A felicidade na tristeza

Birkin, Gainsbourg, Gréco, «Selfie»
Birkin, Gainsbourg, Gréco, «Selfie»

Com a Anatomia da Melancolia, publicada em 1631, Robert Burton lançou as bases para a compreensão do que hoje com ligeireza chamamos estados depressivos. Deles padecia o próprio Burton, tratando de abordar a doença com alguma ironia: «escrevo sobre a melancolia por estar ocupado a evitar a melancolia». Aceitava que a causa do seu mal estivesse na ociosidade, acompanhando aquilo que, sensivelmente pela mesma época, escreviam os tratadistas militares interessados em evitar um estado de espírito que prostrava os soldados e os afastava da firmeza no combate. Também eles diziam que a melhor forma de manter os homens em estado de prontidão para a guerra era impedi-los, pela falta de tempo disponível, de pensar em excesso no seu desgraçado destino. Uma ocupação com tarefas constantes e severas seria o modo de afastá-los desse inibidor «mal de corazón».

Sabemos hoje que a associação entre depressão e melancolia é abusiva, já que esta pode também induzir, para além de um certo comprazimento, um desejo de ação. No De Vita, de 1489, o humanista Marsílio Ficino considerava que a tristeza pode ser um catalisador de um tipo particular de génio. Como seria de esperar, os românticos alimentaram esta ideia. Hugo entendia que a melancolia era ao mesmo tempo «um crepúsculo» e uma expressão da «felicidade de ser triste». E em O Vermelho e o Negro, Stendhal mostrou como Julien Sorel, o seu herói, se aborrecia no meio dos prazeres justamente porque para ele só o inacessível tinha valor, encontrando-se a verdadeira felicidade no esforço aplicado na busca desse fugidio impossível. O mal de siècle traduzia pois um estado de aborrecimento e de desilusão devastadoramente triste. Que todavia não levava à passividade, pois, bem pelo contrário, empurrava o indivíduo para um estado de rebelião contra uma ordem social que julgava imperfeita e merecedora de uma alteração urgente e radical.

Foi basicamente esta perceção que alimentou, ainda ao longo de parte importante do último século, um certo culto da atitude melancólica e da sua expressão corporal, em regra acompanhada de uma auréola que a associava à faculdade de agir em favor de uma transformação abrupta da vida e da história. Diversas gerações partilharam essa atitude, ainda percetível, no pós-Segunda Guerra Mundial, no comportamento aparentemente entediado dos membros da Beat Generation ou dos numerosos seguidores, mais ou menos certos das suas convicções filosóficas, da versão profana do existencialismo francês. Olhamos fotografias daqueles anos, mesmo de pessoas comuns, embora de formação média ou superior, e detetamos as marcas de uma tristeza aprazível que não é mera gravitas, mas uma opção declarada por fazer da reflexão sobre os destinos do mundo uma forma de vida, uma maneira de estar. «Adieu tristesse, Bonjour tristesse.», os dois primeiros versos de À Peine Défigurée, o poema de Paul Éluard que inspiraria a conhecida obra-prima de Françoise Sagan, contém esse cunho de um amor partilhado no convívio diário com uma tristeza feliz. «Tristesse, beau visage», escreveria ainda Éluard. Marcelo Duarte Mathias, no seu belo livro sobre o conceito de felicidade em Camus, mostra como esta atitude terá tomado, no escritor franco-argelino, uma dimensão solar, nela residindo a essência do que considerava ser uma fruição plena do mundo.

Todavia, algo de substancial mudou nas últimas décadas, provocando uma visível inversão desta atitude. Neste tempo de «euforia perpétua», como lhe chama Pascal Bruckner, o «dever da felicidade» encontra-se associado a uma imagética que a deve tornar óbvia, de acordo com um conceito de «alegria» próximo do senso comum. Mais do que sermos felizes, devemos parecê-lo, e que outra forma de o parecer senão exibindo as marcas convencionais da felicidade: sorriso aberto, dedos em vê, brados ou pulos de júbilo, vivendo como se jamais saíssemos de um imenso parque de diversões? É isso que encontramos na vaga de selfies, invariavelmente povoadas de sorrisos artificiais («say cheeeeeese!») e de uma alegria de pacotilha. Em Contra a Felicidade. Em Defesa da Melancolia, Eric G. Wilson ergue-se contra isto, considerando essa alegria permanente e artificial uma espécie de Prozac para os nossos cérebros, inibidora da criatividade e do prazer real num genuíno júbilo, afastando esse instante mágico que reside em «descobrir a alegria na escuridão». Isto é, de encontrar o prazer como um breve êxtase no curso das coisas. Experimentado com uma gargalhada ou um arrepio de emoção.

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