Arquivos Mensais: Dezembro 2006

Ano Novo de novo

Podemos, como sempre, repetir a receita de Carlos. Ou adiar. Só por mais um ano.

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre
.

    Recortes

    O silêncio

    Sem a expectativa de uma surpresa, mas esperando intimamente enganar-me, percorri hoje as páginas oficiais na Internet do PCP e do Bloco de Esquerda. Tão empenhadas na denúncia da política americana para o Iraque, nenhuma das organizações inclui ali uma palavra sobre a execução de Saddam Hussein, sobre a infâmia absoluta da pena de morte, sobre as consequências negativas para a paz na região – e para o próprio ajuste de contas com a história – que este acto bárbaro irá inevitavelmente suscitar. Preocupadas quase exclusivamente com o seu lugar simbólico na política autárquica e na actividade legislativa, ambas mostram, também por este indício, como para além da previsibilidade das suas agendas e das bandeiras do momento habitam hoje um deserto de causas. Como outras, igualmente esquecidas ou apenas ignoradas, até a campanha pelo sim no referendo sobre o aborto permaneceu no seu discurso, durante anos, em estado de semi-hibernação. O drama é que esse deserto tem secado tudo aquilo que poderia crescer fora dele. A indignação profunda perante a iniquidade, aquela que se não pode deixar atar pela lógica da oportunidade política, da contabilidade miserável das sondagens ou da ficção do pequeno poder, vive abandonada. Este caso é apenas um indício.

    Pós-nota: tomo como minhas as palavras directas do Luís Mourão

      Opinião

      Porquinhos e censurados

      Segundo o Yorkshire Post, a directora de uma escola inglesa da região, preocupadíssima com a sensibilidade religiosa dos seus pequenos alunos, maioritariamente provenientes de famílias muçulmanas, resolveu retirar da biblioteca os livros que mencionavam a história de Prático, Heitor e Cícero, os conhecidos Três Porquinhos. Sempre achei as peripécias destes bichos humanizados – concebidas no século XVIII mas definitivamente popularizadas, a partir de 1843, com as Nursery Rhymes and Nursery Tales de James Orchard Halliwell-Phillipps – uma coisa desenxabida, piorada depois na versão moralista e um tanto apatetada de Walt Disney. O mais interessante da história era sem dúvida o seu vilão, o Lobo Mau, que surgia como referente simbólico de um dos grandes medos que durante séculos afligiram os europeus. Mas aquilo que terá incomodado a senhora foi antes a referência subliminar – que deveria ser omitida em nome de uma maneira servil, e um bocadinho patológica convenhamos, de entender a diversidade cultural – a qualquer coisa de comestível. Como carne de porco, por exemplo.

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        Nostalgia de um tempo por vir

        Nostalgia
        As canções de vinte e dois minutos
        não existem mais. As saias-calça de bratzuanza
        desapareceram. Os sabonetes Ipogorum
        não se encontram. Os pneus das naves não são mais
        feitos de carbo-chips. Ninguém usa ventosas
        na roupa para andar de rodaloz. Os painéis
        de leitura já não abrem com o clique de voltagírio.
        E as casas ai as casas deixaram de cheirar
        a mengapuzes assados.

        Originalmente em Sous les Pavés, la Plage!

          Devaneios

          Démodé

          Loneliness

          «Je suis d’un autre pays que le vôtre, d’un autre quartier, d’une autre solitude. Je m’invente aujourd’hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous. J’attends des mutants.
          […]
          Le désespoir est une forme supérieure de la critique. Pour le moment, nous l’appellerons ‘bonheur’, les mots que vous employez n’étant plus ‘les mots’ mais une sorte de conduit à travers lesquels les analphabètes se font bonne conscience.»
          Léo Ferré, La Solitude

            Recortes

            Little Italy, ali

            A notícia chega de Vila do Conde e, como sabemos, apesar de situada numa região movimentada e de elevada concentração demográfica, Vila do Conde não é propriamente São Paulo. Mas o crime tomou ali uma configuração particularmente preocupante. Na zona industrial da Varziela, onde existe um grande número de lojas de imigrantes de origem chinesa, estas têm sido objecto de uma série de roubos e extorsões à maneira da velha Little Italy de O Padrinho II. Parece que os chineses que se dedicam ao pequeno comércio são, maioritariamente, para além de grandes trabalhadores, tão ciosos do seu dinheiro que preferem guardá-lo consigo a depositá-lo no banco ou a transaccioná-lo sob a forma de cheques ou de cartões de crédito. O resultado é tornarem-se alvos preferenciais de quem se dedica a apropriar-se daquilo que não lhe pertence. Foi justamente o que percebeu uma das quadrilhas da região, agora desmantelada, a qual ao longo de algum tempo se dedicou a espiar os hábitos diários dos chineses e a adaptar a sua mão-leve a esses hábitos, entrando-lhes nas casas enquanto se encontravam nas lojas. O que não deixa de parecer um tanto estranho, para a sociedade quase paroquial na qual ainda há pouco acreditávamos habitar, é que essa quadrilha era composta por imigrantes albaneses. Bem-vindos pois ao presente!

