Arquivo de Categorias: Atualidade

Contra o império da banalidade

Num livro publicado em 1974, Banalidades de Base, à época um razoável êxito editorial, Raoul Vaneigem, a par de Guy Debord um dos principais teóricos da Internacional Situacionista – movimento que entre as décadas de 1950 e 1970 influenciou bastante certos meios da vanguarda artística e intelectual ocidental –, considerou que as sociedades sufocam «sob o manto de banalidades, reproduzidas de geração em geração e adaptadas ao gosto de cada época, que fazem soar através dos séculos a sentença de morte e a vaidade aplicadas aos destinos humanos». Os situacionistas procuravam conferir ao conceito de mudança revolucionária uma dimensão intensamente vivencial, não apenas associada à transformação política, e a frase de Vaneigem procurava dar conta da importância, numa lógica de emancipação, do que havia a fazer para escapar à escravizante ditadura que a banalidade exerce sobre a vida de todos os dias.

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    «Esta suposta democracia»

    Quase todos podemos hoje escrever para um público e, se não vivermos sob uma ditadura, emitir opiniões sobre seja que assunto for. A esfera pública ampliou-se numa pluralidade de espaços nunca antes vista, e, como lembrou Habermas, multiplicaram-se os processos dialógicos de comunicação, articulando opiniões, ideias, disposições morais e juízos normativos que passaram a orientar a vida social a uma escala sem precedentes. Isto é essencialmente positivo, uma vez que amplia o direito de cada indivíduo ou grupo a ter a sua voz escutada. Todavia, transporta também consigo perigos vários, pois se o debate público se transforma numa Babel de vozes e escolhas onde todos os argumentos se equivalem sem a mediação fornecida por critérios de verdade e de reconhecimento, sem qualquer responsabilização cívica ou ética e sob a forma de ruído, a democracia que a ampliação da pluralidade prometia converte-se naquela guerra de todos contra todos que pelos meados do século XVII Thomas Hobbes já temia. 

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      A América e os dias que aí vêm

      Olhamos as circunstâncias que antecederam e acompanharam estas eleições presidenciais na América e tendemos, de forma natural, a esperar um futuro próximo muito incerto, com todas as probabilidades de decorrer num cenário de conflituosidade intensa e prolongada. A hipótese de um conflito civil, que alguns catastrofistas sugerem como possibilidade, não é crível por muitas razões. Anoto apenas duas, das mais importantes: de um lado, a memória de longa duração que os norte-americanos partilham ainda da guerra que entre 1861 e 1865 dividiu a nação, originando cerca de 800 mil mortos entre militares e civis; do outro, o facto de não existirem hoje antagonismos, ou móbeis de conflito, suficientemente fortes e imperativos para impor um desenlace tão extremo. Aliás, ocorrem até fatores de proximidade que tenderão sempre a moderar um hipotético conflito generalizado, nomeadamente no que diz respeito à defesa interna do sistema político, da economia liberal e dos valores do individualismo, bem como a um certo sentido da continuada responsabilidade perante a cena política mundial, que coexistem, ainda que em grau variado, entre pessoas e grupos que têm estado em campos opostos. Permanecem, porém, escolhas e atitudes incompatíveis e exaltadas que irão impor a instabilidade e a violência.

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        Preocupar-se com as eleições nos EUA

        Ao lado do grande volume de posts e ligações relacionados com as eleições de hoje nos Estados Unidos da América, encontro comentários nas redes sociais, alguns deles de homens e mulheres de quem gosto bastante, que questionam o excesso de referências sobre este importante momento que estão a circular. Não me refiro a duas ou três atitudes desta natureza: só no meu feed do Facebook, sempre a rolar dado grande volume de contactos, apareceram à vontade uma vintena. Entendo bem o eventual incómodo pela repetição do tema, pois nem sempre estamos disponíveis para os mesmos assuntos e certas vezes o excesso acaba por enfartar um tanto, mas neste caso trata-se, a meu ver, de um erro de pontaria. As eleições nos EUA, a política dos EUA, a vida quotidiana nos EUA, têm uma influência direta na do planeta e até no ar (político e cultural) que se respira, principalmente nesta parte do mundo em que habitamos.

