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Ay, Catalunya

Não sei dizer em que momento, no imaginário de uma parte importante da esquerda ocidental, a ideia de uma Catalunha independente ganhou um lugar próprio e claramente positivo. Talvez a procura dessas raízes possa um dia tornar-se assunto para uma tese académica. Mas é evidente que o papel ocupado pela região catalã na história do movimento operário do século XIX, e depois na memória heroica da Guerra Civil espanhola, representou a dada altura um fator importante para essa entrada, a par de Cuba, do Vietname, da Palestina, da Irlanda do Norte, do País Basco ou das antigas colónias portuguesas, no panteão onde se encontram os casos de um «nacionalismo justo». Totalmente diverso daquele outro, usualmente defendido pela direita política e assente na ideia de Pátria, que não fala em nome dos povos, mas sim das elites dirigentes. (mais…)

    Atualidade, Democracia, História, Memória, Opinião

    Medo e liberdade

    Amigos sinceros, combatentes, por vezes com provas dadas de militância em causas e momentos decisivos, algumas vezes em horas bem difíceis, quando foi preciso correr riscos e suportar as consequências da escolha, apesar de não aceitaram as proclamações daquele lado da esquerda que não se exime de defender «ditaduras justas», calam-se ou recuam demasiadas vezes na afirmação das suas posições. Por medo de consequências pessoais se o não fizerem. Por medo, repito. Não de serem presos ou silenciados, obviamente, pois vivemos em democracia, mas de serem incomodados, isolados ou, pior, confundidos com a direita, pois uma das estratégias dessa gente, com décadas de triste tradição, consiste precisamente em classificar tudo o que divirja dos seus dogmas de ser «objetivamente de direita». O que lhes peço é que persistam, que não temam, que não se verguem ao medo e ao silêncio. Que falem de forma tranquila mas assertiva, substantiva, sólida – mas também emotiva, quando for preciso – em nome da sua consciência, de uma justiça justa e do bem essencial da liberdade. Ser de esquerda também é, ou essencialmente é, isto.

    Publicado originalmente no Facebook

      Apontamentos, Atualidade, História, Olhares, Opinião

      Não queiras para os outros…

      Como aceitar cegamente uma teleologia que se apresente como capaz de explicar e determinar o sentido da História, ou mesmo a mera possibilidade de desenhar um programa político de aplicação universal? Quase todos conhecemos o suficiente do percurso da humanidade para saber que aqueles que o tentaram fracassaram rapidamente ou a prazo. Mesmo os que morreram pensando que o haviam conseguido. Tiranos e democratas, honestos e patifes, sábios e ingénuos, todos os que defenderam e procuraram aplicar projetos dessa natureza – invariavelmente apoiados em regimes musculados, em formas de pensamento único e na repressão da divergência – falharam rotundamente. Não sem antes disseminarem, em nome dos princípios salvíficos que proclamaram, sinais de infelicidade, desigualdade e opressão. (mais…)

        Atualidade, Democracia, Direitos Humanos, Opinião

        O ovo da serpente

        Infelizmente, o caso do Ventura de Loures, exprimindo o aproveitamento de sentimentos racistas como arma de luta política, não parece ser um mero e circunstancial episódio da vida portuguesa. Bastou a sua divulgação e repercussão pública nos meios de comunicação para que emergissem por todo o lado – em artigos de jornal, comentários das redes sociais, ou mesmo em declarações de algumas forças partidárias – posições tendentes não apenas a dar ao figurão uma importância que este jamais teve, como a mostrar que, afinal, sentimentos sociais tão primários e destrutivos podem ter o apoio de muitos eleitores. (mais…)

          Atualidade, Democracia, Opinião

          Quanto vale o localismo

          Ao contrário do que declara o ditado, não existem males que vêm por bem. Uma coisa má não pode ser trocada por outra boa, pois são experiências diferentes que cada um guarda consigo em lugares também diversos da memória e da experiência. Mas, sim, é banal mas verdadeiro: é muitas vezes no meio do pior que emerge o que conseguimos mostrar de melhor, de mais generoso e de mais intensamente humano. (mais…)

