Arquivos Mensais: Abril 2021

A Fronda dos adeptos

Quem não dá a menor importância ao futebol provavelmente não terá percebido o que aconteceu nos últimos dias no mundo peculiar que ele agrega. Goste-se ou não deste desporto – sou dos que gostam, e muito, apesar de lhe reconhecer bastantes aspetos condenáveis e de detestar a «clubite» – ele moveu e move largas centenas de milhões de pessoas, homens e mulheres de todo o mundo, de todas as crenças, de diferentes convicções, em grande parte motivadas por uma componente de prazer e de paixão que sempre o associa ao que de melhor essas pessoas vivenciam e esperam. Já uma vez dei este exemplo, para mim inesquecível: alguém que acompanhei até ao fim da vida e que, no último dia, me pediu um cigarro e que lhe dissesse qual o resultado do jogo de domingo do seu clube do coração.

(mais…)
    Apontamentos, Atualidade, Etc., Olhares

    Palavras da indiferença

    Um certa frase anda a ouvir-se muito por aí, em regra para marcar um fim de conversa. É uma daquelas que não passa de modismo, mas que quando emerge, como acontece com todos os modismos, ecoa uma tensão existente. «É o que é!» constitui a expressão acabada do conformismo, da predisposição, hoje dominante, para considerar, ou aceitar, que existem – na vida pessoal, como em todas as sociedades – forças às quais não é possível resistir, não valendo a pena sequer tentá-lo. Como o «there is no alternative», o conhecido TINA, divulgado nos idos de 80 por Margaret Thatcher, que dessa forma conclamava os cidadãos a conformar-se, aceitando como inevitáveis e impossíveis de alterar as dinâmicas de servidão impostas pelo neoliberalismo. «É o que é!», ainda que pronunciada sem pensar, é, de facto, uma aberração, que pretende banalizar a mansidão e a indiferença. Porque, eis outra frase de sentido análogo, «o que tem de ser, tem muita força».

      Apontamentos, Etc., Olhares

      Panfletarismo e dinâmicas da cidadania

      O uso do panfleto na atividade política pode ser de grande importância. O apoio veemente e persistente a uma causa, a uma doutrina ou a uma campanha, que ele geralmente serve, é imprescindível para que estas possam transcender o pequeno círculo de seguidores e obter uma ressonância acrescida. Desta forma se fomentam as dinâmicas da cidadania, que não existem sem um apelo claro e sonoro à participação. Todavia, se este esforço não for exercido de uma maneira equilibrada, se tiver um formato excessivo, repetitivo ou enfadonho, torna-se praticamente ineficaz, podendo mesmo produzir um efeito oposto ao pretendido.

      (mais…)
        Democracia, História, Olhares, Opinião

        Perspetiva e problemas do jornalismo regional

        Neste tempo em que os modos e os ritmos da informação e da comunicação tão rapidamente se desdobram, ganhando muitos dos seus títulos e fontes uma dimensão global, o jornalismo regional mantém, ainda assim, um importante papel a cumprir. O qualificativo «regional» é, aliás, preferível ao de «regionalista», dado este evocar uma perspetiva exclusivamente local, que tende a dobrar cada território sobre si próprio e muitas vezes se afirma virando as costas ao vizinho. Numa época em que os principais meios de comunicação se centram especialmente em temas de interesse nacional ou global, ocultando ou tratando de forma superficial aqueles que o não detêm, os média regionais cumprem o dever de olhar para assuntos, factos e dilemas que acontecem a uma escala da proximidade. Sempre foi esta a sua principal vocação e assim deverá permanecer, assegurando a visibilidade de hipóteses e de escolhas que à distância são difíceis de notar e de compreender. 

        (mais…)
          Atualidade, Democracia, Jornalismo, Opinião

          Curar o cansaço em In Guezzam

          Como acontece com boa parte das pessoas com quem me relaciono nos espaços de sociabilidade que nos últimos tempos, devido às circunstâncias, mais tenho frequentado – como o Zoom que se multiplica por si só, o Email que jamais vai ao zero, o Instagram, o Twitter, o Messenger, o WhatsApp, o Doodle, o Academia.edu ou o Facebook, esses lugares onde é possível sentir por estes dias o rumor crepitante das multidões – tenho experimentado um cansaço constante, determinado pela progressão geométrica de trabalho a eles associada.

          (mais…)
            Apontamentos, Atualidade, Devaneios, Olhares

            Entre a cumplicidade e a denúncia

            Quando se ouvem profissionais da História afirmar ser esta «um saber neutro, situado fora da política», a reação só pode ser de uma enorme estranheza, dado estas afirmações ignorarem o resultado de intensos debates que tiveram lugar dentro da própria disciplina desde há oito décadas. Marc Bloch, um dos responsáveis pela derrocada da velha historiografia positivista e factualista, que foi torturado e fuzilado pela Gestapo por ser destacado membro da Resistência francesa ao nazismo, foi dos primeiros a fazê-lo. Bloch defendia já – num texto de 1941 incluído em livro ainda hoje usado em cursos de introdução ao ofício de historiador – que o objetivo da disciplina não era apenas de natureza científica, mas comportava também uma dimensão cívica e moral, tendo quem nela trabalha a inequívoca responsabilidade de «prestar contas» a propósito da complexidade do que outrora aconteceu e cujo eco se propaga.

            (mais…)
              Democracia, História, Memória, Opinião

              Há 48 anos, em Aveiro

              Entre 4 e 8 de abril de 1973, perfazem-se agora 48, decorreu em Aveiro o III Congresso da Oposição Democrática. A apenas cerca de um ano do 25 de Abril, nele pôde ser constatada, apesar da censura e da repressão, a força crescente da oposição ao regime, a sua diversidade e propostas, e também o caráter inamovível de quem temia que a democracia chegasse. Participei em reuniões dos trabalhos preparatórios e estive em algumas das dinâmicas sessões, que tiveram lugar no Cine-Teatro Avenida. Mas do que me lembro mais vivamente, tenho de admitir, foi de dois momentos nada edificantes ocorridos no último dia: a brutal carga policial sobre os congressistas, avenida Lourenço Peixinho abaixo, que ainda me deixou no corpo a marca negra de uma bastonada; e antes disso a atuação de elementos do serviço de ordem do próprio Congresso, dentro do Teatro, tendente a impedir à custa de empurrões e de gritos que alguns setores mais radicalizados pusessem como prioridade dos debates a Guerra Colonial. Na medida do possível, a memória não deve ser seletiva, para que a história também o não seja. [Na imagem, a carga da polícia naquele domingo de abril.]

                Apontamentos, Democracia, História, Memória