Talvez Natal

Fotografia de Zofia
Fotografia de Zofia

Chegamos ao final de Dezembro e com ele à época na qual se abusa do Natal, tantas vezes transformado, envolto em inúmeros e insuportáveis clichés, num tempo para o exercício da hipocrisia ou do mais insano consumismo. Atitudes que pouco ou nada têm a ver com o sentido original, simples e transparente, do instante fundador do cristianismo e da sua mensagem de paz e humildade. Todavia, são sempre de evitar as generalizações, pois são muitas as almas, crentes ou nem por isso, que nas culturas de raiz fundacional cristã procuram observar a quadra demonstrando um genuíno cuidado para com o seu semelhante próximo ou distante. Para não falar das distantes paragens, ou dos ambientes menos observáveis à luz do dia, nos quais o momento serve o conforto dos fracos ou a identidade de algumas minorias silenciadas e oprimidas.

E no entanto muitas são as pessoas, adeptas de um discurso autocensurado, politicamente correto, que evitam pronunciar sequer a palavra «Natal», substituindo-a por eufemismos como «festas», «quadra» ou outros. Parece-me um processo de automutilação cultural. Sendo homem de nenhuma fé, nada me incomoda apresentar a alguém, sobretudo se presumir ser esse alguém crente sincero de uma qualquer religião, ou que com ela conviva numa relação tranquila, os votos de um Bom Natal. Assim como, noutros momentos ou lugares, os de uma Feliz Hanukkah, de uma Descansada Hijra, de Óptima Joya Kane, de um Próspero Losar, de um Reconfortante Diwali. A assertividade das convicções não reside no policiamento da língua nem se alimenta da fuga ao real social. E o respeito pelo outro passa também pelas palavras das quais nos servimos para com ele falar.

Feliz Natal, pois, para quem o viver ou desejar.

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