            Acontecimentos, Apontamentos, Atualidade, Olhares

            A pluralidade contra a norma

            Fotograma de «1984», de Michael Radford

            Apesar de subsistirem fatores de desigualdade no acesso à informação, à livre expressão da opinião e à independência perante as várias formas de poder – do económico ao político, do central ao local –, vivemos felizmente numa sociedade na qual ninguém pode ser formalmente coagido a pensar ou a agir como os outros. Apesar da fruição da liberdade não ser rigorosamente idêntica para todas as pessoas, em ambientes democráticos como o nosso cada uma conserva uma margem para pensar, para falar, para escrever de forma autónoma, sem que para tal tenha de limitar-se a reproduzir ou a aceitar acriticamente as ideias, as opiniões e as escolhas que são maioritárias ou se apresentam como consensuais. (mais…)

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              Nós

              Ilustração de Clifford Harper

              Nós é um romance distópico, da autoria do escritor russo Yevgeny Zamyatin (1884-1937), lançado em 1924 quando a revolução bolchevique vivia ainda a fase, que se seguiu de imediato ao termo da guerra civil entre vermelhos, brancos e verdes, em que a criatividade literária, artística e científica era estimulada pelo governo revolucionário. Mas a obra de Zamyatin – exilado em 1905 pelo czarismo, e mais tarde por Estaline, que a pedido de Gorky o deixou partir em 1931 para Paris, onde morreria na maior miséria – preludia já, com grande antecedência, distopias críticas dos sistemas assentes no pensamento único, na repressão de toda a divergência e na extensão do autoridade do Estado absolutamente a todas as esferas da vida, como o foram o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1938), e 1984, de George Orwell (1949). Em Nós ficciona-se, de facto, uma sociedade na qual todos vigiam todos, ao ponto de não restar espaço para a liberdade individual e para qualquer forma de crítica ou divergência. O «eu» desaparece então, esmagado pelo coletivo.

              Não quero fazer comparações excessivas. Vivemos felizmente numa sociedade democrática, onde, apesar da desigualdade no acesso à informação e ao poder, ninguém coage formalmente alguém a pensar ou a agir como os outros. Mas muitos meios de comunicação social têm vindo a disseminar sinais de um suposto unanimismo que evoca aquele universo opressivo. Num só dia escutei centenas de vezes, na comunicação social, referências a um «nós» que identificava os portugueses, todos eles, com os crentes de uma religião, os adeptos de um clube de futebol ou mesmo aqueles que gostam de uma canção ligeira. É claro que tais conjeturas não passam de generalizações abusivas. Mas são sinais da instalação de uma espécie de norma, tendente a desqualificar quem não pensa igual, não reza igual ou não gosta da mesma coisa, que tem vindo a ganhar curso. O comportamento de algumas pessoas, consciente ou inadvertidamente defensoras da norma, visível em particular nas redes sociais, atesta-o. O totalitarismo, hoje, não se funda necessariamente em regimes de um só partido, apoiados na persuasão ideológica, na censura e na polícia, nem em sistemas sociais que reagem caninamente às imposições dos mercados financeiros: a disseminação mediática da norma também o acalenta. Cuidado com isso.

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                Sete notas avulsas

                1 – O alívio das correntes democráticas que se opõem ao autoritarismo, à xenofobia e ao racismo foi grande com a derrota da candidata da extrema-direita. Devem excluir-se destas aqueles setores, supostamente de esquerda, manifestamente indiferentes a uma eventual vitória de Marine Le Pen.