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          Eleições nos EUA – Lembram-se do sapo?

          Insuportável, mas também bastante perigoso, o constante ramerrão que se escuta por aí, proveniente dos setores minoritários, embora muito militantes, para os quais as duas partes envolvidas em contenda nas eleições presidenciais americanas deste 3 de novembro «são a mesma coisa». Com a pequena nuance que um ou outro dos seus representantes até concede: «são praticamente a mesma coisa». Para eles, tanto faz.

          Trata-se, na verdade, dos nostálgicos da Guerra Fria, quando o mundo bipolar era simples, a preto e branco, capitalismo versus socialismo sem grandes nuances, e o imperialismo, «estádio supremo do capitalismo», ainda tinha a forma e usava os mesmos processos descritos por Lenine na conhecida obra publicada em abril de 1917. Tudo se desculpa até, em consequência, aos atuais governantes da Rússia ou da China, Estados onde o seu poder centralista e autoritário – no segundo caso, sem sequer manter o simulacro de democracia que o primeiro ainda ostenta – se ergue «positivamente», na lógica do presente equilíbrio internacional que concebem, contra o lugar ocupado pelos Estados Unidos. Estes, seja quem for que os governe, são e serão «sempre os mesmos», salvo, para essas pessoas, no dia em que por um passe de mágica um locatário da Casa Branca caído do céu decida dissolver o país ou, em alternativa, acabar com o papel que nele desempenham a propriedade privada e a economia liberal.

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            Eleições nos EUA e cachimbo da paz

            Estamos quase a 3 de novembro, o dia das eleições presidenciais nos Estados Unidos da América. Todas as sondagens e tendências do voto por correspondência apontam, ainda que com números desiguais, para uma vitória da dupla Biden/Harris, enquanto as desgrenhadas manobras de última hora levadas a cabo por Trump parece estarem até a ter um efeito negativo junto da estreita mas determinante percentagem de eleitores indecisos. Cada vez se percebe melhor que o presidente-«bully» contará quase apenas com os seus indefectíveis, recrutados sobretudo entre as pessoas com menos instrução, ou então fanatizadas pelos grupos cristãos fundamentalistas, racistas ou de extrema-direita. É claro que, no campo democrata, nada estará absolutamente garantido antes da madrugada do dia 4, ou, se os resultados estiverem ainda muito equilibrados, talvez só o venha a estar alguns dias depois, mas pode dizer-se, já com alguma certeza, que salvo uma grande surpresa os democratas obterão mais delegados no colégio eleitoral que os republicanos. E quanto ao voto popular, esta é já seguro, se bem que Al Gore e Hilary Clinton, em 2000 e 2016, tenham ganho deste lado e perdido no outro, aquele que é realmente decisivo para instalar o inquilino da Casa Branca.

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              O intelectual público, agora

              Em 1993, numa conferência proferida em Reith, na Áustria, Edward Said definiu a condição do intelectual público como a de alguém que se esforça por produzir e divulgar um ponto de vista, partilhando-o e estimulando expectativas junto de um público ao qual se dirige, defrontando os entraves que sempre lhe são colocados. O intelectual público, homem ou mulher, é assim alguém que pensa por si próprio, sempre com o objetivo prioritário de dinamizar a reflexão coletiva e de questionar a ordem do mundo, embora não necessariamente de a fazer ruir. Por isso lhe são postos os entraves de que fala Said: se é um pensador, um comunicador e muitas vezes um dissidente, exercendo a sua atividade, de uma forma necessariamente pública e aberta, incomoda sempre aqueles que impõem a sua autoridade apoiados na ignorância e na manipulação do cidadão comum.

