Gaguez, racismo e preconceito

Já durante a campanha eleitoral, mas sobretudo após a eleição da Joacine Katar Moreira, deputada do Livre, tenho deparado, nas redes sociais e também em jornais, com os comentários e as opiniões mais negativos, em tonalidades várias de estupidez, de ignorância e até de agressividade. Mesmo quando proclamam que o não são, e que estão «apenas a fazer um reparo». Alguns deles provindos até de pessoas por quem tinha – este espaço serve também para reconsiderar certas impressões – alguma consideração política e/ou pessoal. Tudo a propósito da gaguez da Joacine Moreira, sendo, no entanto, óbvio que esta é apenas um pretexto para a exibição de preconceitos vários.

Talvez valha a pena dizer que tenho vários gagos na família. Contam do meu avô materno, que não cheguei a conhecer, sê-lo de uma forma extrema, embora fosse músico amador, tocasse clarinete e não conste que se engasgasse com as notas. Para além de, apesar do handicap, ter algum êxito entre as mulheres. Eu próprio, quando estou sob grande tensão, gaguejo um pouco, embora tenha desenvolvido estratégias para superar o problema. Uma coisa sei, e a maioria das pessoas sabe ou deveria saber: ser gago não impede alguém de ser competente seja no que for a que se dedique, não afeta a sua inteligência e nem é sequer um estado permanente, tendo graus, momentos e condicionamentos diversos. E quem o não sabe, está sempre a tempo de aprender.

Os comentários sobre a gaguez extrema da Joacine resultam na realidade de um complexo de causas, das quais ela talvez até nem seja a mais importante, embora seja a mais invocada. Para algumas cabeças, serão fatores de perturbação a mais: negra, nascida na Guiné-Bissau, mulher, «feminista radical», ativista contra o racismo, membro de um partido de esquerda sem grande implantação, doutoranda em Estudos Africanos e sabe-se lá o quê mais. E «ainda por cima» bonita e… tremendamente gaga, superando esta dificuldade com enorme coragem pessoal. Independentemente da sua opção política, os portugueses devem até estar orgulhosos por ter no parlamento uma mulher com tais qualidades, mas a alguns dá-lhes para isto. Preconceito é isso mesmo.

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