                2 – Cerca de um terço dos votantes confiou em Le Pen. Uma posição clara e atempada da candidatura de J.-L. Mélenchon teria por certo limitado os danos. Não pode esquecer-se que dois terços dos seus ativistas, em referendo interno, defenderam o voto branco ou nulo. E que um número razoável dos seus eleitores apoiou agora a extrema-direita. Dir-se-á, pois, que em votos efetivos, a extrema-direita rondará os 20%, o que corresponde à votação na primeira volta das presidenciais. (mais…)

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                  O sectarismo é um vírus

                  Fotografia de Piotr Belcyr

                  Para Norberto Bobbio, o sectarismo em política traduz-se na condescendência para com aqueles que partilham as mesmas ideias e num ódio declarado a todos os que não pensam da mesma forma. Os sectários entrincheiram-se num sistema de pensamento único, recusando tudo o que dele se afaste ou que lhes pareça fragilizá-lo. Fazem-no mesmo quando, por razões conjunturais, são forçados a dialogar com quem divergem em muitas das posições ou escolhas. Mas só cedem em último caso, quando não lhes resta alternativa. Levam então o seu sectarismo para recantos onde ainda o podem exercer: em círculos sociais restritos, partilhados por outras pessoas do mesmo grupo, ou então procurando, por omissão ou silêncio, sabotar as iniciativas que ponham em causa aquelas certezas das quais de facto jamais abdicaram. (mais…)

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                    Entre o «contra» e o «por»

                    Fot. Pierre Lagarde

                    Em entrevista concedida ao Le Monde a propósito das eleições francesas, Jürgen Habermas considerou que a esquerda «deve deixar de ser um espaço para o ressentimento», sendo essa viragem que poderá torná-la «política e humanamente maioritária.» A palavra «ressentimento» toma aqui o seu sentido mais amplo, incorporando pesar, ofensa ou infortúnio. Tal ideia pode ligar-se a uma outra, proposta por Enzo Traverso a propósito daquilo a que chama «melancolia de esquerda». Esta traduziria uma imersão em projeções utópicas vinculadas ao passado, usando-as como alimento da dose de esperança de que precisa para continuar a viver.

                    Tanto o filósofo alemão como o historiador italiano são homens da esquerda e ambos abordam a dificuldade que esta tantas vezes sente em arquitetar futuros credíveis. Sobretudo futuros imediatos, que mobilizem para a ação e permitam sustentar projetos que não se frustrem logo no primeiro embate com a realidade, como aconteceu recentemente na Grécia com o Syriza. Na paisagem política portuguesa essa dificuldade pode associar-se à atitude geral dos dois partidos parlamentares que, sendo pedra essencial no atual equilíbrio de poder, mas não estando representados no governo, experimentam alguma dificuldade em articular este papel com a sua identidade política, com aquilo que deles espera o seu eleitorado mais fiel e com aquele que é o seu natural desejo de ampliar a influência política. (mais…)

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                      A extrema-direita e a casa europeia

                      Fot. Pierre Lagarde

                      Voltam a assolar a Europa os demónios do nacionalismo, que instigaram as principais ditaduras, as carnificinas das duas guerras mundiais e as grandes deportações do século XX. Pareciam condenados a um gradual desaparecimento com a política de colaboração entre os Estados que no território europeu foi gradualmente construída a partir dos meados dos anos cinquenta, mas começaram há algum tempo a sair do estado de hibernação em que se haviam mantido nos anos da Guerra Fria e passeiam-se de novo pela realidade.

                      Primeiro surgiram, logo após 1989, nos territórios saídos das experiências frustrantes do «socialismo real». Depois emergiram mais a ocidente, alimentando-se da crise económica, do desemprego, do afluxo de imigrantes e refugiados, e depois do terrorismo. Sempre em associação com a expansão de um padrão peculiar de populismo. De facto, a mitificação do ideal de «povo», identificado no caso com o destino histórico da «nação», sempre foi o ovo da serpente do nacionalismo e da direita mais extrema. Aí estão eles, pois, com os seus programas agressivos e o seu cortejo de ameaças e de apelos à exclusão de quem se encontre do lado que consideram errado, o que ainda há uma vintena de anos se supunha já só uma memória. Servem-se da «raça», da cor da pele, da origem, da língua, da religião, como rígida linha de fronteira. (mais…)

