Arquivos Mensais: Novembro 2006

A luz da noite

Quase deixámos de usar a expressão «triste como a noite», confinada à métrica das chulas e dos fados vadios que resistem. Longe das aldeias despovoadas, fora das vielas onde já só dormem mendigos, bêbedos e drogados, a noite deixou de ser apenas silêncio, breu, território de caça para imitadores de Bela Lugosi e de Christopher Lee. Como um tempo para a melancolia e para a depressão. É o dia que agora nos atemoriza e entristece.

    Devaneios

    Marx/B

    Marx_B
    Na tentativa de parodiar a inadaptação de parte da esquerda britânica às mudanças do mundo pós-queda do Muro, Anthony Giddens falou de um certo «marxismo tendência Groucho». A frase pegou rapidamente. Foi citada, adaptada e abusada. Reparei, há dias, que já estão a chegar à universidade muitas pessoas incapazes de entenderem o alcance daquela gasta boutade do ex-director da London School of Economics. Bem sei que a maioria também não ouviu falar do primitivo Sócrates. Para não falar de Xenofonte, claro. O que não é propriamente muito animador. Mas reconheçamos que é grave, para a compreensão do mundo actual, jamais ter apreciado a inconfundível técnica de fumar charutos desenvolvida e divulgada pelo, julgo eu, segundo Marx mais conhecido de todos os tempos.

      Etc.

      Era a guerra / É a guerra

      Paris - La guerre

      «Vous parlez tout le temps de guerres. Il ne pouvait pas être question de guerres. Ces gens étaient des hors-la-loi. On ne fait pas la guerre à des hors-la-loi. On les extermine. Des hors-la-loi! Mon garçon, c’était une grande époque. Oh! c’était du beau travail, une merveille de l’organisation et d’audace dans l’exécution.»

      Em De l’origine du XXIe siècle (2000), um filme de 17 minutos de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville, contendo imagens de arquivo da 2ª Guerra Mundial e atrocidades nazis, entrecruzadas com extractos de Maurice Chevalier em Gigi, de Jerry Lewis em The Nutty Professor, e de À bout de souffle, do próprio Godard (ECM Cinema).

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        Fé (ou: o passado nunca existiu)

        Da entrevista concedida ao jornal Público por Blanco Cabrera, dirigente do Partido dos Comunistas do México que participa, em Lisboa, no Encontro Internacional que junta 63 Partidos «Comunistas e Operários»:

        «Na Coreia do Norte há fome. Não acha que há um grande distanciamento entre a clique política e o povo?
        Conhecemos a experiência da sociedade não capitalista na Coreia do Norte. Sabemos que é um caminho que conta com a aceitação do povo.
        Como é que sabe que conta com a aceitação do povo? A Coreia do Norte é um país opaco e repressivo…
        Recebemos a informação que nos é dada pelos companheiros do partido coreano e houve uma ocasião em que uma delegação do nosso Partido visitou a República. Efectivamente, é pouco o que se sabe, mas nós confiamos.»

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          Heróis com mácula

          Loren
          Poderão Simone de Beauvoir, Alexandre Solzhenitsyn, Sofia Loren, Mary Quant, Rainer Werner Fassbinder, a princesa Diana, Juan Carlos de Borbón, Franz Beckenbauer ou a Madre Teresa de Calcutá integrar, ao mesmo tempo, o admirável panteão dos heróis mundiais do pós-2ª Grande Guerra? Para a revista Time, que acaba de publicar o extenso dossier «60 Years of Heroes», podem, sem dúvida alguma. Claro que nenhum deles detém a heroicidade paradigmática de figuras como Aquiles, Alcibíades, El Cid, Francis Drake ou Giuseppe Garibaldi, mas a estes já o tempo e a lenda transformaram há muito em semideuses de visita aos parentes terrenos. E a Time possui, do conceito de herói, uma concepção bastante democrática.

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