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                Duas canções sobre a América

                O mote desta crónica prende-se com as eleições norte-americanas de 3 de novembro e combina o título de uma conhecida canção, God bless America, escrita por Irving Berlin durante a Primeira Guerra Mundial, e transformada no curso da Segunda em hino patriótico, com o de uma outra, This is not America, da autoria de David Bowie, gravada em 1985 com o grupo do guitarrista Pat Metheny. No último parágrafo esclarecerei o sentido deste jogo.

                Depois de ao longo do século XIX os Estados Unidos da América terem sido encarados como lugar de fuga e de exílio para milhões de perseguidos e espoliados, como espaço de oportunidades ou enquanto pátria da liberdade, a partir do século passado boa parte do pensamento progressista passou a vê-los como sede ou fautor dos maiores males da humanidade. O impacto da Revolução Russa de 1917, e depois o da Guerra Fria, bem como as lutas de libertação nacional, iriam forçar em muito essa aversão. Sucessivos governos e alguns setores da sociedade norte-americana tudo fizeram, aliás, para merecê-la. As grandes disparidades sociais, o apoio a tiranias sanguinárias, o desvario imperial e belicista, a cultura do quotidiano tantas vezes pautada pelo poder do dinheiro e da ignorância, pelo fanatismo e pelo racismo, foram, aliás, fatores que ajudaram a ampliá-la. Mesmo sabendo-se que ali continuava a existir esse grande espaço aberto onde se mantinha a liberdade de viver, de trabalhar, de pensar e de opinar, bem como a de lutar por uma sociedade mais justa.

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                  EUA: os votos da esquerda democrata

                  Quase não tenho encontrado, nas análises das presidenciais norte-americanas, a abordagem de um aspeto importante. Em regra, todos os artigos insistem na importância decisiva de um eleitorado hesitante e facilmente influenciável. Aquele que, parecendo neste momento tender com clareza para Joe Biden, poderá a todo o momento, perante um golpe de propaganda ou uma chantagem de Trump – e isto para ele são feijões – mudar rapidamente de campo. Do que poucos falam é de uma boa parte do eleitorado norte-americano de esquerda, que nas eleições anteriores se recusou a votar em Hillary por antes ter preferido Bernie Sanders e poderá voltar a fazê-lo, entregando milhões de votos perdidos ao adversário. Mesmo tendo Sanders apelado claramente ao voto em Biden.

                  É verdade que o ódio a Trump e o reconhecimento do perigo crescente e do retrocesso que este representa têm vindo a aumentar entre os eleitores democratas (e até, diga-se, numa franja dos republicanos), mas não é de desvalorizar aquela possibilidade. Uma pecha das esquerdas em muitos momentos da sua história; quando, não podendo vencer, tantas vezes saiu de jogo recusando-se a tomar uma posição ativa e entregando a vitória ao mais forte, ainda que este tenha podido ser o pior. Como aconteceu na Alemanha da República de Weimar quando da ascensão dos nazis, o exemplo mais conhecido. A teoria do «inimigo principal» está sempre presente no debate teórico da esquerda, mas levá-la até às escolhas objetivas requer mais decisão e menos teimosia. A ver se os eleitores da esquerda norte-americana desta vez têm mais juízo.

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                    Contra o rancor e a cultura do ódio

                    O percurso humano foi sempre profundamente marcado pela violência e pela guerra. Os primeiros relatos históricos – muito curtos, expostos a partir de 3000 a.C. nas tabuinhas sumérias em argila e depois nos grandes monumentos em pedra da Antiguidade Oriental – foram, aliás, os de batalhas que exaltavam os vencedores e amaldiçoavam aqueles que os tinham afrontado, celebrando o seu massacre. A reconstituição das sociedades pré-históricas aponta no mesmo sentido: uma representação do mundo em cujo centro estava a luta pela sobrevivência e pelo poder com o exercício do confronto com o outro como principal experiência. E apesar de as primeiras civilizações terem procurado observar ocasiões de paz, estas foram sempre breves pausas entre largos períodos mergulhados em tensões e conflitos armados. A cronologia da história universal mostra como, até ao presente, pouquíssimos foram os anos sem guerras ou tumultos determinados pelo desejo de aniquilação do odiado adversário.

