Arquivos Mensais: Setembro 2013

Os ganhos e as perdas

É sempre difícil fazer uma apreciação dos resultados das eleições autárquicas fundada apenas em operações simples feitas com a máquina de calcular. A dificuldade é imposta pela intervenção de fatores pessoais (como as capacidades ou o prestígio público de determinados candidatos), circunstâncias locais (entre eles as redes clientelares ou a existência de problemas regionais muito concretos) e particularidades orgânicas (sobretudo no que diz respeito à apresentação de coligações eleitorais e, agora, também ao crescente papel das listas de independentes). Por isso, nada como tentar transformar o complexo em simples e olhar as eleições não na mera perspetiva dos números, mas sob um ângulo mais amplo, capaz de permitir a observação de algumas das suas dinâmicas. (mais…)

    Atualidade, Democracia, Opinião

    Ainda as praxes

    praxis

    1. Voltou a reacender-se o interminável debate público sobre as «praxes académicas». Trata-se de uma discussão quase sempre bastante crispada, opondo os que nelas vêm uma forma de viver a academia e, presumem, de salvaguardar as suas tradições, aos que as recusam liminarmente como inúteis, obtusas e detestáveis. Deste debate autoexcluem-se infelizmente os atuais estudantes «praxistas», que a põem em prática de forma automática, quase sem qualquer preocupação crítica com as suas origens, formas, significados e consequências. Deixo claro que não sou neutro neste debate, pois rejeitei-as há muito, antes até de ser estudante universitário, não tendo mudado de opinião. Não o faço, porém, a partir de uma atitude cega e intransigente. (mais…)

      Atualidade, Coimbra, Democracia, Direitos Humanos, Opinião

      Solidão e felicidade em Camus

      «Não sou um filósofo, só sei falar daquilo que vivi», escreveu o autor de A Peste no terceiro volume dos Cahiers. A afirmação condensa um dos dois argumentos nucleares de A Felicidade em Albert Camus, de Marcello Duarte Mathias, primeiramente editado em 1975, do qual saiu há pouco tempo uma 3ª edição revista, acrescida de um prefácio atualizado e de três novos textos. Na verdade, e tal como se empenha em demonstrar o escritor e embaixador, «raros casos terá havido de uma tão completa osmose entre um autor e uma obra e de uma tão íntima associação entre os dois e o seu tempo». Se a leitura deste ensaio explica de um modo inequívoco essa interligação, mantida por Camus em tudo aquilo que escreveu, mostra também que ela teve consequências «para o bem e para o mal, como se diz». De facto, a imposição da coerência entre a vida e a obra, forçando atitudes de independência, determinou –sobretudo no confronto com os rígidos ambientes da esquerda filo-marxista do pós-guerra que o escritor frequentou – polémicas e ruturas dolorosas com aqueles com quem percorrera parte importante do seu caminho literário, filosófico e político. O resultado foi uma proscrição que só muitos anos após a sua morte começou a ser anulada. O obituário saído no Times em janeiro de 1960 intitulava-se com propriedade «A man who walked alone». (mais…)

        Biografias, Ensaio, Heterodoxias, Leituras

        Porque sei em quem votar

        Cidadãos Por Coimbra

        Viver numa cidade de tamanho médio como o é Coimbra, que possui além disso marcas históricas, sociológicas e culturais muito próprias, leva-nos ao confronto com uma gestão autárquica que tem, frequentes vezes, demasiadas vezes, caminhado a contracorrente daquilo que essas marcas reclamam. O que impõe o anseio e a necessidade de uma mudança rápida e substancial. (mais…)

          Atualidade, Coimbra, Democracia

          Em Coimbra a vida é uma festa?