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                        Não foi por acaso

                        Fot. Privatedanser

                        Muito se escreveu já sobre a frase do holandês que é presidente do Eurogrupo, pronunciada há dias, quando em entrevista concedida ao Frankfurter Allgemeine Zeitung recorreu a uma inaceitável analogia para se referir ao que julga ser a conduta dos países europeus do Sul: «Não posso gastar o meu dinheiro todo em vinho e mulheres e de seguida pedir a sua ajuda.» Faço um esforço para relevar aqui o caráter xenófobo e sexista destas palavras, centrando-me num outro aspeto, que transforma o episódio em algo bastante mais grave do que o seria uma frase infeliz, mas fortuita. Aliás, Jeroen Dijsselbloem, constrangido pelo escândalo a pedir desculpa, justificou-se com aquilo a que chamou a sua «habitual frontalidade», o que confirma ter dito algo que pensa. (mais…)

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                          Kitsch, democracia e o Dia da Mulher

                          Tbilisi, Georgia. Fot. David Mdzinarishvili/ Reuters

                          Um dos inimigos da democracia é o kitsch. O conceito designa a categoria de objetos ou práticas vulgares, de mau gosto, sem substância para além da sua forma híbrida, que reproduz sem critério referências de uma cultura mais sólida. Para Umberto Eco, é um «meio de afirmação cultural fácil, adotado por um público que se ilude, julgando consumir uma representação original do mundo quando, na verdade, goza apenas de uma imitação secundária da força primária das imagens». Encontra-se associado ao consumo de massas, pois é neste domínio que a propaganda e a manipulação da informação mais facilmente se impõem, reduzindo as possibilidades de escolha do cidadão comum. (mais…)

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                            A demagogia na massa do sangue

                            Maquiavel na cidade

                            Na década de 1980 costumava passar três ou quatro aulas em cada ano a estudar com os alunos o pensamento político de Nicolau Maquiavel. Parte do meu esforço consistia em contradizer o sentido então vulgarmente atribuído ao adjetivo «maquiavélico» – nessa época ele ainda era de uso corrente –, demonstrando que não fazia justiça aos ideais mais sinceros e fundamentados do diplomata florentino. Na verdade, como modelo do regime perfeito, Maquiavel apontava o exemplo «democrático» da República Romana, e não o poder tirânico centrado na figura do Príncipe, sugerido na obra homónima, escrita em 1513 num contexto particular. No entanto, foi a justificação do segundo aquela que prevaleceu como seu principal legado. (mais…)

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                              God bless America

                              Depois de durante o século XIX ter olhado a América como lugar de exílio, espaço de oportunidades ou pátria de uma liberdade plena e não adjetivada, a partir do século passado a tradição europeia, em particular a da esquerda política e cultural, começou a ver nos Estados Unidos a sede de todos os males da humanidade. O impacto da Revolução de 1917 e depois da Guerra Fria determinaram e condicionaram em muito essa violenta animosidade, presente até em alguns dos que ali encontraram refúgio perante as ditaduras ou habitáculo para a existência pessoal. E o ódio foi gerando cada vez mais ódio. Do lado do establishment e do lado dos que se lhe opunham. Dentro e fora da América. (mais…)

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                                A ignorância na era da comunicação

                                Fotografia de Ender Suenni

                                «A ascensão da nova ignorância», a crónica de José Pacheco Pereira saída hoje no Público é – como nem sempre, mas quase sempre acontece – uma crónica que merece a pena ler. É sobre a ignorância que nos cerca, oprime e condiciona. Sobre uma nova forma de saber e de dar a saber que privilegia o simples (quando não o simplicíssimo ou o simplório), o efémero, o imediato, o saber condensado e assumidamente soft. É sobre ela que se instala a mentira e a manipulação: para o ignorante, tudo é novo e possível. E, como não possui referências para deter e aplicar um aparato crítico, tudo é verdadeiro, aceitável. Se não é verdade, bem poderá sê-lo, diz o novo ignorante, que nem mesmo sabe que o é. De facto, é este o princípio motor da «era da pós-verdade». (mais…)