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                      O «povo», as «gentes» e o populismo

                      Os responsáveis pelo regime derrubado em Abril de 1974 costumavam invocar, na retórica usada para se legitimarem e para efeitos de propaganda, o caráter supostamente pacífico, cordato e obediente do «bom povo português». Num dos seus mais relevantes discursos, aquele proferido em Braga a 28 de maio de 1936, quando da celebração do 10º aniversário da vitória da «Revolução Nacional» sobre a Primeira República, Salazar adicionou aos valores que julgava sagrados e indiscutíveis – Deus, Pátria, Autoridade, Família, Moral, Trabalho – um dever de bonomia e de consentimento que excluía todo o conflito social e o menor indício da luta de classes. A ideia de «povo» que o Estado Novo concebeu e difundiu requeria, de facto, o duplo pressuposto da inexistência de razões para qualquer conflito social e de uma vida coletiva que fluiria na alegre aceitação da ordem política e social em vigor. O recorrente uso do termo «gentes» – «gentes beirãs», «as nossas gentes» – ainda acentuava essa noção de um todo idealizado como uniforme, pacificado e feliz, sobre o qual se exercia a autoridade vigilante e paternal do ditador.

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                        A síndroma da Monarquia Lusitana agora

                        Quando fez o comentário crítico de um dos primeiros trabalhos escritos que realizei na universidade, um professor de larga experiência atirou-me com um reparo que me deixou perplexo por não lhe ter entendido logo o alcance: «o trabalho não está mau de todo, percebe-se que compreendeu o problema, mas o senhor sofre da síndroma da Monarquia Lusitana». No meu orgulho juvenil, calei-me e não perguntei o sentido da afirmação, mas como tantas vezes fazia, e apesar da na época não existirem, como agora, ferramentas de pesquisa facilmente acessíveis, tratei de decifrar a frase por mim. Não foi difícil, bastando-me ir à secção de reservados da biblioteca da universidade e passar uma bela tarde a folhear alfarrábios com perto de quatro séculos.

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                          A arte da moderação num tempo de extremos

                          Na atividade política, como na vida de todos os dias, não é arte fácil a da moderação. Nos últimos cem anos, raros foram os lugares e muito breves os momentos em que ela pareceu dominar a realidade, quase sempre substituída, no confronto entre posições, pela exacerbação dos conflitos, das paixões e das convicções mais absolutas e imutáveis. Mesmo em períodos nos quais, nem que apenas fosse pela exaustão das consciências, se presumiria natural a instalação de alguma acalmia, como os que decorreram no imediato pós-Segunda Guerra Mundial ou a seguir à Queda do Muro de Berlim e ao fim da divisão bipolar do planeta. Aí, foi justamente o oposto que afinal ocorreu, com a projeção de novos antagonismos e certezas. E, no entanto, a sua afirmação manteve-se sempre um pressuposto essencial para assegurar a boa qualidade da vida pessoal e coletiva.

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                            Comparar o que não pode ser comparado

                            Não é fácil distinguir de forma abrangente os conceitos de «esquerda» e de «direita». Descartando a ideia incoerente e perigosa segundo a qual se encontram hoje «ultrapassados» por uma prática política pragmática e gestionária na qual não existem verdadeiros antagonismos, é, todavia, possível diferenciá-los no que pode aceitar-se, sem grande controvérsia, como crucial. Para o historiador das ideias e politólogo Norberto Bobbio, a separação situa-se na diferença de atitude afirmada por cada uma das perspetivas face à ideia de igualdade. Neste sentido, enquanto para a direita contam sobretudo a liberdade de iniciativa e a concorrência entre os indivíduos, aceitando-se o caráter natural da desigualdade, para a esquerda é decisivo o papel do Estado como instrumento de proteção do conjunto da sociedade e como fator de igualitarização.

