God bless America

Depois de durante o século XIX ter olhado a América como lugar de exílio, espaço de oportunidades ou pátria de uma liberdade plena e não adjetivada, a partir do século passado a tradição europeia, em particular a da esquerda política e cultural, começou a ver nos Estados Unidos a sede de todos os males da humanidade. O impacto da Revolução de 1917 e depois da Guerra Fria determinaram e condicionaram em muito essa violenta animosidade, presente até em alguns dos que ali encontraram refúgio perante as ditaduras ou habitáculo para a existência pessoal. E o ódio foi gerando cada vez mais ódio. Do lado do establishment e do lado dos que se lhe opunham. Dentro e fora da América.

Não que sucessivos governos e amplos setores da sociedade norte-americana nada tivessem feito para merecer a profunda animosidade de tanta gente, por vezes a de povos inteiros. Bem pelo contrário, as disparidades sociais, o apoio a ditaduras, o desvario imperial, as aventuras militares, e até uma cultura do quotidiano tantas vezes marcada pelo poder do dinheiro e pela arrogância mais ignara, ajudaram a aprofundar as distâncias ou ergueram muros. Mesmo sabendo-se que aquele se mantinha uma land of opportunities e um espaço aberto, onde a liberdade de criar, de pensar, de publicar opinião, de alcançar uma vida melhor, de combater por uma sociedade e um mundo mais justo, permaneciam.

Mas o ódio gerado e transmitido tem continuado a alimentar a tensão e a manter a cegueira, mesmo quando determinadas circunstâncias em boa medida mudaram. Têm-se visto, por exemplo, apreciações sobre o próprio governo de Barack Obama – criticável sob muitos aspetos, na minha opinião – que se mostraram profundamente cruéis, exageradas e injustas, sobretudo quando comparadas com uma benévola compreensão demonstrada para com outros fautores dos males do mundo. Nos tempos mais recentes, por exemplo, com uma aceitação, quase uma cumplicidade, por parte de alguns desses setores, face à democracia musculada, não menos imperial e opressora, que domina atualmente a Rússia, ou à ditadura que governa a China.

O antiamericanismo cego e primário sempre me pareceu um exagero, uma tolice, uma ilusão, um fator de bloqueio de uma compreensão mais completa, tolerante e útil do mundo e da humanidade. Muito injusto, aliás, para os milhões de  norte-americanos que, à sua maneira, se têm batido por uma sociedade melhor e até por um  mundo menos instável e desigual. Por este motivo é particularmente dramático o desastre politico que se abateu sobre os EUA e sobre o planeta com a eleição de Donald Trump, o personagem burlesco imposto aos seus concidadãos num contexto de manipulação da democracia pelos média. O seu americanismo cavernícola e agressivo contribuirá para revigorar o antiamericanismo mais visceral. Será difícil escapar-lhe e isso será mau para todos. God bless America. E a nós também.

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