mas ainda demasiado próximas, para o meu esquisito gosto, do fado de Coimbra), muito de outra (com aquelas linhas poéticas inesquecíveis), muitíssimo de dois ou três discos, tão bons, tão bons, nos textos e nas composições. Vejo Cantigas do Maio, arranjado por José Mário Branco, como um dos três maiores álbuns de sempre da música popular portuguesa (a par do Com que Voz, da Amália, e do Mudam-se os Tempos…, do mesmo José Mário). Mas aquilo que sempre olhei como um seu lado singular, estimável e verdadeiramente exemplar foi o bravo quixotismo, a perene inquietude, o pendor para a anarquia, a atitude crítica, o modo poético de falar, de pensar, até de parecer, a capacidade para fazer amigos (lembram aqueles que o foram), a coragem que o fez circular pela vida sempre sobre parapeitos, o antidogmatismo pelo qual foi criticado por parte dos que agora, numa vaga de unanimismo acrítico, o incensam como um dos seus (nem sempre foi, sabiam?). Será esse lado independente e solidário, simples e desassossegado, convicto mas aberto à fantasia, que, tanto quanto a sua música, dele podemos recolher ainda como exemplo. Faz-nos falta. Faz, faz, porque isto agora, José…

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                                Mario De Biasi

                                Mario De Biasi

                                À medida que o volume de informação vai crescendo e se desdobra, que a sua velocidade de circulação dispara, e a multidão de sound bites e de dados irrelevantes tende a sobrepor-se ao que consegue sobreviver àqueles «quinze minutos de fama» dos quais falava Andy Warhol, tendemos a perder o rastro ao que permaneceu durante décadas como âncora da nossa memória ou como fundação da nossa maneira de olhar o mundo. Se, como sugeriu Marc Augé num pequeno e luminoso texto de 1998, é verdade que sem esquecimento não existe memória, pois de outra forma iríamos perder-nos no sorvedouro imenso de um passado esmagador, também é verdadeiro que a ampliação dos meios de informação e de comunicação tende agora, cada vez mais, embora paradoxalmente, a conservar o que é fugaz e a apagar o que permanecerá na lembrança de mais do que uma geração. Só isto explica que nesta altura deixemos morrer no esquecimento, quase sem uma palavra, homens e mulheres que durante tanto tempo nos acompanharam no reconhecimento do mundo, ou que nele conduziram os que mais de perto nos precederam. (mais…)

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                                  Avantesmas em pedra

                                  Para além dos edifícios oficiais imensos, feios e inóspitos, uma das marcas mais impressionantes da arte pública associada à estética do realismo socialista é a representada pela estatuária monumental. Durante décadas, dispersa por praças, ruas, jardins e até no interior de edifícios, a vitória do «socialismo realmente existente», a glória das suas figuras de proa e a apoteose dos seus valores e símbolos essenciais foi celebrada em estátuas gigantescas, de péssimo gosto, que se impunham de uma forma medonha em cenários frequentemente vazios, pobres e deprimentes. Existe até, na cidade lituana de Druskininkai, a 130 quilómetros de Vilnius, um espaço museológico parcialmente ao ar livre, o Grūto Parkas – conhecido localmente como «O mundo de Estaline» –, no qual se expõem, sob a forma de pesadelo vivo, centenas de exemplares deste universo absurdo de bronze e granito. Na Coreia do Norte subsiste a extravagância, tendo ainda recentemente sido inaugurada em Pyongyang, ao lado da conhecida estátua colossal de Kim-Il-Sung, o «líder eterno», outra equivalente, representando o seu filho e «querido líder» Kim-Jong-Il. Pois agora, o costume regressa à Polónia, ainda que subordinado a uma orientação ideológica algo diversa: neste domingo começou a ser erguida na cidade silesiana de Czestochowa, o maior centro católico do país, uma estátua gigantesca do papa João Paulo II. Desta forma tornará à região a tradição pavorosa das avantesmas em pedra.

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