Da imprensa regional

Neste tempo em que os modos e os ritmos da informação e da comunicação se desdobram, a imprensa regional tem um papel importante a cumprir. É preferível aliás o qualificativo «regional» ao de «regionalista», pois este lembra em demasia questões de águas e aversão a quem habita do lado de lá da linha do horizonte. Mais do que nunca, esta imprensa tem o dever de olhar para os problemas e para os acontecimentos que sucedem na escala da proximidade e não encontram eco nos meios projetados numa amplitude alargada. Essa é a sua principal vocação, sem dúvida. Convive no entanto com três problemas que lhe diminuem o impacto e só podem ser superados por um ato de vontade, essencial para que se não consuma na irrelevância e no distanciamento de um público cada vez mais permeável a outros processos, a novos interesses e a diferentes linguagens. Isto é, para que não desapareça a curto prazo, com a mudança geracional, a revolução tecnológica e a renovação da literacia.

O primeiro problema diz respeito à forma de olhar o que é local ou regional. Deixar de pensar que é possível isolar um certo mapa e assumir que muitas das questões mais próximas, senão todas elas, têm uma ligação com aspetos de natureza mais geral que não podem ser tratados como irrelevantes. Não é possível, por exemplo, falar das condições de funcionamento de um hospital ou de uma escola sem observar as políticas que transcendem os atos de quem dirige essas instituições e de quem nelas trabalha. Por outro lado, fazer pontes com o vizinho permite ajudar a uns e a outros, melhorando os processos de desenvolvimento inter-regional e de conhecimento do lugar no mundo e do seu relacionamento com ele. O que acontece em Coimbra – dou o exemplo, o mais próximo, da minha cidade – não pode pois ser isolado «à força», por vezes até à caricatura, daquilo que acontece em Aveiro, Lisboa, Berlim ou Nova Iorque.

O segundo problema tem a ver com a dificuldade em assumir uma atitude de independência ou, pelo menos de ousadia, em grande parte devido a laços de proximidade, ou de cumplicidade política, mais difíceis de ultrapassar à escala média ou pequena. Esta limitação coloca-se principalmente na dimensão da liberdade crítica ou da capacidade para abordar temas por vezes sensíveis ao nível local. Põe-se também a propósito de alguma dependência pessoal, por vezes inevitável. O resultado é a transformação dos jornais em folhas semioficiais, que nunca abordam temas polémicos, receiam tudo o que possa soar a mudança e jamais questionam quem se encontre no centro dos poderes mais ou menos próximos. Afastam-se assim os leitores (e colaboradores) com maior capacidade crítica, os que mais diretamente intervêm na mudança das dinâmicas locais, os que mais valorizam a democracia, por troca com um padrão de leitor (e colaborador) mais conformista, menos exigente e que não ocupa um lugar relevante nesses processos. Mas ao contrário, a independência – que não é, obviamente, sinónimo de análise gratuita – pode ser um fator de alargamento da qualidade, do interesse e até procura destes jornais.

O terceiro problema advém dos outros dois e é mais fácil de descrever. A limitação dos horizontes e o medo da crítica vivem de mãos dadas com a ausência de ousadia, de imaginação e de criatividade. Nestas condições, estas publicações vêm-se muitas vezes forçadas a descer o padrão literário e temático da sua escrita, uma vez que se centram na lógica da repetibilidade e do apego ao «menor denominador comum». A ampliação das perspetivas e do conhecimento, condição indispensável para a produção de um público ávido e interessado, passa também pela adoção de discursividades inteligíveis pela maioria dos leitores mas menos dependentes do cliché e da frase feita, recorrentemente a cheirar a déjà vu e a um provincianismo que tem os dias contados.

Durante alguns anos, por motivos de trabalho, li milhares de exemplares e centenas de títulos de jornais regionais da segunda metade do século XIX e reparei na forma como, sobretudo aqueles que estavam associados a uma certa ideia de desenvolvimento político e social, se esforçavam por elevar o conhecimento e a capacidade crítica dos seus leitores. A subordinação dos conteúdos ao princípio do consumidor semi-iletrado ou que apenas queria ler nos jornais aquilo que já sabia ou deduzia mesmo sem os ler, não faziam parte da sua orientação editorial «progressista». Visitar as bibliotecas e os arquivos e lê-los de novo pode constituir, por estranho que possa parecer, uma boa lição, e talvez uma boa terapia, para a reconstrução desse jornalismo regional dinâmico e instigador, alimento da cidadania adaptado a tempos de mudança como estes. Que continua a ser tão necessário.

    Atualidade, Coimbra, Opinião.