Todos os heróis precisam de um vilão para fazer pervalecer as suas inigualáveis qualidades. Jean Valjean tinha o polícia Javert, Sherlock Holmes contava com o Professor Moriarty, Popeye defrontou Brutus, Batman combateu o Joker, enquanto o primitivo James Bond perseguia o arqui-malfeitor – e terrorista polaco – Ernst Stavro Blofeld. Entre eles, o supremo bem afirma-se apenas diante do mal mais extremo e obstinado. Cruzado por anjos e demónios, tingido de preto ou de branco, o seu mundo dual apenas aceita a simplicidade. O complexo surge sempre como estranho, inqualificável, tortuoso, demasiado humano.
Recebi, via e-mail, um convite para a apresentação de um livro que integra – ela, a apresentação – a «lide de uma novilha por um jovem toureiro» e a degustação de sabores como «escabeche pobre-frio de sardinha quente e carapau e punheta de bacalhau de Verão» ou então «míscaros com presunto, iscas com cebola murcha, arroz pardo de miúdos e vitela no espeto acompanhada de geleia e compotas». Deve existir por aqui alguma mensagem subliminar – e de natureza acentuadamente críptica – que me escapa por completo. Problema meu, claro.
Assusta-me a ideia de viajar até à Grande Ilha: enorme a distância, longas horas encapsulado num Boeing, a companhia de sujeitos que trazem tatuado o crime e o degredo. Resisto também à destruição das ideias-feitas. Já me chega Chatwin, no Canto Nómada (The Songlines), descrevendo aquele aborígene, sentado num bar esconso algures perto de Alice Springs, que fazia imitações bastante convincentes de Bob Marley, Jimmy Hendrix e Frank Zappa. Quero preservar os clichés: as avionetas sobre o deserto, o vulto longínquo de alguns cangurús, boomerangs em perigoso voo rasante, sombreiros à Crocodilo Dundee, jogadores de rugby com os bícepes de um Mike Tyson ruivo, e, claro, o edifício da Ópera concebido por um dinamarquês um tanto dado a visões. 30 Dias em Sydney, de Peter Carey (Asa), transporta-me, porém, para qualquer coisa de estranhamente diverso. As «envolventes falésias amarelas», as «ondas lentas, alongadas», o «deslumbrante tom azul com laivos róseos a despontar da espuma na rebentação». Reflectindo a cidade visível de aço, vidro e asfalto, sinal de futuro sob o efeito solar.
Não fixei o momento no qual pela primeira vez associei a palavra intrigante a algo de raro e intangível. Ocorreu algures, na fase da descoberta da literatura infanto-juvenil, com a sua lista de heróis e de heroínas tão improváveis quanto excitantes e de indecifráveis biografias. Intriga pode ser perfídia, cilada, ou, mais prosaicamente, a secreta maquinação que visa perturbar alguém ou fazer ruir alguma coisa que a ordem natural deveria ter conservado de pé. Invoca também a redução ao essencial das peripécias que integram um determinado enredo. É lida porém de uma forma complexa sempre que se refere a certos estereótipos. Homem intrigante é então aquele de quem se não conhece princípio ou profissão. Poderá ser um ladrão, um agente duplo ou mesmo um escroque, ainda que com maneiras de dandy. Ou um rebelde que esconde a fonte da sua rebeldia e os inimagináveis métodos que utiliza. Alguém que oculta, que cala e lança olhares rápidos e perscrutadores, falando o mínimo possível, agindo apenas quando estritamente necessário, escondendo as emoções. Um Johnny Ringo caminhando sobre a poeira a fixar o horizonte.
A mulher intrigante, essa esconde-se de um modo ainda mais perfeito, associada a um erotismo adornado de mistério, propiciador do descaminho e da interferência, jogado na área da sombra, transformando em seres errantes, definitivamente perturbados, os homens, ou as outras mulheres, que lhe notam a silhueta. Se, em L’homme qui aimait les femmes, Bertrand Morane se deixava seduzir por um qualquer rabo de saia que aparecesse no raio do olhar, jamais escolhendo uma figura exemplar, aqui a fêmea intrigante não pode, de forma alguma, ser «uma qualquer». É antes aquela que desencadeia um efeito especial, de acentuada intriga, reconhecível de imediato na paisagem dos que a rodeiam.
