Arquivos Mensais: Outubro 2006

Anónimos & Companhia

A forma, áspera e directa como é seu timbre, utilizada por Miguel Sousa Tavares para se referir ao universo dos blogues, é recorrente. Sousa Tavares – que há não muitos anos se declarou, na revista Grande Reportagem da qual era director, contra o uso dos computadores – está no seu direito de recusar, ou mesmo de desprezar, uma qualquer forma de comunicação. Esta ou outra. Todos nós conhecemos pessoas que também não gostam de ler jornais, ou que, confrontadas com o voice mail, adiam assuntos urgentes porque «se recusam a falar para máquinas», não sendo por causa disso que lhes deveremos desejar mal algum. Mas já me parece absurdo que, em crónica publicada no Expresso, o jornalista ataque os blogues, todos os blogues, para apontar o dedo ao mau jornalismo – aquele acrítico em relação às fontes, correndo atrás do boato mais abjecto – ignorando ao mesmo tempo que eles definem um dos meios de comunicação nas quais actualmente se escreve melhor português (e o pior também, naturalmente), se afirma um discurso mais livre, e onde se tem revelado, ou treinado na escrita, um grande número de pessoas, muitas delas jornalistas ou colaboradores habituais dos jornais.

Miguel Sousa Tavares tem entretanto razão na indignação que mostra por ter sido alvo, em blogue anónimo, de uma acusação de plágio. Acusação que, ainda que pudesse (ou possa) ser fundamentada, perde toda a credibilidade por ter sido feita de cara encoberta. O uso do anonimato – não do pseudónimo que, se consistente, pode até ser algo de substancialmente positivo – é um fenómeno antigo. Como o são os autores das cartas por debaixo da porta, dos bilhetes compostos com letras recortadas, dos graffitti em casas de banho públicas ou dos telefonemas com a voz distorcida. Eles podem sempre dizer aquilo que entenderem e na forma que lhes apetecer: ofender, caluniar, ameaçar, inventar, pôr na boca de A o que A jamais disse, dizer que «C disse a B que A». E sem possibilidade de contraditório, uma vez que pessoa alguma, com vergonha na cara e no seu perfeito juízo, aceita participar num jogo viciado com oponentes invisíveis.

Eis, pois, um assunto sobre o qual vale a pena reflectir e que merecerá, crescentemente, algumas precauções e iniciativas – incluindo no que se refere à actividade dos fornecedores de serviços em linha – no campo da segurança dos dados e da responsabilização de quem comunica. Como ando nisto há para aí uma dúzia de anos, participei em dezenas de projectos online destinados a defender a liberdade de expressão, escrevo habitualmente também em blogues e continuo a assinar tudo aquilo que escrevo com o meu verdadeiro nome, creio que posso dizê-lo sem que me confundam com um partidário da censura.

Leia-se também aquilo que sobre o mesmo assunto escreveu o Rui Ângelo Araújo [31.10.2006]

    Cibercultura, Etc.

    50 anos depois de Budapeste

    Budapeste/56

    O evento que determina toda a sequência do «breve século XX» é, para Hobsbawm, a Revolução Soviética. O assalto ao Palácio de Inverno, em 1917, e a queda do Muro de Berlim, em 1989, como princípio e termo de uma experiência de poder – e também, acrescento seguindo Furet, da ilusão que ela alimentou – teriam balizado o período. Mas pode dizer-se que este começou a ser arrasado antes mesmo da sua construção, em 1961. A data de arranque dessa demolição avant la lettre terá sido 23 de Outubro de 1956, quando os tanques soviéticos entraram em Budapeste e puseram termo à Revolução Húngara. O movimento havia trazido para a rua um grande número de estudantes, intelectuais e operários apoiantes de um programa de democratização e de distanciamento em relação à União Soviética, destinado também a liquidar o regime de partido único e a levar ao poder o comunista reformador Imre Nagy.

    A experiência chefiada por Nagy acabou lavada em sangue – o de muitos milhares de húngaros e o dele próprio, preso após haver recebido um salvo-conduto e executado na sequência de um julgamento similar ao dos processos de Moscovo –, provocando clivagens dentro do movimento comunista internacional e, principalmente, no interior do universo muito particular dos compagnons de route dos partidos comunistas ocidentais. Jean-Paul Sartre, Edgar Morin, Pierre Emmanuel ou Italo Calvino foram apenas alguns deles. Sartre assume a ruptura falando do horror que passara a sentir pelas iniciativas da «fracção dirigente da burocracia soviética».

    No annus mirabilis de 1968, a invasão da Checoslováquia e o termo da Primavera de Praga e da experiência de Dubcek com o seu «socialismo de rosto humano», apesar de menos brutais, definiram essa incapacidade de regeneração por parte dos governos comunistas no poder, determinando um crescente isolamento internacional e a resistência, surda ou efectiva, de uma parte crescente das sociedades que controlavam. A erupção de 1989 terá marcado o termo dessa viagem dolorosa inaugurada em 1956.