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                                  A Síria e as «realidades imaginadas»

                                  Rua de Aleppo em 2010. Fot. Majd

                                  Passada a fase de relativa acalmia que se seguiu à queda do Muro de Berlim e à derrocada das experiências do «socialismo realmente existente», quando o equilíbrio internacional assente num mundo bipolar pareceu dar lugar a uma ordem de sentido único, é hoje percetível que estamos de regresso a um clima de Guerra Fria. Este não repete o anterior, mas replica alguns dos seus mecanismos caraterísticos. Destaco três: a divisão entre duas áreas de influência política, polarizadas nas potências com maior capacidade político-militar; o papel da propaganda e da contrapropaganda neste processo de separação, em particular nos conflitos que envolve; e a presença de séquitos de sectários que propagam os pontos de vista de cada um dos lados, servindo os seus interesses estratégicos.

                                  É bem visível nova divisão do mundo em áreas de influência. A presença global dos Estados Unidos e da Rússia, da sua ativa diplomacia e da sua elevada capacidade de intervenção, é claramente percetível, não sendo modulada por forças de natureza democrática com capacidade para erguer áreas libertas da sua interferência. A União Europeia tem sido, aliás, um catavento em posição de subalternidade face a Washington. A China tenta interferir em algumas políticas regionais e funciona, no atual mapa, como um fiel da balança que tenta conquistar o máximo neste papel. Já os setores irredentistas do Islão intervêm como fator desregulador, funcionando, nas áreas nucleares, como justificação para o reforço do Estado, a corrida ao armamento e o crescimento dos sistemas securitários. Entretanto a democracia definha, presa numa tenaz cujos braços são o medo e a desinformação. (mais…)

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                                    Mentira, nostalgia e melancolia

                                    Fidel, Jean-Paul e Simone em 1960
                                    Fotografia de A. Korda (cor de M. Athanasiadis)

                                    Passados os dias que se seguiram ao desaparecimento mais ou menos esperado de Fidel Castro, em que foram propostas interpretações do seu papel histórico muitas vezes opostas e quase sempre pouco racionais, regresso ao assunto para olhar justamente alguns dos rostos que tomou esta irracionalidade. Para o fazer, recorro a três conceitos que, na sua relação com diferentes modos de observar a vida e a intervenção pública do líder cubano, refiro aqui de uma forma inevitavelmente concisa e parcial. A cada um associo uma diferente proposta de leitura, que vivamente recomendo a quem se interesse por estes temas.

                                    O primeiro conceito é o de «mentira». Falei em crónica recente da «pós-verdade», sobre a qual Ralph Keyes publicou em 2004 o livro The Post-Truth Era. Para Keyes, vivemos um tempo de manipulação da verdade, no qual aquilo que se diz tem mais valor do que a realidade à qual supostamente se refere. Isto leva a uma constante deturpação ou mesmo à invenção de factos, fazendo passar a mentira por verdade. Foi em parte o que aconteceu com a identificação liminar, por estes dias repetida como um mantra, de Fidel como ditador. Se observarmos a forma autocrática como por mais de quatro décadas exerceu o poder, o regime de partido único sem eleições realmente livres, a censura e a informação controlada, a polícia política, as prisões e execuções por oposição ou dissidência, o qualificativo será adequado. Mas a direita serve-se indevidamente dele, usando-o para demonizar uma experiência histórica que, em anos de constante apoio da política externa norte-americana a ditaduras sanguinárias espalhadas por toda a América Latina, funcionou para milhões como fator de esperança e um importante exemplo emancipatório. Por isso essa «verdade», vinda, ademais, de uma área política na qual a luta pela liberdade sempre esteve longe de ser uma prioridade, se funda na ocultação, produzindo, de facto, uma mentira. (mais…)

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