            Pós-escrito – Parece-me claro que este post não integra intenções xenófobas. Constata apenas a emergência de uma forma de sociabilidade que ainda aparece entre nós – sugestionados durante décadas pela conversa dos «brandos costumes» – como uma originalidade.

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              Da sabedoria 5

              Epicteto

              Epicteto, 55–135 (Manual)

              «De todas as coisas, umas dependem de nós e outras não. Aquelas que dependem de nós são as nossas opiniões, os nossos movimentos, os nossos desejos, as nossas inclinações, os nossos ódios. Numa palavra, todas as nossas acções. Aquelas que não dependem de nós são o corpo, os bens materiais, a reputação, as honras. Numa palavra, tudo aquilo que não dependa das nossas acções.

              As que dependem de nós são livres pela sua própria natureza, nada pode impedi-las ou impor-lhes um qualquer entrave. Aquelas que não dependem de nós permanecem frágeis, escravas, dependentes, sujeitas a mil obstáculos e inteiramente estranhas.

              Lembra-te, pois, que se tomares como livres as coisas que são por natureza escravas, e como próprio de ti aquilo que dependa de outro, apenas encontrarás barreiras, sentir-te-ás permanentemente aflito, perturbado, e queixar-te-ás a todo o instante dos deuses e dos homens.

              Ao invés, se acreditares ser teu apenas aquilo que é próprio da tua natureza, e estranho aquilo que pertença a outro, jamais te poderá alguém forçar a fazer o que não desejas, ou impedir-te de fazeres o que pretendas. Desta forma, não terás razões de queixa de ninguém, não acusarás quem quer que seja, nem mesmo que pela mais pequena coisa, pessoa alguma te fará mal, e não terás inimigos.»

                Recortes

                Solistício

                De partida para a festa familiar e os comes do solistício (o meu não é de todas as culturas – é apenas meio-português – e exclui decididamente poemas à Virgem e ao Menino Jejuxe), leio no El País-em-papel de ontem uma crónica de Timothy Garton Ash. Só o título é um programa e um apelo à meditação diária: «Respeitar os crentes, não as crenças»:

                «O ideal é que uma sociedade multicultural seja uma competição amistosa e aberta entre cristãos, sikhs, muçulmanos, judeus, ateus e até partidários do ‘dois mais dois igual a cinco’, para ver quem é capaz de melhor nos impressionar com o seu carácter e as suas boas obras.»

                Não apenas hoje ou um dia destes. Mas hoje e sempre. Esta noite também, portanto.

                  Recortes

                  Tédio e zeros

                  O Dia D, suplemento de economia editado pelo Público que pode ser folheado por leitores normais, costuma oferecer na última página a explicação do «dia mais longo» da vida pessoal – ignore-se agora a redundância – de certas e determinadas pessoas. Na escolha dos declarantes, o denominador comum reside na sua condição de figuras mais ou menos públicas. Como seria de esperar, as respostas são muito diversas, mas, invariavelmente, as piores são aquelas fornecidas por políticos e executivos directamente ligados ao universo empresarial. Por muito jet-lag que experimentem, números do The Economist que citem e tardes em Wimbledom ou Roland-Garros que tenham passado, raramente declaram algo de mais emocionante do que um dado dia no qual precisaram tomar, em poucas horas ou mesmo em minutos, decisões gravosas envolvendo um grande número de zeros. Não sei se os nossos gestores estarão entre os mais aborrecidos do mundo – insuspeitos, tal como os portugueses, de influências calvinistas, os japoneses serão, sem dúvida, muito piores – mas jamais nos convencerão a olhá-los como modelo.

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                    Da sabedoria 4

                    Epicuro

                    Epicuro, 341–270 a.n.e. (Carta a Meneceu sobre a Moral)

                    «O prazer é o começo e o termo de uma vida feliz. Com efeito, é ele que nós podemos reconhecer como o maior dos bens, conforme com a nossa natureza, é dele que partimos para determinar aquilo que é preciso escolher e o que devemos evitar, é a ele que, finalmente, recorremos quando nos servimos das sensações como uma das formas de apreciar todo o bem que se nos pode oferecer.