      História

      Portugalete

      Recebi há cerca de dois meses um cartão de débito da Caixa Geral de Depósitos que substituía o anterior, em final de prazo de validade. Este apontava como novo «tempo de graça» aquele que se estenderia até Abril de 2009. Há dois dias, porém, chegou-me um novo cartão, agora com o diferente prazo-limite de 09/09. Ao procurar conhecer o motivo de tão rápida troca, tentando saber qual dos cartões deveria afinal utilizar, recebi da amável menina que me atendeu nos «serviços de apoio» da Caixa uma explicação edificante. «Sabe», disse-me a moça, «por razões informáticas foram omitidos nos anteriores cartões os títulos académicos de quem os possui», acrescentando que «entretanto recebemos inúmeras queixas por parte de clientes que se sentiam lesados». Olhei de novo para o cartão mais recente – enquanto ouvia mais um «obrigado por ter recorrido aos nossos serviços» – e lá estava, de facto, o tão requisitado e distintivo título. Situações como esta devolvem-me, por vezes, um certo respeito pelos tempos do tratamento igualitário. «Cidadão», «camarada», «irmão», «sócio», «parceiro», «pá», «amigo» igual a mim.

        Apontamentos

        Por La Mancha

        La Mancha
        Seguia num velho autocarro que, em final de tarde, atravessava a Mancha rumo a Barcelona. O machimbombo tinha uma espécie de animação cultural: um motorista entradote mas bastante jovial, que intercalava horríveis cassetes contendo extractos de zarzuelas, interpretadas pela Orquestra y Coros da Radio Nacional de España, com obtusas anedotas «de andaluzes». Em alguns casos, estas pareciam-me até ser a cópia, se não o original, das nossas obtusas anedotas «de alentejanos». De tempos a tempos, conseguia abstrair-me do ruído de fundo e olhar a paisagem que era para mim aquela que havia associado à figura do Quixote. Não a do romance, que à época ainda não havia lido sequer, mas a que obtivera com a mistura de uma versão simplificada, requisitada na carrinha Citroën da biblioteca-itinerante da Gulbenkian, com aquela retirada da projecção televisiva do velho filme de Rafael Gil, rodado em 1947 (relembro agora, recorrendo ao Google, com Sarita Montiel e um ainda jovem Fernando Rey). Reencontrei essa paisagem extensa, de planícies de um amarelo-torrado provocado pela presença dos campos de trigo e da terra argilosa, ontem mesmo, ao ver Volver, o último filme de Pedro Almodovar. O filme é belo de novo, e intenso como sempre, retomando os temas e os tipos que são recorrentes da cinematografia do realizador, embora, talvez por isso mesmo, não me tenha parecido particularmente original. Mas as viagens transmancha daquele grupo insólito de mulheres de três gerações, numa velha carripana vermelho-barro, sob um sol inconfundível e uma poeira que parecia jamais assentar, fez-me recuperar aquela travessia, há mais de trinta anos, pelo cenário real de um imaginado Quixote. Para mim, as mais emotivas sequências do filme.

          Olhares

          Assim se vê o que nos faz o PC

          Pode corresponder a uma forma de preguiça decidir não escrever o post que tinha começado há alguns dias, substituindo-o por palavras de outra pessoa que escreveu entretanto sobre o mesmíssimo assunto que eu procurava abordar (sem a clareza que pretendia, diga-se). Mas se elas retomam ideias que têm servido, mais que recorrentemente, a resistência perante a tirania do «politicamente correcto», fazem-no com uma limpidez que justifica completamente o traço grosso. Transcrevo assim um fragmento da crónica de Pedro Norton («O PC volta a atacar»), publicada hoje na revista Visão.

          «Como muitas das grandes tragédia do século XX, esta variante do marxismo cultural que convencionou chamar-se «politicamente correcto» (PC) terá nascido pela melhor das razões: como intrumento de protecção dos mais fracos em cada sociedade. Mas desenganem-se os que pensam que o PC é apenas um conjunto de regras de linguagem mais ou menos ridículas destinadas a impedir discriminações injustas. O PC é muito mais do que isso. Tal como o próprio marxismo, o PC é um sistema ideológico fechado e autocontido que explica simplisticamente toda a história através das relações de poder entre versos grupos definidos com base na sua raça, género ou orientação sexual. De um lado encaixa os opressores: homens brancos, heterossexuais, ocidentais e demais demónios. Do outro cataloga vítimas: mulheres, negros, homossexuais, «não ocidentais», etc. Tudo o que primeiros façam ou digam é, não apenas errado mas intrinsecamente «mau» (no sentido moral do termo). Tudo o que os segundos entendam por bem fazer deve ser, por natureza, compreendido, defendido quando não aplaudido.

          O fenómeno seria simplesmente idiota se o PC não fosse ele próprio profundamente «politicamente incorrecto». Ou, dito de outra forma, se o PC, nascido como forma de combater a intolerância, não se tivesse transformado numa das ideologias mais intolerantes da nossa era. E se por essa via não estivesse profundamente empenhado em combater um das conquistas fundamentais das sociedades liberais: a liberdade de expressão. O fenómeno seria simplesmente caricato se, em pleno século XXI, não estivéssemos a comprometer o debate livre e a afastar do campo das ideias que são admissíveis todas as que não passam pelo crivo prévio do PC.»

            Recortes