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                              Não depois, mas agora

                              O assunto é sempre relevante, embora em alguns momentos, como agora, se destaque na ordem do dia. É um enorme equívoco considerar, com o argumento de que apenas lhe amplia a projeção, que é «perigoso» combater ideias, práticas e organizações de natureza fascista – no sentido amplo e trans-histórico conferido à palavra –, e também as de teor racista e xenófobo, com palavras bem claras e sonoras, com legislação atenta e firme, e com iniciativas enérgicas do lado da cidadania. Pior ainda é afirmar que deve aceitar-se a sua existência e circulação, invocando que o sistema democrático a todos deve integrar, ouvir e respeitar. Como se fosse dever deste aceitar e proteger os seus inimigos, aqueles que o querem desvirtuar ou destruir, e que pretendem, em primeiro lugar, combater os valores e direitos mais fundamentais sobre os quais assenta a sua existência. Uma existência, não pode esquecer-se, que tantos esforços requereu e que exigiu combates com milhões de vítimas.

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                                Da relevância de falar ao direito a ser escutado

                                Ao contrário do que entende o senso comum, o sentido de responsabilidade não impõe a moderação, a contenção e o silêncio. Seria assim se o isolássemos como uma escolha pessoal fatalmente associada ao calculismo ou ao medo. «Responsável» seria então aquele que não se intromete, que se cala, mesmo perante as maiores iniquidades, ou então que apenas fala pelo seguro, medindo sempre todos os prós e todos os contras, por isso tantas vezes acabando por jamais se pronunciar. Todos conhecemos pessoas assim, pois elas estão em todo o lado. Desta «responsabilidade», ao mesmo tempo egoísta e complacente, vivem afinal as ditaduras e todos os sistemas iníquos, mesmo quando formalmente democráticos, apoiados na certeza de que a sua observância será suficiente para que a injustiça, o mau governo e a agressão ao bem comum fiquem inquestionáveis e impunes.

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                                  Identidade e a «liberdade dos outros»

                                  Li há dias um artigo da jornalista Teresa de Sousa onde se condenavam as movimentações de protesto, a decorrer sobretudo nas Américas e na Europa, que têm envolvido marcas monumentais evocadoras do racismo, do esclavagismo e do colonialismo. Já escrevi sobre o tema, que contém aspetos complexos e contraditórios, e não irei agora repetir argumentos. Considerava-se, entretanto, no eixo do artigo, em relação a quem nesses protestos participa, que «o seu credo é que os indivíduos não existem para além da sua identidade, como não existiam, para o marxismo, para além da sua classe»; uma afirmação ligeira que parte de um juízo injusto e por isso justifica um comentário. Seguindo esse raciocínio, no mundo em que vivemos existiria então uma espécie de gente, chamemos-lhe simplificadamente os «identitários», que em nome das suas convicções replica formas de pensamento que tendem a desvalorizar a liberdade individual, recuperando escolhas real ou supostamente assumidas pelos «marxistas».

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                                    Ruína das estátuas e combates pelo passado

                                    Numa tarde do final de abril de 1945, quando uma equipa de soldados norte-americanos fez explodir perante uma câmara de filmar a suástica de ferro e granito que em Nuremberga encimava o Estádio onde tinham sido encenados os gigantescos comícios dos congressos do Partido Nacional-Socialista, asseverou-se perante o mundo a derrocada do devaneio imperial de Hitler. Onze anos depois, durante o levantamento popular antissoviético de Bucareste que teve o apoio dos comunistas reformistas húngaros, uma das primeiras iniciativas da multidão em fúria foi a demolição da estátua colossal de Estaline erguida à entrada do Parque Városliget. Estes dois episódios de iconoclasia – replicáveis à escala dos largos milhares – podem ser invocados contra o receio de que da destruição de peças monumentais tomadas como símbolos de uma ordem política detestada resulte forçosamente um apagamento da História. Pelo contrário, assinalaram escolhas julgadas necessárias, adquirindo um peso histórico próprio.

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