                    Ora, precisamente porque é o prazer o nosso principal bem inato, jamais deveremos procurar usufrui-lo na totalidade. Assim, existem casos nos quais nós renunciamos aos grandes prazeres se, para nós, deles resultarem o tédio e a preocupação. E poderemos mesmo considerar certas dores preferíveis aos prazeres sempre que, a partir dos sofrimentos que nos foram edurecendo ao longo dos anos, delas para nós puder resultar um prazer mais elevado.

                    Todo o prazer é assim, pela sua própria natureza, um bem. Mas prazer algum deverá ser procurado só por si. Paralelamente, a nossa dor é um mal, mas não deve ser evitada a qualquer preço.

                    Em qualquer caso, convém decidir sobre tudo isto comparando e examinando com atenção o que é útil ou nocivo, uma vez que, muitas vezes, agimos diante de um bem como se ele fosse um mal, e diante de um mal como se ele fosse um bem.»

                      Recortes

                      O meu problema com Leonard

                      Leonard Cohen
                      Tenho um problema com Leonard Cohen. Ou, pelo menos, com a imagem de poeta intoxicado, de habitante da penumbra e de beatnick renitente que de Cohen fui construindo entre livros (Let Us Compare Mythologies, logo em 1956), discos soberbos ou um pouco menos, concertos ocasionais e fotografias a preto e branco invariavelmente tiradas em bares e quartos de hotel. O canadiano de negro sempre me fez acreditar que a vida é dura e que só nas mulheres – as que se amam, aquelas que passam ao longe, as que apenas nos sorriem – é possível encontrar algum consolo. O problema consiste em continuar a acreditar nele.

                        Etc.

                        A voz do silêncio

                        Budapeste
                        Memorial ao Holocausto em Budapeste

                        No epílogo a Pós-Guerra, o seu grande livro sobre a história da Europa a partir de 1945 (Edições 70, 2006), Tony Judt revolve as últimas décadas da nossa vida comum para sublinhar que a reconstrução se fez caminhando sobre as cinzas do Holocausto. Nos anos que se seguiram à derrota do nazismo e à percepção da dimensão do genocídio cometido sobre os judeus europeus, o silêncio tornou-se a atitude corrente. Havia muito para esquecer e a evocação da experiência dos deportados ou dos sobreviventes dos campos de concentração transformara-se rapidamente em qualquer coisa de incómodo, que convinha arrumar com discursos de circunstância e meia dúzia de lápides em mármore. Até porque, durante a guerra, se tinham desenvolvido teias de cumplicidade e de conivência com as perseguições, as quais conviria pôr de lado. Além disso, muitos dos honestos cidadãos dos países ocupados pelos nazis – como a Holanda ou a Polónia – haviam tomado conta das propriedades dos judeus em fuga ou desaparecidos, não tendo vontade alguma de as devolver aos legítimos proprietários ou aos seus herdeiros. De leste a oeste, de facto, o anti-semitismo continuou instalado por muito tempo, sendo o silenciamento uma das suas armas.

                        A informação à qual acedemos hoje, é preciso que se diga, não estava disponível, ou pelo menos não era divulgada de uma forma tão eficaz quanto o foi mais recentemente, e foram precisos acontecimentos como a Guerra israelo-árabe dos Seis Dias, em 1967, o assassínio de atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, e, principalmente, a partir de 1978, o impacto mundial da série televisiva «O Holocausto», para que o «problema judaico» ganhasse uma nova visibilidade. Colocando-se as coisas no seu devido lugar, a caça aos criminosos nazis desencadeada em 1947 pelo grupo de Simon Wiesenthal deve ser entendida como uma resposta a esse clima de impunidade que viria a permitir, menos de vinte anos mais tarde, que na própria Alemanha «desnazificada» antigos nazis como Kurt Kiesinger e Heinrich Lübke, tivessem chegado, respectivamente, a chanceler e a presidente da república.

                        Talvez por este motivo se possa tornar preocupante a forma como a generalidade dos meios de comunicação a ocidente, muitos dos herdeiros políticos do antifascismo e até uma boa parte do universo académico, têm aceitado, com relativa indiferença, os tenebrosos esforços de revisionismo histórico patrocinados pelo actual governo do Irão, no sentido de negar a dimensão do Holocausto e de transformar os herdeiros das suas «putativas» vítimas – os judeus, qualquer judeu que defenda a sua identidade étnica e histórica – em terríficos algozes. A crítica dos processos de instrumentalização do passado continua a confrontar-se com a voz do silêncio.

                        Publicado originalmente em Passado/Presente e no Diário As Beiras

                          História

                          Evidência

                          Sublinho duas frases de Giuseppe Granieri que chegam com a Geração Blogue: «Os blogues, no seu conjunto, são a parte habitada da Rede». Por detrás deles, sempre «um indivíduo e o seu ponto de vista sobre o mundo». Fora deles, neste território, nada de tão livre, simples e imprevisível.

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