Para se tornar intrigante não precisa fazer muito. Basta-lhe sussurrar. Olhar de forma obstinada e insinuante, embora distraída. Usar uma boina ou um lenço, luvas e brocados no inverno, brincos mínimos e deslumbrantes, anéis, um anoraque colorido. Caminhar deslizando, sem deixar ouvir os passos, não permitindo jamais que se lhe conceba o corpo, mantendo na expressão uma ingenuidade assumidamente falsa e um desinteresse que jamais chega a ser verdadeiro. Pode ser uma activista, possuir nome eslavo ou um sobrenome italiano, escrever em jornais, participar em conspirações, defender a acção directa, a revolução social, ou mesmo, sob certas condições, o terror. Mas fazê-lo no lugar próprio, escondendo em público as dúvidas, aparentando fragilidade e distância, guardando o calor e a decisão para esse tempo algures, esse lugar inexacto no qual se desenha verdadeiramente a intriga que a define.
Esgotado por outra aventura online, cheguei tarde ao planeta dos blogues, numa altura em que parte dos seus primeiros batedores estavam já a abandoná-lo. Depois fui saindo e entrando, a solo ou em companhia, convivendo sistematicamente com a dificuldade em combinar o registo pessoal, diarístico e minimamente escorreito, com uma fala destinada a leitores capazes de partilharem dúvidas, indignações, crises de ideias e excesssos de certezas. Coisa que jamais poderia fazer num meio tradicional, cuja redacção, e respectivos leitores, pouco interessados estariam num registo flutuante, quase sempre superficial, sem trabalho de revisão, empenhado em divagações destinadas ao próprio autor ou a alguma dessas «almas gémeas passageiras» que passam num bater de asas. Admiro pois os operários dos blogues que têm sido capazes de atravessar todas as estações, ultrapassando desânimos, ilusões e servidores em baixo, esforçando-se por permancerem activos, calorosos, inesperados. Irão todos para o céu, tenho a certeza.
Perto de 400 mil peregrinos em Fátima, que a RTP arredonda sem problemas para meio milhão (o que serão afinal, perante Ele, a Eternidade e a Salvação, 100 mil e tal almas a mais ou a menos?). É tempo de crise e de instabilidade, a gasolina sobe que nem uma perdida, o poder de compra diminui todos os dias, as reformas apertam, há desemprego a mais, cartas registadas com multas de trânsito para pagar, fumos de um terrorismo global, doenças esquisitas, a crise da agricultura, o escândalo dos selos, guerras em directo, e, entre tanta desgraça, Nossa Senhora de Fátima prefigura-se sempre como um investimento seguro, recurso dos aflitos, padroeira do destino pátrio e, ao mesmo tempo, amável protectora de cada um.
Compreende-se, pois, que um grupo de Lamego tenha declarado encontrar-se no «altar do mundo» para que o governo «não acabe com a Maternidade» lá na sua terra. Ou que jovens a tresandar a feromonas declarem, entre risadas, estarem ali para cantarem «a alegria da fé». Como se entende a quantidade de pessoas saídas de um país profundo, homens de colete, mulheres de lenço à cabeça, desempregados, vultos sem glamour que não aparecem nas novelas, nem se vêem nos centros comerciais ou nas praias da moda, que não viajam em comboios de alta velocidade e se não encontram sequer nas auto-estradas, que não desfilam em manifestações, mas que falam baixinho nas salas de espera dos hospitais, que conduzem carroças aos sábados à tarde por estradas secundárias, que andam de camioneta e a pé, que fazem férias fechadas em casa e não podem prever o que lhes irá acontecer amanhã. É justo, sim, que, solidárias num Ave Maria em uníssono erguido aos céus, se reúnam em Fátima, pés doridos, joelhos em ferida, lágrimas à vista, lenços brancos a acenar. E a certeza na protecção infinita de um sorriso maternal. Pouco importa que ele lhe apareça moldado em porcelana, pairando sobre uma nuvem de pétalas de flores, notas de 10 euros e garrafinhas de água-benta. Tem sido mais ou menos assim desde 1917.