          Mais que qualquer outra cidade portuguesa, a meio de setembro Coimbra reanima-se com o regresso às aulas. É verdade que já não se nota tanto a diferença, ainda percetível há uma vintena de anos, entre o deserto que eram as férias do verão e o movimento que depois delas ia lentamente regressando. Muitas coisas mudaram entretanto: o número de residentes disparou mas o dos alunos universitários manteve-se idêntico, e o crescimento da classe média, dos serviços, do comércio e do turismo fez com que a urbe passasse a depender menos dos estudantes. A própria vida universitária sofreu uma mudança, ampliando-se a rede de vivências e de relações com outras regiões e tornando-se menos exclusiva a ligação dos universitários com a cidade. No entanto, quem nela mora ou frequenta as suas áreas mais ocupadas pela vida estudantil continua a dar conta de que, de repente, quando o verão se aproxima do fim, há um novo ruído no ar e ocorre uma metamorfose da paisagem humana. (mais…)

            Apontamentos, Atualidade, Coimbra, Olhares

            Erros seus, má fortuna

            Qualquer professor, independentemente do grau do ensino no qual exercita a profissão, depara-se a todo o instante com problemas da comunicação associados a erros do português escrito, alguns deles crónicos, que os seus alunos cometem. Quem andasse distraído poderia, no entanto, pensar que no ensino superior essa praga – que tanto deforma os textos e prejudica a sua clareza – se sentiria bastante menos que noutros graus de ensino, mas os últimos anos, e os últimos cinco ou seis em particular, terão servido para desfazer tal ideia. Lemos agora relatórios, trabalhos, testes escritos, e-mails dos alunos, nos quais as palavras incorretamente escritas, a par de uma sintaxe cada vez mais trôpega ou simplificada, por vezes inadequada ao padrão de discurso no qual se está a procurar comunicar, representam um verdadeiro tormento, prejudicando a expressão fluida mas rigorosa do conhecimento. (mais…)

              Apontamentos, Ensino, Leituras, Oficina

              Analfabetismo funcional

              António Guerreiro escreveu há dias numa crónica para o Ípsilon, que «o analfabetismo funcional, próprio das classes baixas», é agora «parte da panóplia de atributos das chamadas elites». É verdade que Guerreiro se serviu da frase para tratar um tema muito objetivo – o significado simbólico do padrão de linguagem utilizado nas caixas de comentários das edições online dos jornais – tendo em conta a incorporação, por parte de certos responsáveis editoriais, de alguns dos valores, dos códigos e das palavras utilizados por pessoas maioritariamente semiletradas e sem grande capacidade analítica. Intervindo naqueles espaços, elas têm agora direito a uma palavra que ali lhes estava vedada, a um espaço que não fazia parte do seu universo de comunicação, rebaixando ou impedindo qualquer debate mais complexo e fundamentado. Vou servir-me da ideia ampliando o seu alcance como chave interpretativa de uma outra situação. (mais…)

                Apontamentos, Atualidade, Olhares

                Cúmplices e intérpretes

                Hoje passeava por um lugar público quando ouvi diluído, saído de algures entre ruídos vários e dispersos, um fragmento de um velho tema de Francis Lai. Aquele murmurado por Claudine Longet e usado por Claude Lelouch em Un Homme Et Une Femme. E por instantes realizei a falta que me fazem, que nos fazem, os grandes «temas de filmes» que empurravam o argumento bem para fora da sala escura. Tornando-nos cúmplices, intérpretes e legatários de cada história inacabada.

                  Apontamentos, Cinema, Olhares

                  Vou ali e já volto

                  O Tribunal Constitucional fez aquilo que tinha de fazer para ser coerente com os seus objetivos e processos de funcionamento: votou com base numa interpretação razoável dos termos da chamada lei da limitação de mandatos. Por isso, dado ser esta claramente insuficiente e ambígua, o ónus da culpa lançada sobre aquilo que de mau ela irá ajudar a conservar no funcionamento do poder autárquico pesará diretamente sobre as costas do legislador. E também sobre os partidos (no caso, PSD e PCP) que tudo fizeram para que vingasse a interpretação que vingou. O PCP chegou mesmo a comentar, já depois da votação do TC, que «ganhou a democracia», escudando-se na defesa dos direitos democráticos dos candidatos crónicos como se falássemos apenas de santos servidores da coisa pública e não de eventuais, ou por vezes certos e seguros, pecadores. (mais…)

                    Apontamentos, Democracia, Opinião