O «caso Dreyfus» e o intelectual público

O entendimento da dimensão ética interventiva do intelectual surgiu tardiamente, apenas durante o episódio que envolveu Alfred Dreyfus, o capitão de artilharia do exército francês, de origem judaica, acusado de alta traição por atos de espionagem e logo preso, despromovido e enviado em regime de prisão perpétua particularmente severa para a ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Quando foi possível averiguar e descobrir que afinal se tratara de um erro judicial, abafado pelas autoridades militares para evitar o escândalo e salvar o verdadeiro traidor, e a sua defesa foi publicamente assumida por Émile Zola, a partir da escrita e publicação no diário Aurore, a 13 de Janeiro de 1898, do libelo coletivo «J’Accuse», o episódio transformou-se no conhecido «Caso» que apaixonou a opinião pública francesa e teve então um grande impacto internacional.

O «Caso Dreyfus» dividiu a França entre os dreyfusards e anti-dreyfusards, de acordo com uma lógica que acompanhava a forte linha de demarcação entre uma direita antissemita, essencialmente autoritária e apoiante da restauração da monarquia, e uma esquerda de matriz democrática e republicana, tendencialmente laica e tolerante. Grande número de professores, estudantes, artistas, escritores, advogados, alinharam nesta polémica do lado dos dreyfusards e assinaram na altura diversas petições intercedendo por Dreyfus, tendo também lugar manifestações públicas onde, entre outras palavras de ordem, se gritou, transformando o romancista num segundo herói para os seus apoiantes, «Vive Dreyfus! Vive Zola!».

Os signatários e apoiantes da petição publicada no Aurore partilhavam a defesa de três direitos fundamentais unidos numa iniciativa coletiva de combate pela reposição da justiça e pela rejeição da arbitrariedade: o direito à indignação pública, o direito a associarem-se para alargar a força do protesto, e o direito ao exercício de um poder simbólico, em boa parte suscitado pela presença, entre os integrantes do movimento, de muitos cidadãos dotados de títulos académicos ou com notoriedade cultural. Ao mesmo tempo, não visavam apenas a solução de um erro judicial, mas a promoção de um ideal de «verdade», de «justiça» e de «direitos» que transcendia as pessoas diretamente envolvidas, pois, como escreveu Zola, o que os moveu foi essencialmente «a paixão da luz, em nome da humanidade, que tanto sofreu e que tem direito à felicidade». O modelo zoliano de intelectual, por definição empenhado, comprometido, nasceu aqui, e irá prolongar a sua influência ao longo de mais de meio século, apoiado na assunção e no exercício conjunto e militante daqueles três direitos.

Rui Bebiano

Adaptado do meu livro Tony Judt – historiador e intelectual público (Edições 70, 2017)
Imagem: Alfred Dreyfus, Getty Images
    Democracia, Direitos Humanos, História, Memória.