Lê-se Du Contre-Pouvoir, de M. Benasayag e D. Sztulwark, com um sentimento de revolta: «Vivemos uma época profundamente marcada pela tristeza, que não é apenas a tristeza das lágrimas, mas que é, principalmente, a da impotência». Percebendo como a noção contemporânea da complexidade da vida se une à aceitação defensiva, sob a forma de um tristeza social e individual, de que não possuímos forma outra de a viver que não seja aceitando, submissos, «a ordem e a disciplina da sobrevivência». Respeitando, insulados nos nossos pequenos mundos, cegos e tristes, infinitamente tristes, as formas de tirania que nos cercam, e que justificam essa servil tristeza. Contra ela, criadora, apenas a alegria difícil da resistência.
A fala de algumas línguas, sobretudo a daquelas que não entendemos, define sempre uma harmonia, uma emoção peculiar, que somos incapazes de representar na nossa própria língua. Ouvi certa vez o palestiniano Abdel Karim Sabawi ditar em árabe um dos seus poemas. Não entendi uma só palavra, mas vi estender-se pelo ar, dois passos à minha frente, uma espiral única de vozes e de inequívocos ritmos. A língua italiana, novilatina e por isso mais próxima, essencialmente calorosa, salienta também esse efeito, sobretudo quando pronunciada num dos seus incompreensíveis dialectos. Mas nada de tão raro quanto o grego falado aos seus ignaros. Simultaneamente indecifrável e materno, próximo e fugidio, parece revelar em poucas palavras a bruma azulada, o cheiro a flores cortadas, um resvalar de risos.
Há poucos meses, a partir de um apontamento de Valter Hugo Mãe no blogue Da Literatura, falou-se do «mito de Che Guevara». Volto ao assunto por causa da edição nacional de Che Guevara. Do mito ao homem. Livro escrito por outro argentino, Miguel Benasayag, de passado guerrilheiro, hoje psicanalista e filósofo, co-autor do manifesto da Red de Resistencia Alternativa, que oferece uma reflexão estimulante sobre o lugar histórico e simbólico ocupado pela figura e pelas iniciativas do memorável Ernesto.
Não se trata de uma biografia – para isso temos a excelente obra de Pierre Kalfon, e, um pouco mais comprometida, a de Paco Ignacio Taibo II – nem de mais uma daquelas hagiografias que o governo de Havana faculta aos turistas ou que qualquer um de nós pode comprar na festa do Avante! Também não procura responder ao perverso fenómeno de moda que, entre t-shirts, posters, tatuagens e baralhos de cartas, volta a inscrever-se, quase universalmente, em praças, desfiles e residências de estudantes. Trata-se antes de uma reflexão, pessoal e positiva, sobre o guevarismo que sobreviveu a Guevara, tratando a personagem do Che «simultaneamente enquanto homem e enquanto imagem, ou seja, na sua dimensão mítica».
Partindo do princípio segundo o qual o guevarismo foi, desde o início, «uma maneira muito especial de fazer política, e de desenvolver o laço social porque (…) foi estabelecido sobre o princípio do contra-poder», este livro recupera, mas ao mesmo tempo supera, os episódios meramente biográficos do médico-guerrilheiro. Tudo isto sempre dentro de um território, e Banasayag vinca-o com especial cuidado, povoado pelos que desejam escapar «a este mundo do economicismo e das sociedades de disciplina onde reinam as paixões tristes», mas que integra tanto «a crítica severa da sociedade disciplinada e ordenada composta por indivíduos isolados e egoístas» como a oposição feroz «ao colectivismo, essa outra modalidade social, também construída e ordenada por indivíduos bem disciplinados». Aqui residiria aliás, em correlação com a discordância perante a dependência do modelo soviético, a origem do historicamente inegável – embora sistematicamente negado – distanciamento de Ernesto Guevara em relação às escolhas do seu companheiro de jornada Fidel Castro.
Servindo-se de uma abordagem do mundo contemporâneo e dos seus problemas, da nova realidade comunicacional, dos reequilíbrios construídos em tempos de pós-comunismo, o volume procura outorgar ao Che a dimensão de ser de excepção (mais herói do que santo, sem dúvida, mas essencialmente humano), o qual, para o bem e para o mal, teria consubstanciado fisicamente, e materializado no campo simbólico, a resistência – sem meta-históricas metas históricas – a todos os regimes e sociedades uniformes, previsíveis, baços e carcerários. Uma resistência consumada «sem despertar sonhos de escravos cheios de ressentimento, nem fantasias de poder, nem nenhuma certeza quanto a futuros paradisíacos». Resistência que resiste «sem tristeza porque, como dizia Deleuze, no fim de contas, a tristeza é sempre reaccionária».
Um Guevara, pois, que «apenas» enunciou, mais do que um caminho, uma atitude para a ligação permanentemente subversiva e criadora, sem modelos a copiar, com o quotidiano e com os outros. Um Guevara humano, falível, responsável por sacanices tramadas, como todos os humanos. Insatisfeito, sempre, tal como todos nós podemos ser. Exemplo apenas porque estímulo. E pouco mais. Talvez por isto, há pouco tempo, uma inscrição anónima anunciava numa parede de Buenos Aires: «Tenho no meu quarto um poster de cada um de vocês. O Che»
Três pequenas notas mais sobre aquilo que VHM escreveu:
1) Uma banalidade sobre a crítica da violência: a guerra de guerrilha possui, como todas as guerras, os seus horrores e também a sua legitimidade. A execução de alguém, mesmo num acto de guerra, é sempre um gesto extremo, terrível. Mas o gesto guerrilheiro jamais se fez com uma flor na mão. Foi cruel e assassino, sim senhor, como brutais e impiedosas foram as ditaduras que enfrentou.
2) Sobre a homofobia do Che: Ernesto era um argentino típico dos anos 1950, mulherengo, sedutor e dançarino, muy macho obviamente. Culturalmente resistente a uma sexualidade que se refugiava ainda nos mais impenetráveis subterrâneos. Assim a olhavam a esquerda e a direita, na altura estruturalmente homofóbicas. Outros tempos, felizmente.
3) O documentário fílmico para o qual VHM deixou um link centra-se em testemunhos de gusanos – imigrados cubanos nos EUA, marcados por um anticomunismo à Joseph McCarthy que tem sido utilizado para ampliar a base de simpatia da qual continuam a dispor Castro e o seu regime – e que serviram, alguns deles de armas na mão, o governo corrupto e repressivo de Batista. Tal não retirará alguma credibilidade aos seus comentários rancorosos?
Distingo Manuel Alegre – por muito que dele se possa discordar, e eu discordo em muitas coisas, um dos respeitáveis fundadores da democracia portuguesa – do movimento que à sua volta foi criado durante as últimas presidenciais. A maioria do PS, subjugada até ao pescoço pelos exercícios de aparelho, pelas perigosas ligações de influência, pela mais abjecta despolitização, não percebeu, ou prefere não perceber, nada do que se passou, continuando entretanto, obstinadamente, a fazer frente a ambos. Já os ataques do Bloco de Esquerda, há dias intensificados, possuem uma natureza diferente. Eles reflectem, de alguma maneira, a distância que se tem vindo a estabelecer entre o Bloco original, o «de todas as cores», e aquele que agora conhecemos. Para o primeiro, que de certa maneira já pertence ao passado, o milhão e tal de pessoas, imersas em nebulosas mas sinceras expectativas, que apoiou Alegre, seria um aliado natural, de capacidades dinâmicas a explorar na busca de «outra política» face à gestão neoliberal desenvolvimentista promovida pelo «grande centro». Para o actual BE, que concentra a sua respeitável actividade nas laboriosas iniciativas parlamentares e em campanhas eleitorais personalizadas, ele parece-se mais com um concorrente no terreno. Julgo pois haver aqui um problema qualquer de comunicação. Ou então existem escolhas que tornam esta cada vez mais difícil.
Dormia a sono solto na manhã do dia do trabalhador. O bairro periférico parecia dormir também. Ao longe, quase deserta, a via rápida procurava ainda acordar. Como os velhos dirigentes sindicais, que à mesma hora molhavam o pão no café com leite, antes de se prepararem para mais um desfile. De repente, o telefone. Do outro lado uma voz de mulher tentava convencê-lo a comprar a crédito um robô capaz de limpar o pó, de aspirar, de cortar a relva, de fazer bricolage. Suspeitou que fosse uma mentira do Primeiro de Maio. Disse qualquer coisa, desligou.